Archive for dezembro \19\UTC 2010

Traduzir-se

dezembro 19, 2010

A asa-do-avião o desterra
o ameaça:
lançar-te-ei em anonimato!

desaparece João,

O estrangeiro vê-se suspenso
e quer imergir

É distinto
e deseja vulgarizar-se

Quer abrir portas
mas a língua o escapa.

Ora,

da sua Mátria,

Falam-lhe do presidente
que não o representa

Do futebol-espetáculo
que ele não vê

Da economia emergente
que tampouco acompanha

Insatisfeito, o estrangeiro
recolhe-se à sua
ex-centricidade

Insatisfeito, mas obstinado
ensaia sorrateiro
a sua coerência terrena

E neste novo mundo
(para si)
de bandeiras caducas

Anseia gentes, projetos
anarquias

Tudo isso para
que a Europa seja
mais que um álbum
de fotografias.

A cidade e eu

dezembro 11, 2010

Eu não quero uma cidade que seja apenas a cidade em que estudo ou trabalho, a cidade que vive a minha família ou mesmo aquela em que nasci. A cidade que desejo é aquela que diga mais sobre mim, e certamente para fazê-lo ela precisa, mais que compreender os meus anseios, imprimir-me suas marcas, riscar-me todo, de modo que desejá-la seja também desejar parte de mim, como um eu que intenta realizar a quimera de reintegrar-se. Ora, eu já entendi que a parte de mim a que estou alheio não encontrarei ao – por mais bonita ideia que pareça – ler uma fábula que narre a história daquele que busca incessantemente em diversos sítios a genuína e última felicidade que em verdade nele reside. Não, nós definitivamente estamos no mundo, e não há um si-próprio que dê conta desta faticidade primeira. Portanto todos os dias eu sonho uma cidade para mim. E esta cidade não posso descrever de modo cartesiano, categórico, como “a cidade em que estudo”. Seria leviana qualquer tentativa em reduzir a minha experiência de cidade, que é total, numa experiência segmentada. Se o faço, é por que de todo modo estou apartado do território no qual caminho. É por essas razões que decidi migrar, como o fiz ao completar 18 anos e partir de Feira de Santana rumo a Salvador, a terra natal que elegi. No fundo, a ação de pôr os pés, pisar, habitar é muito nobre para mim. A cidade me atravessa por inteiro, a cidade é a minha bíblia e eu não quero manter-me inerte. Por ser terreno e desterritorializado, vou em busca de uma cidade que amanheça para mim. Inventarei raízes.