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Vigilância insone, portão entreaberto

abril 17, 2009

“Minha política é meu corpo, provendo e se expandindo com cada ato de resistência e com cada um de meus fracassos”

Adrienne Rich

Estava eu e mais dois amigos hoje umas quatro da tarde deixando a UFBA/Ondina pelo portão principal, quando havia um grupo de seguranças (que velam somente pelo patrimônio, vale frisar) entre risos e conversas, quando um deles comentou “olha, que coisa meiga”, claro, em tom de deboche, se referindo a mim, que, a título de curiosidade, como se não bastassem-me as madeixas, estava trajado numa calça com listras vermelhas e brancas, camiseta azul-turquesa desbotada (do tipo baby-look) e uma rústica bolsa capanga. Com tais vestes, no mínimo uma meiguice achariam. Não sei sou exatamente meigo, mas me sei itinerante entre gêneros, e certamente a sua fala foi uma denúncia da minha ousadia, mas não só numa liberal democracia pode ser interpratada como sanção a um evidente “desvio” à norma. Felizmente ou não, não escutei a voz do VIGIA, um dos meus amigos relatou o seu comentário quando já estávamos um pouco distante da Universidade, fato que me levou a não ter ânimo para voltar, mesmo porque tenho certeza de que me aborreceria muito com aqueles homens, e a minha defensiva momentânea foi calar o que nem mesmo cheguei a ouvir. Caminhei mais um pouco, e me arrependi de não termos voltado. Me senti um pouco covarde, por uma lamentável atitude de conformismo, porque senão todos os dias, quase todos os dias, com um olhar que seja, como tantas e tantos, sinto a soberania do meu corpo ameaçada, e olha que nem sequer toquei na temática da sexualidade, mesmo que ela esteja implicitamente articulada com o discurso de regulação do corpo. Ironicamente, havíamos concluído (mas não esgotado) o estudo do livro Problemas de gênero, da Judith Butler, no qual, discutindo com outros/as autores/as, ela verifica a incessante tentativa do sistema de heterossexualidade compulsória em vedar as superfícies do corpo, tornando assim, o sujeito inteligível dentro de limitadas permeabilidades. No entanto, como os seguranças da Universidade puderam constatar, o binarismo entre homem e mulher é uma ficção, sendo que reside sobretudo no nosso corpo, que é sempre contingente, a potencial subversão das categorias do gênero, que só o é enquanto atos performativos significantes.
Fui caminhando, maturando o acontecimento e processando a sua repercussão reflexivamente. Preocupante onde quer que seja, mas o é ainda mais nesse espaço social que nos é cotidiano. Inadmissível ser tratado de tal maneira, ainda mais por alguém que presta serviço (seja ou não vinculado formalmente) à própria instituição. Enfim, eu gostaria de compartilhar convosco tais angústias, sobretudo a de ter-me calado diante disso…