Ruídos que servem para pensar: a digitalização dos trabalhos acadêmicos e suas implicações *

julho 10, 2017

Durante boa parte da nossa recente história de produção intelectual acadêmica, volumes e mais volumes de dissertações e teses foram relegadas ao consumo, quando muito, das traças de biblioteca. Seus resultados eram quase que segredados a uma banca composta por especialistas, e restritos, assim – salvo algumas exceções –, a um circuito de leitores muito limitado.

Os tempos mudaram, e a digitalização destes trabalhos vem nos apresentar um novo público, ainda pouco conhecido e por isso mesmo desafiador. Por vezes implacável, a abertura a uma recepção mais ampla ao texto reforça a importância de deixarmos exaustivamente clara a pertinência do estudo a ser realizado, uma vez que vê-se multiplicado o próprio público a quem prestaremos contas. Esta faceta pode ainda ser maximizada mediante as ondas de acesso e compartilhamentos que suscitam as redes sociais.

Por outro lado, a digitalização de dissertações e teses demandam um esforço para, além do trabalho principal, investirmos criativamente em novos formatos de textos, comunicações voltadas para não especialistas e para potenciais utilizadores dos dados produzidos, quando aplicável. O que estou querendo chamar atenção é que o processo de digitalização dos trabalhos de conclusão de curso não foi devidamente acompanhado de uma reflexão por parte dos programas de pós-graduação, como se a prática da escrita prescindisse da pergunta: para quem estamos escrevendo?

Se à academia seria não apenas profícuo como urgente esse debate, a imprensa, por sua vez, não pode furtar-se a este. Tornar-se mais um a atuar na difícil difusão e discussão do conhecimento produzido nas universidades, em um país com níveis educacionais tão discrepantes, exige a responsabilidade de tratar com cuidado cada texto, para que não se incorra em críticas rasteiras (por exemplo, colando trechos deslocados do contexto de produção em que o mesmo fora escrito, não permitindo ao leitor uma familiarização ao enredo no qual o autor está situado). Ou seja, resenhemos e critiquemos os trabalhos, mas com seriedade. Ou isso ou estaremos fadados a prestar um desserviço com posturas anti-intelectuais e levianas.

Devo ainda dizer que a digitalização acadêmica não democratiza os ruídos a que nos expomos. Quer dizer, as ciências humanas sempre serão mais vulneráveis a tornar-se alvo de críticas, o que se deve à própria natureza do conhecimento que construímos. Trata-se, como alegam alguns estudiosos, de uma interpretação de “segunda mão”, isso porque os “leigos”, aqueles a quem nos juntamos nas nossas pesquisas (e com quem aprendemos), bem como os que doravante terão acesso ao nosso estudo, já dispõem de uma interpretação sobre o que discutimos. Consiste justamente nisso o maior desafio e também o extremo fascínio que exercem as humanidades: a possibilidade de debater seus objetos e sujeitos de pensamento com todos.

Finalmente, não é uma novidade ou singularidade brasileira temas “não canônicos” serem motivo de objeções e controvérsias. A antropóloga Jeanne Fravet-Saada teve um colega na academia francesa do final dos anos 70 do século passado que “chegou a sugerir que o CNRS [Centro Nacional de Pesquisa Científica] deveria cancelar sua bolsa uma vez que, repudiando a ciência, ela a teria empregado simplesmente para se tornar uma feiticeira”. A referida estudiosa, cuja atribuição de bolsa (recursos públicos) teve sua legitimidade questionada, simplesmente produziu o que o Professor Marcio Goldman (Museu Nacional/UFRJ) considera “uma da raras obras-primas da história do pensamento antropológico”.

Não é complicado, portanto, entendermos que não há um tema universalmente e de uma vez por todas relevante, mas podemos começar a indagar sua relevância nos perguntando se o fenômeno possui praticantes; se no horizonte prático de alguém aquilo que consideramos uma tolice ou mesmo uma imoralidade é, mais que viável, importante, interessante. Se a resposta for positiva, isso sinaliza que, no mínimo, o fenômeno serve para pensar. Que continuemos o debate.

* Artigo publicado na coluna Opinião do jornal Gazeta do Povo, Curitiba, em 10/07/2017.

10 ANOS DE CUS! um depoimento afetivo

maio 20, 2017
traordinár.
Ano de 2007. Praticamente calouro, estudante do segundo semestre de Ciências Sociais, eu tinha deixado São Lázaro para viver, em Goiânia, a experiência do Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual (o ENUDS), evento que foi um verdadeiro acontecimento na minha vida. O encontro por si só mereceria um texto à parte com as impressões e repercussões do mesmo naquilo a que chamamos de (minha) subjetividade. Para já, porém, sublinhemos apenas a potência da universidade em traçar (por vezes alargar) o campo do possível através dos saberes que produz e dos sujeitos cujo encontro promove.
Um encontro. Foi lá que, talvez mais ou menos no princípio da sua coqueluche, ouvi falar pela primeira vez nessa tal de teoria queer. Na ocasião também tomei conhecimento da existência de sua mais notável intelectual, a filósofa norte-americana de nome Judith Butler, a qual o grupo de ativismo de viés mais identitário com que viajei olhava com muita desconfiança.
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Como todo bom calouro das Sociais, estava interessado em militância política e havia eleito o Kiu! – Coletivo Universitário pela Diversidade Sexual, nome que, de modo nada proposital, seria o correspondente afrobaiano da resistência que a teoria queer engendra e que não cessa de propagar: abraçar a churria das ruas e ressignificá-la, requalificá-la.
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De volta à Bahia, ainda não iniciado na pesquisa social mas ávido por enveredar nesses estudos que certamente muito tinham me a dizer, dois grandes amigos com quem compartilhava apartamento, estudantes da Comunicação, contou-me a respeito de um jovem professor, recém-contratado pela então emergente UFRB, que estava interessado em criar um grupo de estudos sobre sexualidade vinculado à UFBA. Colling (quase nunca o chamávamos pelo primeiro nome) efetuava na sua carreira uma exitosa migração para outro campo de saber. E nós estávamos ali para nos beneficiar e participar desse processo.
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Éramos pouco menos de dez pessoas. Foi uma experiência muito bonita e sem ansiedades, eu diria que de engatinhamento e letramento coletivo. Uma amistosa e produtiva relação de horizontalidade e abertura pouco usual na academia era constitutiva. Espírito que acredito ter se mantido no CUS, acrônimo de Cultura e Sexualidade, nome algo excêntrico e ainda motivo de chacota para alguns. Um grupo sem vergonha, mas que no fundo sempre acreditou que o CUS poderia ser alvo de muitas coisas, inclusive de respeito e prestígio. O nome carrega uma marca que terminantemente parece orquestrar um desconforto no establishment.
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Colling escreveu um projeto e ganhou um concorrido edital da FAPESB, em um tempo em que ainda se investia em pesquisa no nosso estado e país. Nossas reuniões na linda salinha colorida do CULT (que, de tão bem transada, parecíamos estar em um portal que se abre – hoje entendo, prelúdio de muitas coisas) foram ficando mais interessantes. A pedidos do coordenador, sugeríamos livros nacionais e estrangeiros para comporem a nossa estante. Era uma alegria tragar o cheiro de cada um daqueles exemplares que jamais encontraríamos nas bibliotecas da UFBA.
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Embora estudantes ainda demasiado crus intelectualmente, Colling não demorou a nos estimular que escrevêssemos e apresentássemos os nossos trabalhos sobre a pesquisa carro-chefe do grupo. Atitude admirável que partia de uma confiança — às vezes rara, é verdade — na desenvoltura do alunato e reforçava com muito vigor um dos propósitos do grupo: um espaço de formação. O CUS ainda não contava com nenhum estudante de iniciação científica, trabalhávamos todos pelo prazer de estudarmos juntos, pelo prazer de estarmos juntos, pelo interesse temático. Sem ganharmos um centavo. É claro que para podermos fazê-lo contávamos com uma dose de “privilégios”.
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Lembro do entusiasmo ao trazermos a querida Larissa Pelúcio e a simpática Guacira Lopes Louro, autoras com quem aprendíamos, para compôr uma mesa na programação principal de uma edição do ENECULT. Algum tempo depois, também por iniciativa de Colling, escrevemos o projeto Stonewall 40+, determinante no que considero a projeção nacional do CUS e o início de profícuas interlocuções e alianças com o restante do Brasil.
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Como não poderia deixar de ser, o CUS foi se alargando e tomando proporções maiores. Já não éramos um grupo seleto de pessoas interessadas a estudar viadagem: o CUS atraía cada vez mais estudantes. E foi se tornando versátil; Colling tem razão quando afirma que o CUS não é apenas um grupo de pesquisa.
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Embora desde o início tivéssemos muito clara — o que por vezes soava algo cômoda — a compreensão de que universidade também era lugar de fazer política, e que efetivamente o fazíamos, sempre esteve em questão a fácil polarização “academia X movimento social”. De sorte que não tardou a sentirmos necessidade de intervirmos e disputarmos espaços institucionais outros — mais ‘molares’ por assim dizer. Nos incomodava diversos posicionamentos dos movimentos LGBT mais ‘mainstream‘ e gostaríamos de propor perspectivas alternativas àquelas encampadas pelas políticas correntes. E o incômodo nunca se deu apenas no plano da abstração: éramos sujeitos de política de carne e osso.¹
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Hoje olho para a UFBA, para a pluralidade de corpos que a movimenta e anima, e que nos dão a convicção de que a universidade ainda está viva!, e observo já não ser a mesma de dez anos atrás. Me acostumei e gosto de atribuir esse colorido a, entre outros afetos, existência do CUS na Universidade Federal da Bahia. E não é difícil pensar (talvez já não seja tão simples enumerar) na atuação do grupo na cena cultural e política da cidade do Salvador.
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É com a satisfação de em algum momento ter colaborado com a escrita da história do CUS, de tê-lo como parte da minha própria trajetória e de poder ainda hoje acompanhar seus ousados e sempre instigantes desdobramentos que parabenizo os antigos e atuais integrantes do grupo. E a liderança de Colling, que com inteligência, energia e senso de articulação extraordinários, tem feito diferença na Bahia e alhures. Obrigado, Leandro.
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É certo que o CUS tem tornado essa universidade mais e mais inclusiva, tem se engajado com muita criatividade na urgente produção e circulação de novas narrativas sobre as formas de vida, mas é mais verdade ainda que isso é só o começo. Outros marcos virão.
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Porque hoje também eu estou em festa.
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¹ Destaco, dentre vários, dois momentos em que é manifesta a envergadura e vocação política do CUS: a vaga conquistada pela ABEH, então presidida pelo Prof. Leandro Colling, no Conselho Nacional LGBT, e a publicação da obra de sua autoria “Que os Outros Sejam o Normal: Tensões entre o movimento LGBT e ativismo queer” (EDUFBA, 2015). Embora o livro seja resultado de pesquisa só a partir de 2013 realizada, há muitos anos o professor revelava inquietação quanto à conjugação explosiva entre teoria e práxis, que entretanto apenas no seu estágio pós-doutoral na Universidade de Coimbra pôde explorar de modo mais meticuloso e abrangente. Trata-se da expressão máxima desse interesse político originário que povoa o CUS e de uma tentativa de desenvolvimento e síntese em termos empíricos e teórico. Há duas resenhas disponíveis sobre o mesmo: na Periódicus (revista, aliás, editada pelo CUS), e na Feminismos.

Deixa de ser lindo, rapaz

abril 17, 2017

Lembro-me que – num tempo, aliás, não muito longínquo – rapazes eram adestrados para não perceberem beleza nos seus pares. Ou, pelo menos, para não reconhecê-las publicamente. Não foram poucas as vezes que eu, sempre tão participativo nos encontros sociais, precisei limitar-me ao lugar de espectador quando a beleza deste ou daquele homem estava sendo discutida. Era quase insuportável não poder também eu expressar minha avaliação, quase sempre em concordância com as das meninas à minha volta. O contrário não acontecia: era-lhes permitido opinar tanto sobre o corpo delas quanto sobre o deles – o que jamais colocava em suspeição sua orientação sexual. No máximo era uma questão de bom ou de mau gosto.

Como a vigilância não baixava a guarda, os rapazes, mesmo os heterossexuais, aqueles que gostariam de expôr sua apreciação acerca do que – parecia inevitável – lhes saltava aos olhos, ou prefaciavam sua fala com algumas ressalvas, que servia quase como um pedido de licença ou de desculpas, algo como “não que eu goste da fruta, mas…”: Fulano é gato pra caramba, porra (era isso que eles queriam dizer)! Ou ainda… “se eu fosse mulher eu pegaria…”. Claro, porque tal apreciação implicava (para alguns) um exercício extremo de alteridade. Aliás, ser sensível à beleza de outro homem era ser muderno. Isto é, se fossem comedidamente sensíveis. Um descuido na expressão e logo já não se estaria falando em ‘tradição versus modernidade’, mas em viadagem mesmo. Sei que logo encontraram um eufemismo para comunicar a beleza, a manifesta beleza: lembro que alguns amigos diziam “pô, fulano tá presença hoje”. A figura do boa pinta. O ‘presença’ de ontem deve ser o ‘pala’ (ou paloso) de hoje: – “Palla man ” – Temos pit – replica o alvo do elogio). Os rapazes não cessaram de fabricar eufemismos e sutilezas. Os marombeiros, anos mais tarde, lançaram mão de um… Tá big, parceiro! Inversamente proporcional ao frango, quando eles dizem big, deliberadamente imagino eu, na verdade eles estão pensando que o amiguinho tá mesmo é gostoso.

Tudo isso para dizer que hoje é com alegria que, nas minhas deambulações facebookianas, tenho percebido cair por terra esse tabu de admirar a beleza de seus pares. Vejo boyzinhos comentarem nas fotos dos seus parças, os brindarem com adjetivos mais honestos como: lindo. Eu diria ‘simplesmente lindo’, mas eles costumam ser pouco econômicos; lindo nunca bastou, é verdade. Quando se é lindo mesmo a gente manda um bocado de coraçõezinhos junto. E assim o fazem. Gato serve também, e serve ainda um “largue de linduu rpz ” (que eu li como “pare de ser [tão] lindo [assim], rapaz!”. – Vc pvt .

E enquanto eles admiram mutuamente suas belezas, cá eu fico achando uma belezura como esses pivas têm alargado o espectro da afetividade entre homens, e como afinal deve ser bacana poder dizer pro seu amigo que ele é lindo.

Desembarca o rapa no Rio Vermelho *

junho 26, 2016

Nos últimos dias foram denunciadas nas redes sociais sucessivas ações de fiscalização por parte da guarda municipal de Salvador – o famigerado “rapa” – que apreendeu mercadorias e impediu vendedores ambulantes de comercializarem bebidas no recém-reformado bairro do Rio Vermelho.

Se à primeira vista a indignação que o fato provoca ancora-se no sentimento de solidariedade com aqueles batalhadores que tem seu direito ao trabalho tolhido, um olhar mais atento perceberia que há outras questões implicadas nesta política, a qual, somente em aparência, toma os trabalhadores informais como alvo exclusivo.

Tal interdito ao comércio informal na noite do Rio Vermelho ignora toda uma juventude que não tem como propósito nem tampouco cultiva o hábito de sentar-se nas mesas dos bares e ali consumir, preferindo ficar de pé na calçada, priorizando o trânsito e o fluxo em detrimento de estabilizar-se num ponto específico.

É como se de repente os jovens frequentadores do Bairro Alto lisboeta fossem impelidos a interromper suas deambulações por aquelas ruazinhas estreitas em favor do consumo por determinado período de tempo em certo estabelecimento, esquivando-se de uma noite cuja vivacidade reside sobretudo na possibilidade de itinerância.

Portanto, antes de se constituir como uma violência contra os ambulantes, o “rapa” agride a identidade do bairro e a seus usuários, aqueles sem os quais não há vida possível no Rio Vermelho. Isto sem falar no preço mais acessível da bebida na mão dos ambulantes – tocando aqui em uma sensível fatia da população que presentifica-se no lugar.

Se, ávido pela monopolização do mercado, o empresariado local pressiona o poder público, há que mobilizarmo-nos em defesa dos ambulantes e do serviço que prestam à cidade ao garantirem a manutenção das práticas de lazer e entretenimento que compõem a própria paisagem do Rio Vermelho: a “cultura do isopor”.

 

* Artigo publicado na edição de 25/06/2016 do jornal A Tarde.

O futebol e eu

junho 21, 2016

Na infância eu gostava muito de jogar futebol, a começar pelo super nintendo. Geralmente jogava bola com os vizinhos no meio da rua, num tempo 1) em que as ruas não pertenciam aos automóveis; 2) em que as crianças de bairros de classe média não eram trancafiadas dentro de casa, ou ainda não existiam os tais condomínios horizontais. Jogava muito também nas tardes de domingo na casa da minha avó paterna, quando se reunia toda a família. Os adultos jogavam buraco, as crianças mais crescidinhas jogavam bola, as mulheres que não se integravam à mesa de carteado ‘tricotavam’ no frescor do quintal. Quando a minha avó resolvia pintar as paredes de branco, peraltas, jogávamos às escondidas. Mas logo o som das bicudas explodindo na parede, o gol, despertavam a velha astuta. Lembro com algum saudosismo da cena da minha avó com a bola e uma peixeira na mão prestes a empunhar a faca afiada na danada, e a gente desesperado “ô, voinha”, gritando como quem grita por um ente da família feito de refém. Não me lembro de um dia em que ela realmente tenha cumprido a ameaça. Essa minha vó, como boa sertaneja, estava um pouco distante demais dos padrões de docilidade feminina, mas talvez eu tenha demorado muito tempo para aprender a admirar isso.

 

Na escola eu era um verdadeiro desastre no futebol. O dia da bendita aula de educação física era sempre esperado com sofrimento por mim. Era o momento em que se tornava patente que eu, enquanto projeto de macho, já havia fracassado. Eu ficaria na biblioteca, talvez praticando algum esporte mais soft como ler um romance, e os rapazes estariam suando, com seus hormônios a pulularem. Se eu, que sempre me destacava nas notas, fazia gosto ruim em compôr grupo com os meninos da bola, o mesmo era feito por eles na hora de “tirar o time”. Éramos bem uns vinte, e eu, franzino, ficava no cantinho, esperando o que resultava da apreciação dos meus cambitos na quadra: o meu desempenho era uma bosta; eu era o último a ser escolhido. Nunca consegui mudar essa história, e talvez nunca tenha me empenhado verdadeiramente em fazê-lo. Mas era um momento deprimente para mim. Essa cena que se repetia toda semana foi marcada pelas não poucas vezes em que o professor, de nome “Babal”, obrigava os colegas a me colocarem no time. Provavelmente eles preferiam ficar com o time desfalcado (eu não me lembro se além de não ajudar atrapalhava) ou então: ok, Maycon fica no banco (de reservas).


No caminho de Ondina ao Rio Vermelho sempre achei bonito ver os meninos jogando, iluminados apenas pela luz da lua, na areia da praia da Sereia. É também uma grata surpresa saber que às duas ou quatro da manhã de uma terça-feira pode ter rapazes jogando na quadra de Ondina, em frente ao meu apartamento. Algo de muito bom deve acontecer ali – eu pensava. Hoje, em Feira de Santana, tenho redescoberto o futebol. Eu, que apenas cuidava das plantas do condomínio, decidir arriscar deixar o lugar de tímido espectador, descer dois lances de escada e pedir para jogar. Não foi sem surpresa que os carinhas da bola me viram abrir o portão da quadra e pedir para jogar. Decerto que eu era a última pessoa do universo que eles esperavam cruzar o portal, e a verdade é que eu estava pagando para ver a reação deles. O fato de serem meninos (e uma menina) de 12 – a maioria -, 15, 19 anos me fez sentir mais à vontade para me aproximar; definitivamente eu não poderia jogar com meus pares. Ontem surpreendi-me que o cara que mais joga aqui, um guri de 12 anos, disse que é uma bosta no futebol jogado na escola, e que talvez minha história, ainda que diferente da dele, não seja única. O resultado é que desde quarta-feira passada, diariamente, espero todas as noites para jogar. E jogo. Já não sou o último a ser escolhido (mas penúltimo, rs), e até mesmo faço gol. Ainda que, eu cá com os meus pulmões de anjo, seja o que de longe tem menos fôlego do time (no primeiro dia achei que fosse enfartar), os meninos me chamam de “monstro”, e eu gosto disso. O futebol mobiliza vários sentidos (eu gostaria de ter olhos na nuca), não é um esporte fácil, e tem me encantado profundamente. Posso substituir pílulas de rivotril por uma boa pelada. Mas continuo sem poder ser goleiro: morro de medo da bola, e os meninos riem quando eu fico no gol, chutam, e eu simplesmente corro fora. No sábado algumas garotas vieram me procurar, tão timidamente quanto eu aos meninos, porque também tavam a fim de jogar, e eu quero ajudá-las a, enquanto estiver nesse condomínio, colaborar para a construção de um futebol mais inclusivo. Na esperança de que a bola nunca atinja os meus óculos. Não posso deixá-los.