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Buracão: porque o buraco é mais embaixo

novembro 19, 2011
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Metidos em sungas vermelha – a minha, posso lembrar, relativamente pequena – e roxa, caminhávamos eu e Phyllis pela praia do Buracão. O lugar, cujo ilustre morador atende pelo afetivamente forjado sobrenome de Brown (e se já não é residente “ribeirinho”, acredito que continuará a sê-lo durante mais algum tempo no imaginário de Salvador), é conhecido pela calmaria e beleza, atributos ressaltados pela localização pouco óbvia – um “buraco” cravado na costa do Rio Vermelho. Embora suas ondas não sejam lá das mais mansas, como supostamente os são os seus frequentadores, a tranquilidade naquele espaço parece reinar, como se diz, de domingo a domingo – diferente do Porto da Barra, que, mesmo numa segunda-feira, não pára de bombar.
Aliás, no último domingo houve batida de policiais no Porto. Foram gozar do poder, literalmente provocar medo em nêgo, encostaram meimundo (justamente a “metade” preta e pobre) no paredão mas não levaram um. Vi tudo do mar. Poderia, mas não pensei: é, no Buracão podem fumar seu baseado em paz. Terceira pessoa, quem diria. Seja como for, esse é o tipo da coisa que de fato não acontece no Buracão. Maconheiros, harmonia, Brown; um caleidoscópio sedutor. A praia não corre riscos. Nós, talvez.
Nós? Ah, caminhávamos eu e Phyllis, que por acaso é o rapaz que namoro (embora no Facebook role o married porque “relacionamento sério” é péssimo, e por outro lado tenho pavor ao investimento politicamente correto do “companheiro”)… Porém na praia poderíamos ser tão-somente amigos, uma vez que sequer de mãos dadas estávamos, e, antes da caminhada, nem mesmo havíamos manifestado afeto publicamente. Acontece que um grupo de meninas, talvez o mesmo que na esquina da rua que nos leva (ou tira) da praia mexeu conosco dias passados, começou a gritar interjeições como “ai”, “ui”, ou compulsoriamente aumentadas em “aiaiaiais” e outras comoções do gênero. Falando em gênero, a nossa passagem pareceu ter doído como traição, ou falta. Agarrei Phyllis pelo pescoço e tasquei aquele beijo que mais-técnico-impossível. Em meio a algazarra que se formou, uma voz feminina que dizia “que que isso” sobressaiu. Só mais tarde fui descobrir que se tratava de uma apropriação (pouco criativa, é verdade) daquela música do Saiddy Bamba, que caiu como uma luva para esse tipo de situação – estranhar a bicharada. Me pergunto se estaríamos mesmo habilitados a responder o que tanto irritou essas mulheres, ou melhor, responder o que nos habilita a provocar nelas uma espécie de dor ou qualquer sensação emocional tão incômoda. Bem, nesses momentos, precisamos estar firmes com Sontag e sermos contra a interpretação. E porque digo isso? Porque algumas interpretações, sobretudo por parte das vítimas, podem ser tão ou mais redutoras daquelas pessoas do que a agressão sofrida, qualquer coisa como um revanchismo vulgar. Ora, é evidente que interpretei, mas politicamente sou contra a exposição dessas minhas interpretações, embora eu arrisque que sejam menos machistas do que elas próprias. Eu poderia inclusive sublimar o gênero das agressoras, mas faço questão de pontuá-lo por ter sido justamente isso que me chamou atenção no episódio. Que ainda não terminei de narrar.
Após a “fechação” e o que ela repercutiu (gritaria por parte das garotas e mirada de todo o público da praia), continuamos, naturalmente na defensiva, a caminhada. Passamos por dois grupos de rapazes, sendo que o segundo nos olhava com um sorriso não muito amável, como quem toma partido pelas meninas. Claro, nessas ocasiões há sempre o que se esquivam como há os que, sensata ou insensatamente, se posicionam. Ao retornamos para o ponto de origem, uma vez que se chega e se deixa o Buracão de um só lugar, esse mesmo grupo de rapazes, ou melhor, um deles, também foi tomado por algum sofrimento e gemeu para nós algo como “uiuiui”. Bonito, né? Mais adiante, novamente a título de protesto quase incalculado, virei para eles e disse que “é gostoso dar o cu”. E é. Baixo? Sim, decerto que eu poderia ter sido melhor escutado. Sentamos onde estávamos inicialmente, já sem tê-los mais à vista, até que passa um do bando, que sinaliza para que o outro se aproxime, que não deixe barato. Esse outro, que foi provavelmente o do “uiuiui”, partiu feito cão enraivado para cima de nós, que corremos assustados. E era de assustar. Poderia ter sido pelo seu físico, mas foi mesmo pela abordagem, o modo com que ele veio em nossa direção. Como dizem por aqui, veio “tirar pergunta”. Tirar pergunta como um metido a skinhead no Porto, quando num supermercado, em retribuição ao seu feito, eu lhe apontei o baguete com que anteriormente ele havia feito piada de mim – um baguete apontado, segurado na base, como uma piada sobre sua macheza que não lhe permite levar baguete e guloseimas fálicas. Sabe como é, um atrevimento nosso e logo eles nos vem colocar no nosso lugar de viadinho-pau-no-cu. Quando corri, na praia, quase que para os braços de um trabalhador do Buracão (a gente vive correndo de um macho para outro), o agressor da vez deu a voz: não deixa ele sair, não. Daí o dono do pedaço, que ao nos abordar foi perguntando “o que você disse ali pra mim?”, argumentou para o trabalhador que eles estavam quietos “fumando um” e nós mandamos eles tomar no cu, bem tipo viado que mexe com homem (e ainda há aqueles que não mexem). Depois – ri por dentro – ele disse que não, que não é homofóbico. E quem aqui falou em homofobia, cara-pálida? De fato, ninguém havia tocado nessa palavra, que agora “tá na boca do povo” do melhor jeito todo-mundo-sabe-o-que-é-mas-ninguém-pratica. Fomos indo embora, ainda depressa, até que o homem que nos protegeu perguntou se iríamos deixar as nossas cadeiras de praia na praia, e então o mandarim disse que poderíamos voltar, que ele não ia bater na gente, aliás, que ele nem é de briga (nós que somos). Pensei: bom, já que ele permitiu, vou voltar pra buscar minhas cadeiras, até porque tão cedo eu não teria grana pra comprar outras.
Isso foi no dia 27 de outubro, véspera do meu aniversário. Um amigo disse: é, agora você tem de escrever um post sobre isso. O que me restava. No dia eu bem que tentei, mas foi impossível. Sentimento de privação existencial. Horário de verão, chego cinco da tarde em casa e agora ainda dá tempo pintar na praia (que é praticamente o meu quintal) – pensava eu. Não mais. E talvez hoje eu só escreva porque voltei a ser um frequentador do Buracão, por que não é bem a gente que “tem de tomar vergonha na cara”. Aliás, não sou mais tão assíduo no Buracão por que há praias que me inquietam mais – o que me move. Sei que no dia 28 eu estava ao lado da Igreja de Santana no Largo da Dinha e alguém me chamou. Quando olho, quem é? O próprio. Me aproximei para escutar o que ele tinha a me dizer, como sempre faço, por princípio e curiosidade, por querer saber o que as pessoas estão pensando. Ele me disse que eu havia entendido errado, que ele não iria nos bater, que ele já tinha me visto lá por várias vezes (eu, tão estranhamente familiar), que estava fumando um baseado e que então era como um pitbull em que você dá um tapa e sai correndo. Ao fazer essa comparação com um pitbull, pensei: pronto, se já não me sentia, agora me sinto totalmente esclarecido. A verdade é que ele queria dizer para ele mesmo que não é homofóbico. E eu deixei que ele fizesse isso. E aqui eu poderia dizer “nah, deixa ele acreditar que não é homofóbico”, mas no fundo sou um esperançoso nas pessoas, não quero nunca me fechar para elas.
Ainda assim, por mais que, torto ou direito, haja Brown no Buracão, que o Brasil-carvão tente reconciliar-se com o cor-de-rosa, eu continuo preferindo o Porto da Barra, de putas viados gringos pretos e até polícia. Menos gueto, mais mistura. Confusão no melhor sentido do termo, lá onde a gente é mais baiano.
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No Porto não ficamos acuados. No Porto da Barra, porque no Porto português sofremos de “mania de perseguição”, resposta do segurança do supermercado quando acusei em alto e bom som o agressor de homofóbico. No nosso Porto não cabem muitas dicas de segurança. Em todos os outros, a dica é igual àquela prudência em assaltos: não reagir. Ou, na falta de um homem respeitável, ou na falta de um gerente que não permita que um skinhead lhe espere na porta do supermercado, as coisas podem ficar muito pior.
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Se para fundamentalistas religiosos a lei contra homofobia violenta a liberdade de expressão das pessoas, que tipo de violação, qual espécie de liberdade a homofobia constrange que não aquela primordial (de existir mesmo)?
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De toda sorte, uma coisa que todo mundo já entendeu é que ser chamado de homofóbico é uma ofensa e tanta. Agora, precisamos ir além.