Archive for maio \27\UTC 2011

A presidenta e o “kit gay”

maio 27, 2011

Nesta semana a presidenta Dilma Roussef, aquela a quem costumavam referir-se, como a todo o partido do qual faz parte, como “aliada da causa LGBT” deu um presente para nós: ordenou que fosse suspendido o kit anti-homofobia do Ministério da Educação. Até o momento ninguém ouviu falar em telefonema do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, ou melhor, do nosso adorável Lula, dando as condolências ao presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Toni Reis, por esta apunhalada coletiva. É o que era de se esperar de um amigo, uma vez que Lula fez questão de parabenizar Toni pela oficialização da união com o seu companheiro, num ato simbólico que saudou e comoveu a comunidade LGBT.

Dilma, ela própria vítima da heteronormatividade ao ter sua sexualidade posta em questão diversas vezes durante a campanha de eleição presidencial devido à sua masculinidade feminina (embora esse pareça ser um tabu), deu a alcunha do kit anti-homofobia de “propaganda de opção sexual” – o que de fato faz do kit anti-homofobia um “kit gay”. Será que a presidenta já ouviu falar em marketing social? Ou ela acha mesmo que combate à discriminação seja a mesma coisa que fazer com que o grande público compre a ideia de que estamos vivendo cada vez mais num país de todos?

A atitude leviana da presidenta revela não apenas o descaso com os direitos humanos como também a importância crucial da educação na cultura de um povo. Por isso tanta pressão, do lado de cá e do lado de lá. Aliás não estou certo se seria realmente exagerado afirmar que a diferença, pelo menos até antes desse pronunciamento, entre Bolsonaro e Dilma Roussef é que nós sabemos o lado em que Bolsonaro está.

Ao dizer que sexualidade faz parte da vida privada do indivíduo, Dilma, além de ignorar décadas de movimento feminista (como o próprio movimento, cujo pressuposto é justamente o contrário), também ignora a violência que ceifa as vidas que não importam e reduzem-nas a números que maculam a imagem do Brasil.

Ainda que aleguem que ela foi supostamente ludibriada por fundamentalistas – o que é de um risível amadorismo – o discurso que nos marcou não foi de uma presidenta de uma nação, mas de uma gestora de conchaves.

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Para cada legislação o seu protesto

maio 24, 2011

Eu ainda não sei se no dia 7 de maio houve propriamente uma “Marcha” da Maconha no Porto. O que vi foram muitas pessoas reunidas em rodinhas a fumar seus baseados nas gramas do Marquês. Todo mundo tranquilinho, como se nem houvesse o que reclamar. E não quero dizer com isso que não aconteceu uma manifestação. Tanto aconteceu que, na padaria por que passei ao chegar, uma funcionária perguntou para a outra o que era “aquilo”, ou seja, qual o propósito da tal aglutinação de pessoas.

Referi-me propositalmente de modo redutor sobre a reunião em rodinhas porque foi a primeira coisa que chamou-me a atenção na Marcha da Maconha à portuguesa. Aqui os coletivos não precisam se reunir na casa de alguém antes da Marcha para fumar. De fato não há nada mais estranho para o maconheiro do que não fumar maconha na Marcha da Maconha, é como ir à Parada Gay e não poder beijar uma pessoa do mesmo sexo, não poder celebrar a diferença. No Brasil, essa privação é condição primordial da realização da Marcha.

A outra diferença é que não escutei cá nenhuma palavra de ordem; o que denota, ao meu ver, uma falta de urgência no protesto. Ora, ainda que tenha uma série de questões a ser reivindicadas, como a legalização em si, Portugal possui uma das legislações de drogas mais avançadas do mundo: aqui ninguém precisa “ficar no saci” quando fuma em local público, ninguém é levado para uma delegacia por que foi pego fumando um baseado. Ninguém “é pego” fumando um baseado.

Em comum com outras lutas por direitos humanos, a Marcha da Maconha reivindica a liberdade, e quando o faz está reivindicando um modo particular de ser. Se em Portugal a exposição da prática de rodas de fumo são a própria manifestação, no Brasil a possibilidade mais evidente de nos manifestarmos é através do discurso: o discurso é a nossa arena. Por isso me parece impossível fazê-lo quando situam a palavra maconha no interdito.

Nada me espantaria se o vídeo abaixo tivesse sido extraído do período ditatorial, mas me entristece muito saber que isso aconteceu ontem. E me entristece mais pensar que nessas horas desaparecem todos os “defensores da democracia”, ou que isso jamais chegará a ser um assunto grave.

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Casamento gay no Brasil: uma questão mal resolvida

maio 5, 2011

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“Eu, bandoleiro
Eu, o proscrito
Eu, o fora da lei
E o que fazer
Eu quero, eu quero, eu quero”

Sueli Costa

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É sabido que nos últimos dias foram divulgados os números do Censo 2010 – o mais profundo levantamento de dados demográficos do Brasil – que, pela primeira vez, vale dizer, em sua décima segunda edição, levou em consideração a união entre pessoas do mesmo sexo. Logo de pronto somos confrontados com uma questão, para mim primordial: o que nós, LGBT, desejamos fazer com estes números fresquinhos?

Não tardou muito e a resposta apareceu na declaração de uma das figuras mais autorizadas no Brasil a falar da (e pela!) comunidade LGBT, nomeadamente o fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), Luiz Mott. Ele defende que “os dados destroem o estereótipo do gay promíscuo”, ao passo em que “mostra uma realidade muito semelhante à união entre os heterossexuais”. Ora, o que fez o antrópologo senão uma interpretação fortemente embasada em parâmetros morais? Ao positivar a experiência da união conjugal e rechaçar a imagem (aquela que deve ser destruída) do gay promíscuo, acabou por “dar um tiro no pé”, e, a partir da enunciação da promiscuidade, sustentou o discurso de uma sociedade que determina minuciosamente os modos pelos quais devem ser geridos os nossos corpos e desejos, sendo a instituição do casamento apenas um – e não menos importante – exemplo.


Quando o decano do Movimento LGBT do país poderia utilizar-se da posição privilegiada para desconstruir certos preceitos morais, que aliás servem de fundamentos para a própria homofobia, ele optou por dizer que o estereótipo do gay promíscuo nos envergonha, que somos tão normais quanto os heterossexuais. Façamos um exercício e pensemos por um momento quem são os mais vulneráveis a homicídios homofóbicos no Brasil. Por um acaso seriam aqueles que vivem em união estável? O que quero com isso dizer é que vivemos já numa sociedade em que a não assimilação pode custar-nos a vida, e portanto devemos estar atentos às estratégias discursivas com que julgamos combater o preconceito.

Trocando em miúdos, afirmar que os dados advertem a sociedade (heterossexual) que não somos promíscuos, não apenas é pressupor que somos todos monogâmicos, como é dar margem à uma hierarquia em que aqueles que optam pela monogamia são superiores aos demais. E porque superiores? Por que são como os heterossexuais. É ainda atirar ao lixo a possibilidade de constituição de novas conjugalidades e uniões não circunscritas à norma, e, para ser exato, impossibilitar a articulação de uma “cultura sexual radical”¹.

É desse jeito que queremos legalizar o casamento gay no Brasil?

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¹ BUTLER, Judith. O parentesco é sempre tido como heterossexual?. Cad. Pagu [online]. 2003, n.21, pp. 219-260. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332003000200010&lng=en&nrm=iso.