Desembarca o rapa no Rio Vermelho *

junho 26, 2016

Nos últimos dias foram denunciadas nas redes sociais sucessivas ações de fiscalização por parte da guarda municipal de Salvador – o famigerado “rapa” – que apreendeu mercadorias e impediu vendedores ambulantes de comercializarem bebidas no recém-reformado bairro do Rio Vermelho.

Se à primeira vista a indignação que o fato provoca ancora-se no sentimento de solidariedade com aqueles batalhadores que tem seu direito ao trabalho tolhido, um olhar mais atento perceberia que há outras questões implicadas nesta política, a qual, somente em aparência, toma os trabalhadores informais como alvo exclusivo.

Tal interdito ao comércio informal na noite do Rio Vermelho ignora toda uma juventude que não tem como propósito nem tampouco cultiva o hábito de sentar-se nas mesas dos bares e ali consumir, preferindo ficar de pé na calçada, priorizando o trânsito e o fluxo em detrimento de estabilizar-se num ponto específico.

É como se de repente os jovens frequentadores do Bairro Alto lisboeta fossem impelidos a interromper suas deambulações por aquelas ruazinhas estreitas em favor do consumo por determinado período de tempo em certo estabelecimento, esquivando-se de uma noite cuja vivacidade reside sobretudo na possibilidade de itinerância.

Portanto, antes de se constituir como uma violência contra os ambulantes, o “rapa” agride a identidade do bairro e a seus usuários, aqueles sem os quais não há vida possível no Rio Vermelho. Isto sem falar no preço mais acessível da bebida na mão dos ambulantes – tocando aqui em uma sensível fatia da população que presentifica-se no lugar.

Se, ávido pela monopolização do mercado, o empresariado local pressiona o poder público, há que mobilizarmo-nos em defesa dos ambulantes e do serviço que prestam à cidade ao garantirem a manutenção das práticas de lazer e entretenimento que compõem a própria paisagem do Rio Vermelho: a “cultura do isopor”.

 

* Artigo publicado na edição de 25/06/2016 do jornal A Tarde.

O futebol e eu

junho 21, 2016

Na infância eu gostava muito de jogar futebol, a começar pelo super nintendo. Geralmente jogava bola com os vizinhos no meio da rua, num tempo 1) em que as ruas não pertenciam aos automóveis; 2) em que as crianças de bairros de classe média não eram trancafiadas dentro de casa, ou ainda não existiam os tais condomínios horizontais. Jogava muito também nas tardes de domingo na casa da minha avó paterna, quando se reunia toda a família. Os adultos jogavam buraco, as crianças mais crescidinhas jogavam bola, as mulheres que não se integravam à mesa de carteado ‘tricotavam’ no frescor do quintal. Quando a minha avó resolvia pintar as paredes de branco, peraltas, jogávamos às escondidas. Mas logo o som das bicudas explodindo na parede, o gol, despertavam a velha astuta. Lembro com algum saudosismo da cena da minha avó com a bola e uma peixeira na mão prestes a empunhar a faca afiada na danada, e a gente desesperado “ô, voinha”, gritando como quem grita por um ente da família feito de refém. Não me lembro de um dia em que ela realmente tenha cumprido a ameaça. Essa minha vó, como boa sertaneja, estava um pouco distante demais dos padrões de docilidade feminina, mas talvez eu tenha demorado muito tempo para aprender a admirar isso.

 

Na escola eu era um verdadeiro desastre no futebol. O dia da bendita aula de educação física era sempre esperado com sofrimento por mim. Era o momento em que se tornava patente que eu, enquanto projeto de macho, já havia fracassado. Eu ficaria na biblioteca, talvez praticando algum esporte mais soft como ler um romance, e os rapazes estariam suando, com seus hormônios a pulularem. Se eu, que sempre me destacava nas notas, fazia gosto ruim em compôr grupo com os meninos da bola, o mesmo era feito por eles na hora de “tirar o time”. Éramos bem uns vinte, e eu, franzino, ficava no cantinho, esperando o que resultava da apreciação dos meus cambitos na quadra: o meu desempenho era uma bosta; eu era o último a ser escolhido. Nunca consegui mudar essa história, e talvez nunca tenha me empenhado verdadeiramente em fazê-lo. Mas era um momento deprimente para mim. Essa cena que se repetia toda semana foi marcada pelas não poucas vezes em que o professor, de nome “Babal”, obrigava os colegas a me colocarem no time. Provavelmente eles preferiam ficar com o time desfalcado (eu não me lembro se além de não ajudar atrapalhava) ou então: ok, Maycon fica no banco (de reservas).


No caminho de Ondina ao Rio Vermelho sempre achei bonito ver os meninos jogando, iluminados apenas pela luz da lua, na areia da praia da Sereia. É também uma grata surpresa saber que às duas ou quatro da manhã de uma terça-feira pode ter rapazes jogando na quadra de Ondina, em frente ao meu apartamento. Algo de muito bom deve acontecer ali – eu pensava. Hoje, em Feira de Santana, tenho redescoberto o futebol. Eu, que apenas cuidava das plantas do condomínio, decidir arriscar deixar o lugar de tímido espectador, descer dois lances de escada e pedir para jogar. Não foi sem surpresa que os carinhas da bola me viram abrir o portão da quadra e pedir para jogar. Decerto que eu era a última pessoa do universo que eles esperavam cruzar o portal, e a verdade é que eu estava pagando para ver a reação deles. O fato de serem meninos (e uma menina) de 12 – a maioria -, 15, 19 anos me fez sentir mais à vontade para me aproximar; definitivamente eu não poderia jogar com meus pares. Ontem surpreendi-me que o cara que mais joga aqui, um guri de 12 anos, disse que é uma bosta no futebol jogado na escola, e que talvez minha história, ainda que diferente da dele, não seja única. O resultado é que desde quarta-feira passada, diariamente, espero todas as noites para jogar. E jogo. Já não sou o último a ser escolhido (mas penúltimo, rs), e até mesmo faço gol. Ainda que, eu cá com os meus pulmões de anjo, seja o que de longe tem menos fôlego do time (no primeiro dia achei que fosse enfartar), os meninos me chamam de “monstro”, e eu gosto disso. O futebol mobiliza vários sentidos (eu gostaria de ter olhos na nuca), não é um esporte fácil, e tem me encantado profundamente. Posso substituir pílulas de rivotril por uma boa pelada. Mas continuo sem poder ser goleiro: morro de medo da bola, e os meninos riem quando eu fico no gol, chutam, e eu simplesmente corro fora. No sábado algumas garotas vieram me procurar, tão timidamente quanto eu aos meninos, porque também tavam a fim de jogar, e eu quero ajudá-las a, enquanto estiver nesse condomínio, colaborar para a construção de um futebol mais inclusivo. Na esperança de que a bola nunca atinja os meus óculos. Não posso deixá-los.

O equilibrista Kannário e a favela no carnaval

fevereiro 17, 2015

Nesta segunda-feira de carnaval, Kannário, cujo nome não se encontra indexado no wikipedia, topou aquilo que pode ser considerado, talvez, um dos maiores desafios de sua carreira: fazer um “carnaval da paz”. Para que o São Cristóvão, Pirajá, São Gonçalo, o Bairro da Paz, São Caetano, o Curuzu e mais uma infinidade de subdivisões territoriais da cidade mencionadas, saudadas, conclamadas pelo Príncipe do Gueto no seu desfile, acedessem ao Circuito Campo Grande (Avenida), ou, em outras palavras, para que a favela descesse, era necessário firmar um compromisso: abrandar os ânimos “indóceis” dos seus seguidores.

A “chance” – sim, essa palavra de peso – oportunizada pelo astuto prefeito ACM Neto, estava condicionada à uma performance comportada, controlada, uma ética de responsabilidade pelos seus assumida por Kannário. Se a favela já lhe considera nobre, membro privilegiado de um povo, só o Estado-Rei lhe poderia confirmar o título de chefe de um principado. Sob Seus olhos vigilantes, amparados por toda sorte de tecnologias de visualização distribuídas ao longo do percurso, e aliada à uma atenta escuta ao que dispara no microfone-arma, Kannário, como um filho “de castigo”, dispôs-se à perscruta, que vale toda a pena que residiria em ficar de fora da festa “escutando a gargalhada”.

Nada foi gratuito. Para o “prefeitinho” não basta ser ovacionado por Daniela Mercury, Márcio Victor e todos os demais artistas estabelecidos no carnaval. Ambicioso e sagaz, ele queria seu nome pronunciado pela boca de Igor Kannário. E teve. Se carnaval é alegoria e o político precisa ir além do centro (não se sustenta popularidade ignorando as margens, sem tentar capturá-las), o neto pegou a carona do príncipe e rumou pra favela. Eles se precisam. Igor Kannário afirmou que “esse prefeito é barril dobrado”. Quer dizer, só faltou dizer que “ACM Neto é favela”. Mas ACM Neto é carnaval. Nos bastidores da mesa de negociação para que o Príncipe do Gueto participasse da folia somaram-se mais de sete mil pedidos no perfil do prefeito no instagram para que Kannário lá estivesse.

Em lúcido depoimento disponibilizado no youtube a título de desabafo, que foi ao ar num programa televisivo (que não da Rede Bahia), Igor Kannário compara-se a Bell Marques. Sim, uma das mais antigas memórias do período momesco que guardo são as queixas relacionadas à pipoca do Chiclete, na qual sempre rolavam altas brigas. Entretanto – ressalta inteligentemente Kannário – Bell jamais fora por estas responsabilizado. Ele, Kannário, vem de outro lugar. Se suas músicas podem ser rotuladas por alguns como “apologéticas à violência” é porque ele, enquanto poeta, consegue trazer o seu mundo para dentro das letras das canções; um mundo em que prevalecem outras leis, relações outras de poder, e, como qualquer outro mundo, porque não mereceria também ser objeto de atenção por parte do artista? O que talvez seja insuportável para “a sociedade” é (re)conhecer a existência do “lado B”, em que o marco da legalidade muitas vezes passa ao largo e o Estado mais reprime que assiste.

O sentido de “brincar carnaval” não é único; há quem vá para a rua engajar-se em paquera, em danças, em cantar junto, em voyeurismo, há quem faça tudo isso e inclusive brigue. Porque será que alguns grupos que possuem “rixa” entre si arriscam-se à confrontar-se em plena avenida, ainda sabendo que podem levar cacetadas ou mesmo serem presos pela polícia? Se relações de violência são constituintes da favela (a qual, por favor, não se reduz a isso), como queremos que “os favelados” participem da festa? Não sei responder, mas sei que foram esses grupos que, pelo menos no seu desfile, Kannário desafiou-se a controlar. Mas ele foi além: “por favor, não solte gás pimenta” – disse, dirigindo-se à polícia. Neste sentido, Igor Kannário denuncia sutilmente, ainda que não de modo calculado, que a “violência” não está alocada apenas no polo mais óbvio, nos “favelados” – como ele próprio diz – mas também permeia como prática integrante do Estado, que monopoliza o direito legítimo de uso da força. Basta perceber como os baianos se defendem uns aos outros, muitas vezes desconhecidos até, quando passa uma horda de policiais no carnaval. Isso acontece porque a prática de violência é predominante na instituição policial, e possivelmente há alguma produção de prazer ao executá-la. Também hoje Saulo comentou, enquanto puxava o Coruja: “Rolando spray de pimenta aqui. Oh, Meu Deus, de novo esse negoço”, e logo teve a transmissão interrompida pela Rede Bahia com seu merchandising. Para mim foi como se Kannário dissesse: eu controlo o impulso dos meus, mas controlem-se os vossos impulsos também, policiais (ou “putas”, para usar o jargão da favela).

Bom, é certo que ACM Neto já entendeu que Kannário é uma via privilegiada de acesso à favela. Por razões outras, de natureza antropológico-afetivas, nutro crescente interesse por Kannário e seus discursos, o que ele sintetiza e provoca. Barril dobrado, pombo sujo, de keké. Em cima do trio elétrico o músico afirmara que “meu sangue é preto, por isso meu corpo é todo tatuado”. Ele, por sua vez, está tatuado no nome – algo de tão próprio – de muitos dos seus seguidores; basta observar que Kannário figura como sobrenome no perfil de facebook de muitos meninos da periferia de Salvador. Na grande alegoria que é o carnaval eles passaram na prova de fogo: mostraram que são capazes, ao lado do Estado da selvageria e da barbárie, de desenhar outro mundo, outro modo de ser possível, no carnaval. Acredito eu que sem se assimilarem – Kannário não se propõe a isso -, reconciliaram-se “na manha” com a “sociedade da paz”, a qual, na sua mais alta hierarquia, tem este sentimento laboriosamente forjado pelos guarda-costas que acompanham os foliões desde a sua hospedagem no final do circuito Barra-Ondina ao Camarote Salvador. A cada paz que se realiza, a cada folia que se performa, um preço a cada.

Esse desfile de Kannário me lembra, enfim, uma imagem muito bonita que uma amiga chamou atenção certa feita: há alguns criadores de pássaros na favela que, no dia-a-dia, levam suas aves para “passear”, como um cão preso à coleira. Então penduram as gaiolas em grandes árvores, em frondosas mangueiras, onde, ali, passa-se um tempo. Quando vejo ACM Neto elogiando a paz que tanto, do alto da sua sacada, lhe agradou, penso em pássaros no cativeiro, um grande viveiro, e Kannário os levando pra passear. Gaiolas, gaiolas por toda parte.

Chamada disponível no perfil oficial de facebook do cantor

Chamada disponível no perfil oficial de facebook do cantor

Tesão por policial e os rolezinhos nossos de cada dia

janeiro 27, 2014
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Era uma sexta-feira qualquer e, como é de lei neste dia da semana, jovens pretos do Nordeste desceram para curtir uma sexta sem lei. Sem lei? Talvez. O Nordeste de Amaralina, como me explica um sujeito etnográfico, é um complexo de quatro bairros: Santa Cruz, Vale (das Pedrinhas), Chapada (do Rio Vermelho) e o Nordeste em si. Não obstante junta-se ao bando jovens de outras comunidades circunvizinhas, como o Alto de Ondina. Às vezes calha de estarem misturados a moradores do próprio Rio Vermelho e de outros bairros classemedianos da cidade. Mas isso quando, pelo menos, há uma convocatória pelo Facebook capaz de agregá-los. Entretanto, não se tratava ali, nesta sexta-feira que evoco, de uma festa mestiça, o que a fadava inevitavelmente ao fracasso; ali onde a mestiçagem poderia simbolizar a redenção.
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“De keké”, caminhando meio sem destino naquela noite, observei a movimentação do Mercado do Peixe, muito embora – importante ressalva – do lado oposto aos bares, o que já poderia ultrajar os jovens como maus consumidores, presenças não tão benquistas, ao menos pelos proprietários dos estabelecimentos comerciais. Foi ali onde, antes de juntar-me aos “meus” no Largo da Dinha, decidi parar: rápida etnografia para consumo próprio. Eis que a primeira cena que vejo é da Polícia Militar abordando alguns rapazes, sob as despropositadas luzes azuis e vermelhas que teimam a alardear-nos os olhos.
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Eu não sei porque cargas d’água, decidi deliberadamente provocar a Polícia, como um dia em que você não está disposto a “deixar passar”, sobretudo se se trata de cenas clichês em que você se sente coagido a curvar-se como um espectador que não intervém. Mas é que sou da geração cam4, baby, gosto de participar do espetáculo. Então tirei do bolso meu celular e acionei o flash, que geralmente desligo para libertar minhas centenas de cliques da censura alheia. Feito isso, mirei em direção à cena, do mesmo modo que, antes mesmo de descer do carro, a Polícia aponta para meninos de dez anos de idade voltando pra casa depois de uma manhã de domingo na praia (observem no tamanho do terceiro garoto – à direita – da foto). A diferença é que a minha arma não era de fogo, mas tão-somente a informação. Para a Polícia, para quem aquela atividade poderia ser apenas mais uma entre as tantas de uma enfadonha rotina laboral, a entrada do meu flash em cena pode ter livrado aquela abordagem do conforto do hábito. Perguntar-se-ia porque esse rapaz está nos fotografando, o que ele teria visto de incomum, ou de… repreensível.
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Falei em meu celular investido de uma câmara sob a alcunha de arma pois se não o fosse o flash que ele irradiava seria subestimado, e porque, caso não vivesse, felizmente, em um tempo em que cada vez mais essa corporação fosse alvo de escrutínio crítico, a Polícia bem poderia se prestar a um exibicionismo sem vergonha, breve e indolor. Na chapa. Uma policial então me viu (os dois ou três policiais que abordavam os jovens estavam de costas para mim), e se deparou com um menino branco, de bata branca e de óculos de aro grosso. Provavelmente deve ter se perguntado primeiramente o que eu, como único branco no ambiente, estava fazendo ali, depois o que eu tinha a ver com os jovens abordados – talvez tal questão pode ter rondado a mente e mesmo a conversa daquele grupo durante parte da noite, ou talvez ela tenha sido simplesmente abortada, quiçá respondida de modo fácil e prático. Como se o próprio flash não denunciasse a minha petulância, ela denunciou a intromissão para seu comparsa de milícia: “Ele está fazendo foto”, como se o interpelasse a agir. Foi tudo tão rápido (essa narrativa está muito aquém do incidente e da minha taquicardia) que nem me lembro se o policial interrompeu a abordagem ou a concluiu, mas sei que ele veio em minha direção com toda sua fúria policialesca: “Quem lhe autorizou a fazer essa foto? Apague essa foto, vamos!”. Eu disse, com toda a sinceridade e cinismo e desdém do mundo: “Não sei apagar, realmente. Você quer tentar?”, quase sorrindo de lado, mas visivelmente intimidado. Ele tomou o aparelho da minha mão, e foi passando de um a um colega para ver afinal quem conseguia apagar aquela maldita foto; que não deveria, pois, ser reproduzida. Mas nenhum deles, qual o dono do aparelho, estava habilitado para isso, e eu a trago aqui como se fosse uma grande novidade, o último furo jornalístico da Bahia.
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Então este mesmo policial que se encarregou de mim pergunta: “Você sente tesão por policial, é?”. Só faltou o “viadinho” no final da pergunta. Para ele devia ser bastante plausível que eu fosse mais um desses que tem fetiche por fardados. Não é que ele esteja totalmente errado no que insinuou, mas, em geral, a Polícia em particular mais me desperta asco que tesão. Aliás, soube recentemente que há uma expressão ou palavra francesa que remete à terrível sensação de só depois do lance levado a cabo você encontrar a melhor resposta a oferecer; uma resposta dormida. Eu lhe deveria ter dito: “Sinto tesão por alguns, por você não”. Mas que diabos tinha a ver minha sexualidade com aquela situação? Tudo? Certamente, chamar-me de viado me desautorizava moralmente a criticar sua prática. E foi mais ou menos por aí que ele resolveu proceder seus ataques. Feita a pergunta, ainda mais irritado com a minha intimidação forjada em arrogância (que, em verdade, era alimentada por uma segurança acerca da minha superioridade moral perto daqueles policiais), ele deu a voz: “Abra as pernas, vamos!”. Abri. “Abra as pernas!”; abri um pouquinho mais. Ainda não contente, ele vociferou mais uma vez: “Abra as pernas!”. Oi? Então ele queria que eu escalasse, só pode. Sim, pois nunca vi ninguém elasticizar tanto as pernas quanto ele gostaria que eu fizesse numa abordagem. Depois de passar as mãos pelo meu corpo, talvez pelo meu cu mas com certeza não pelo pau, ele ordenou que eu tirasse tudo que eu tinha dos bolsos. Depois mandou que eu tirasse os próprios bolsos pra fora. Ele estava tudo menos convicto de que encontraria algo ilegal comigo. E depois ele pediu que eu tirasse ainda mais, e daí, impaciente, foi a minha vez de falar: “É pra eu tirar a roupa também?”.
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Convicto de que ele havia me agredido e revidado à altura minha tamanha ousadia (minha ostensiva sobriedade não podia provocá-lo qualquer desconfiança), ele deixou-me em paz. Parcialmente. Estava com o meu coração saindo pela boca, mal conseguia acender um cigarro, que eu nem fumo, de tão trêmula que estava a minha mão. Ainda assim, fiz questão de manter inicialmente meu olhar vigoroso e bravo, que não cessou de desafiá-los, e contra o qual eles já nada podiam fazer, em sua direção. Depois disso, um rapaz que me pediu um cigarro (eu o havia conhecido na praia no dia anterior) disse para o amigo: “Bó, bó. Bó ganhar!”. E eu perguntei a razão deles irem embora. E eles apenas disseram o que lhes era óbvio: “A Polícia aqui, rapaz”.
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Claro. Ainda que eles não estejam fazendo nada que possa ser enquadrado na clandestinidade, a presença da Polícia naquele ambiente basta para intimidá-los. Já vi cenas em “calouradas” (batizado com esse nome, o evento já não mantém ligação genealógica com estudantes do ensino superior) da Polícia revistar dezenas de pessoas compulsoriamente, de modo que todas as outras se ia afastando, pois, caso optassem por ali permanecer, seriam as próximas, e é certo que não gostariam de submeter-se a tal constrangimento (agressão). A Polícia é responsável pela dispersão dos bandos nestas sextas-feiras, que, coagidos e não sem razão, cumprem exatamente o que está prescrito no recôndito regulamento: partem em retirada. E a Polícia o faz de modo sutilíssimo (é?), pois que não os expulsa, “apenas” os aborda. Aquilo ali não é um rolezinho, não é um evento convocado pelo Facebook e nem é excepcional: aquele rolê e sua dissolução integra a rotina de todos esses jovens que, indóceis, se aventuram a descer.
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Enquanto eu definhava na minha impossibilidade de superar esse indigesto episódio, sentei-me no banco entre dois jovens e, naquele momento, tão entre eles quanto totalmente ensimesmado, senti-me, ainda assim, silenciosa e ligeiramente acolhido. Mas, devo confessar: também eu precisava sair dali. Mais adiante, um ambulante com isopor de cerveja comentava com seus amigos aos risos, mas afavelmente (acredite), sobre a ordem da Polícia para que eu abrisse as pernas. É claro que aproveitei para pregar a palavra um bocadinho. E um deles comentou: é, mas muitas vezes esses meninos tão com drogas. E eu, que nunca vi a Polícia encontrar nada com quem quer que seja, ainda assim pensei de pronto: “É… legaliza-se as drogas, legaliza-se esses rolês”. Um mundo possível?

O dia em que recebi um ultimato de despejo

março 7, 2013

É muito triste quando, na sua vida cotidiana, nas relações interpessoais que você tece, você tenta ignorar os preconceitos; sim, esses preconceitos que povoam de modo tão pré-reflexivo a nossa inserção numa realidade social maculada pela distribuição desigual de recursos escassos – como tão bem afirma o sociólogo Jessé de Souza.

Mais do que isso, você recusa ser parte desse ethos excludente, e luta espontaneamente contra o preconceito a cada vez que tocam a campainha da sua casa e você diz: “entra, mano”. É muito triste quando, depois de uma visita aparentemente inócua, o estigma pode ser reificado meio que como um golpe. E esse golpe não é compartilhado, ele parece ser só seu (mas não, não é só meu, é muito pouco meu!). Afinal de contas, foi só você, “o otário”, que tentou ignorar, na prática, a marca estigmatizante que carregam os subalternos. Na cultura do risco, a responsabilidade é sempre individual.

Sei que estou muito triste porque, por mais que não queiramos que assim seja, pode ser material e emocionalmente doloroso cruzar certas fronteiras sociais. É um fato que eu simplesmente, como tantos fazem, não consigo encarar com naturalidade.

Naquele sábado inicialmente solitário, quando a síndica interfonou para o meu apartamento dizendo que os meninos que saíram da minha casa haviam levado a bicicleta de uma condômina, posso dizer que meu mundo caiu. O apartamento da síndica fica no lado e direção opostos ao meu, mas no mesmo andar. Quando, por um acaso, viu o naipe dos meninos (ou seja, pivetes) que tinham acabado de deixar a minha casa, correu para a sua janela, cuja visão abrange o portão que dá acesso ao prédio, onde ali ficara pendurada e só se deu por satisfeita depois que um desses garotos levaram a tal bicicleta. Posso apostar que, ainda que inconscientemente, ela vibrou com a cena: “eu sabia!”. Clarividência é para poucos.

Eu vivo no Rio Vermelho. Como diversos bairros de classe média de Salvador, somos, para o pânico de muitos e deleite de pelo menos um, rodeados pela Chapada [do Rio Vermelho], pela Santa Cruz, peloNordeste [de Amaralina] e pelo Vale [das Pedrinhas]. A praia do Buracão, ou o meu quintal (ou escritório, vide “meu escritório é na praia”), é pertencente à facção do Vale e da Chapada. Portanto, ainda que queiram, os meninos do Vale não podem frequentar nem a praia da Amaralina e nem a da Paciência. Nós, não os outros, podemos transitar mais ou menos livremente pela orla. Parcela significativa das relações que enredam o meu cotidiano riovermelhense são tecidas na praia do Buracão, ou Anita, como esses garotos costumam chamar. Anita Costa é o nome de batismo da praia do Buracão.

Faz algum tempo que sou amigo desses meninos e que acompanho suas aventuras nos recifes e águas da Anita. O meu interesse, é verdade, quase sempre inicia sexualmente mas  quase sempre extrapola para um desejo que você pode chamar de mais nobre, mas que eu não diria assim: o desejo antropológico. Dar o fora do meu aquário. Né álibi não, neném. Com esses garotos, embora mais da metade da gente não acredite (de tal modo que quase fui por eles convencido), não houve nada. Nada? É, nada; porque se somos gays, o sexo é tudo. Logo, se não houve sexo, não houve nada. Houve, sim, um macarrão, pão com queijo (mussarela para eles é um luxo; “tem até queijo!”), laranjas, bananas, e tudo o que eu podia oferecer-lhes para a larica – como costumam chamar qualquer gênero de fome. Ah, isso tudo no meio de funk, rap e pagodão.

Atualmente somos impedidos de ter colegas menores de 18 anos, sabe? Pré-púberes então, converte a camaradagem num dos crimes mais hediondos. Não há interesse antropológico que dê jeito. Quando os garotos, afinal, vieram devolver-me a bicicleta (o maior deles, a contragosto dos outros, achou de levá-la), uma senhora moradora pegou o interfone e não hesitou em me ameaçar: “Se esses meninos entrarem no prédio, eu chamo a polícia”. Para eles está muito claro: se um viado adulto recebe menores em casa, não há nada mais óbvio que práticas sexuais obscuras. Confesso que me senti meio Michael Jackson. E fala-se na sua inocência como se apóiam em valores tão burgueses como honestidade para interpretarem o inusitado fato de meninosda periferia levarem uma bicicletinha que tava dando sopa num prédio que só tem “patrão”.

Sob o olhar torto de toda a vizinhança, desde que somos amigos, esses meninos costumavam vir tirar areia dos pés na torneira aqui do prédio, ao saírem da praia da Anita. Eu gostava que fizessem isso, às vezes por pura provocação.Sempre aguardei aquela repreensão que até então nunca ninguém teve coragem de me dirigir. E sempre, sempre quis poder acusá-los de racistas. Pois é, o fato é que eu não mais poderia fazer isso. Nunca mais os meninos virão aqui em casa. Com a sua licença, agora faço questão de retirar-me do nós: eles todos venceram. Mas os meninos ainda poderão me interfornar, como hoje, que me pediram uma camiseta emprestada porque queriam jogar bola no colégio e o porteiro não os deixou entrar descamisados. Como hoje, prontamente irei atendê-los. E a vizinhança dessa vez estranhará que, mesmo depois de terem furtado uma bicicleta (embora, depois de uma longa negociação, a tenham devolvido), eu ainda mantenha uma relação amigável com os pivas.

Bem, e quanto à polícia, todos sabemos que o que estava em jogo não era e nem nunca foi qualquer defesa de direitos humanos, defesa dos direitos da criança e do adolescente contra uma apenas suposta pedofilia, até porque, para eles, aqueles meninos não se tratam nem de crianças e nem de adolescentes, mas de pivetes, essa categoria subhumana e de antemão criminalizada, cujo significado, quando assim se denominam uns aos outros, vem sido somente por elessubvertido. O que sempre esteve e estará em jogo, isto sim, é o inviolável direito à propriedade privada, um direito humano por excelência, ou mesmo uma moeda de acesso ao tão cobiçado status de… humano.

Devo dizer que o episódio foi a gota d’água para o rompimento de uma relação de moradia de cerca de cinco anos, com amigos de uma década. É chegada a hora de pedalar por outras paragens – sem mágoas, mas, certamente, com um bocadinho de preconceitos. Eles venceram e o sinal está fechado pra nós?