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O erro de Cecília

outubro 22, 2011
Capitães da Areia foi o primeiro (e único até o momento) romance de Jorge Amado que li, há cerca de dois anos. Desde então, sempre que passo, de ônibus ou a pé, na praia que fica ao lado do Alto da Sereia, ou sento-me no “lado B” do Buracão e vejo aqueles meninos, quase todos negros e quase sempre em bandos, eu penso que são os capitães da areia. Os conheci nas ruas e no mar da Bahia e os reconheci, em toda sua materialidade, na literatura de Jorge Amado. Escrito em 1937, ainda hoje não é nada raro encontrá-los por aí, emanando certa liberdade sensual e empoderada, naquele jeito de andar de quem são “os donos do pedaço”, ou, na linguagem amada, “os verdadeiros donos da cidade” – quem mais a conhece e vive. Foi esse tom e porte imperativo, vivido, que na minha opinião faltou na adaptação da obra para o cinema: uma atuação convincente, a começar por Pedro Bala, o líder do bando, que no ecrã não passa de tentativa. E não me venham justificar que o filme é um projeto social e cultural e que os atores não são “profissionais”, se vejo um Pedro Bala encarnado e sem treino em cada esquina de Salvador.
Por outro lado, trata-se de uma adaptação demasiado apressada. São entrepedaços, cenas recortadas que não chegam a amadurecer e logo se precipitam. Neste sentido, o filme desperdiça uma qualidade intrínseca à obra de Jorge Amado: tocar, tomar o leitor pela emoção, envolvê-lo. Prova desse mal-acabamento é o final, que apresenta os rumos que levaram cada uma das personagens, tal qual no romance, mas que, com exceção de poucos (como Pedro Bala), não tiveram oportunidade de ser nomeados – ter um caráter e trajetória peculiares – ao longo do filme. É realmente uma pena que a obra de Cecília Amado tenha perdido a possibilidade de se enredar e misturar, mediar o imaginário e a experiência de cidade salvadoreana como a literatura de Jorge.
Não deixarei de criticar também a presença despropositada de uma travesti na cena em que Pedro Bala vai para a cadeia. Se valer de uma luta cotidiana, que é a validação do nome social das travestis, para promover um  riso desumanizante (que ainda ecoa naquela sala de cinema do Shopping Barra) de fato me irritou bastante e me faz questionar o limite de certos projetos sociais, que se aliam a determinados grupos enquanto desqualificam outros. Sinceramente, Cecília, os capitães da areia não precisavam disso.
Por fim, além das cenas que põem tônica a cultos religiosos afro-baianos (essas não esterilizam em nada a profundidade da obra amada), outro acerto do filme que gostaria de ressaltar – e esse para mim é o de maior fulgor – foi a trilha sonora de Carlinhos Brown. Com o filme, a maestria de Brown o dispõe definitivamente no rol de intérpretes da Bahia, celebrando, este sim, o centenário do nosso escritor.

Projetando ambientes para a vida – um esboço*

outubro 10, 2011
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Imbuído de pensar uma antropologia do vir-a-ser, uma antropologia do devir, quer dizer, aquela que não seja sobre as coisas, mas que se mova com elas, Ingold esboçou, no que os organizadores chamaram desde o início da série de conferências na UFMG de sua “grande conferência”, críticas e proposições para trilharmos o futuro. Trilhar não se trata de percorrer um caminho pré-definido; é deixar pegadas no seu percorrer, marcar com trilho, traçar. O traçado é como um desenho, um projeto, e o ato de fazê-lo já nos desloca da condição de “meros usuários” do design. Para Ingold, os designs têm de falhar, para que o futuro possa deles se apropriar, destruí-los. Eles poderiam ser pensados como previsões – e toda previsão é errada. Ou, seguindo a linha de análise deleuziana, o design poderia ser compreendido como uma tentativa de controlar o devir.
Tim Ingold propõe que ele (o design) seja concebido, no âmbito de um processo vital cuja essência é de abertura e improvisação, como um aspecto, menos como meta pré-determinada que como a continuidade de um andamento. Neste sentido, o design seria produção de futuros e não definição de. Contudo, essa ideia contrasta – e esse é o ponto, creio eu, de Ingold e desse post – com a forma como tem sido predominantemente compreendida a natureza no discurso tecnocientífico: com objetivos precisos, o  ambiente seria nada mais que um meio, uma coisa manipulável, vida sequestrada tendo em vista a atingir determinados fins. A natureza dos cientistas e dos criadores de política é conhecida através de cálculos, gráficos, imagens independentes daquelas do mundo que conhecemos (ou mundo fenomenal) e com o qual estamos familiarizados pelo próprio habitar. Essa dissociação artificial, que para nós aparece na figura do “globo”, espaço a que não sentimos pertencer, em contraposição com a terra, que de fato habitamos, é um modo nada adequado de abordar as constantes ameaças sofridas pela natureza. A mesma dissociação provoca uma lacuna entre o mundo diário e o mundo projetado pelos instrumentos de conhecimento a que me referi anteriormente, opondo conhecimento do habitante a conhecimento científico, como se os cientistas não habitassem mundo.

Tim Ingold no auditório Sônia Viegas (FAFICH/UFMG), em Belo Horizonte.

Uma expressão muito em voga como “desenvolvimento sustentável”, em geral usada tanto por políticos como por grandes corporações com intuito de proteger o lucro, é amparada por registros contábeis, ou pela perspectiva, segundo Tim Ingold, do ex-habitante. Nós outros, habitantes, não temos acesso a essa linguagem contábil, e somos assim furtados da responsabilidade de cuidar do meio ambiente, sendo dele (verticalmente) expelidos, em vez de fazer do mesmo um projeto comum, pela via do que Ingold denominou de “projetar ambientes para a vida”. Repousaria, pois, na unidade da vida esse elo ontológico, unidade esta que nem o catálogo taxonômico “biodiversidade” e nem a concepção kantiana de superfície – palco das nossas habilidades – dão conta. Tim Ingold se esforça, em nome de uma vida social sempre indivisível da vida ecológica (se é que é possível já assim polarizá-las – ressalta Ingold), por uma genealogia da unidade da vida, uma partilha histórica entre sociedade e natureza, sendo a última em geral concebida como facticidade, coisa bruta do mundo.
Para Ingold, os conceitos são inerentemente políticos, e, deste modo, é interessante para alguns distinguir humanos de inumanos, que, embora estejam num único mundo, apenas os primeiros, pelo viés da “ação humana”, estariam habilitados a construir. Seriam assim os humanos “menos naturais”, todavia, envolvidos mutuamente ao longo do mundo orgânico. Que pensar a respeito do vento, do sol, das árvores e suas raízes (onde residiria o seu caminhar)? Ele propõe, a fim de evitar – e agravar – essa infeliz dicotomia, a concepção de ambiente como uma zona de envolvimento mútuo, cujo relacionamento entre os seres se dá justamente por feixes de linhas, como luz, como ar, e caminhos. Contra as tentativas coercitivas de suprimir o ambiente cobrindo-o de superfícies duras/impermeáveis, Ingold oferece o rolar sobre o mundo, e não através do. Segundo ele, o “rolar sobre” significa o nosso envolvimento com o ambiente, a nossa própria experiência, que difere do global da tecnociência. Aqui se situa o design, mas não o design que inova, e sim o design que improvisa. A inovação seria oriunda de uma leitura de “trás pra frente”, já a improvisação uma leitura do ler para a frente, por onde o mundo se desdobra. Para Ingold, toda improvisação consiste em criatividade, e criatividade implica já crescimento. O design não prevê, o design antecipa.
Assim a sua ideia é a de caminhar com o mundo, “crescer junto”, mas não num mundo pré-ordenado e sim um mundo incipiente. O design não é uma pré-figura, mas um traço, um desenho, uma linha para uma caminhada, no entanto sempre passível de fuga do enredo como personagens de um romance – com vida própria. Ingold então defende o projetar como um verbo intransitivo, responsável – ao contrário do que pensava o pintor Paul Klee, do julgamento da forma como morte – por atribuir vida. Para a proposta de Timothy Ingold, finalmente, seria necessário o aumento da flexibilidade dos habitantes de mundo, em que tensão seria convertida em conversa, em diálogo, em projeto.
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P.S.: Para quem desejar ir além da sua contribuição antropológica e vê-lo tocar no cello, juntamente com pianista e clarinetista da Escola de Música da UFMG, uma peça do Beethoven, também poderá fazê-lo através desse vídeo, embora de qualidade absurdamente amadora.
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* Agradeço a Phillip Villani por me ajudar a reconstruir o fio da meada da última conferência de Tim Ingold na UFMG, “Designing environments for life” (Projetando ambientes para a vida), na qual este post é baseado e cujo resumo pode ser visto aqui.