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Laerte sem perder a ternura

fevereiro 13, 2012

Já passava da meia-noite do domingo quando acordei a minha mãe para ver o Laerte na tevê. Quando um amigo disse que ele estava em Marília Gabriela, perguntei em tom de lamento se era na GNT, ao que ele me respondeu que não, que passava no SBT. É claro que fiquei tão animado com a possibilidade de vê-lo na tevê (aberta!), que deixei o computador e toda a gente que no momento eu conversava a ver navios. Fui ver Laerte com a minha mãe, que – eu estava certo – não se arrependeria dos minutos de sono abdicados na véspera de uma segunda-feira. Só a acordei porque a linguagem de Laerte não é maçante como o bêabá de tantos militantes que com seus discursos pré-fabricados juram que podem transformar o mundo sem antes tocá-lo ou envolvê-lo – ladainha que seria ainda menos tragável numa noite de domingo. Em tempos de hiper-institucionalização dos movimentos sociais, Laerte dá uma lição de como tornar-se “acidentalmente” porta-voz da dissidência.
Recentemente escutei num encontro que discute a diversidade sexual a opinião de uma militante que acusa o “polêmico” texto “Desnaturalização da heterossexualidade” como inoportuno, pelo fato de ter sido publicado num dos mais importantes periódicos do Brasil, a Folha de São Paulo. Embora enfatize concordar com as questões esboçadas pelo autor – o professor Leandro Colling – para ela o artigo deveria ter-se restringido ao público especializado: leia-se estudiosos do gênero e sexualidade. Sob a tacanha justificativa de que a sociedade não tem preparo para a sua leitura, ela foi além e julgou que a publicação vai de encontro a anos de luta do Movimento LGBT do Brasil. Me pergunto então como esses militantes que desejam restringir múltiplas manifestações da diversidade a um redutor manual de como portar-se com o “grande público”, incontestavelmente heterogêneo, receberam Laerte ontem no seu sofá.

O cartunista Laerte Coutinho, ou Sonia Cateruni

A postura dele poderia ter sido tão agressiva quanto a da filósofa Beatriz Preciado, que defende que os banheiros públicos são uma arquitetura  que ardilosamente funciona como produtora (e enquadradora) de gêneros. No entanto sua doçura cumpre a pretensa invasão do agressivo, figurando aqui como um autêntico “doce bárbaro”, vide a lendária conversa de Caetano com Jorge Mautner, o qual assim qualificou Jesus – que conseguiu, só com amor e palavras bonitas, sem derramar uma gota de sangue, dizimar o Império Romano. Ora, por um acaso ele se perguntou se a sociedade tem preparo? Não precisa, dispensa essa pedagogia da última hora. Espontaneamente astucioso e sutilmente militante (a la Silviano Santiago em seu texto “O homossexual astucioso” – parte de um livro cujo belíssimo título é “O cosmopolitismo do pobre”), Laerte me lembra quando eu calçava rubros saltos-altos da minha mãe na infância, ou meus lamentos com relação ao fato do vestuário “feminino” ser tão mais vasto que o nosso, que pouco experimentamos com o nosso topless autorizado.
Enfim, não me arrependo de ontem à noite ter despertado a minha mãe, que acha que a entrevista deveria ter sido exibida mais cedo, todavia muito lastimo por não ter tirado o sono do meu pai, porque em verdade é o meu pai a sociedade despreparada que, sem precisar ser austero, Laerte habilita. Conquista.