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O dia em que recebi um ultimato de despejo

março 7, 2013

É muito triste quando, na sua vida cotidiana, nas relações interpessoais que você tece, você tenta ignorar os preconceitos; sim, esses preconceitos que povoam de modo tão pré-reflexivo a nossa inserção numa realidade social maculada pela distribuição desigual de recursos escassos – como tão bem afirma o sociólogo Jessé de Souza.

Mais do que isso, você recusa ser parte desse ethos excludente, e luta espontaneamente contra o preconceito a cada vez que tocam a campainha da sua casa e você diz: “entra, mano”. É muito triste quando, depois de uma visita aparentemente inócua, o estigma pode ser reificado meio que como um golpe. E esse golpe não é compartilhado, ele parece ser só seu (mas não, não é só meu, é muito pouco meu!). Afinal de contas, foi só você, “o otário”, que tentou ignorar, na prática, a marca estigmatizante que carregam os subalternos. Na cultura do risco, a responsabilidade é sempre individual.

Sei que estou muito triste porque, por mais que não queiramos que assim seja, pode ser material e emocionalmente doloroso cruzar certas fronteiras sociais. É um fato que eu simplesmente, como tantos fazem, não consigo encarar com naturalidade.

Naquele sábado inicialmente solitário, quando a síndica interfonou para o meu apartamento dizendo que os meninos que saíram da minha casa haviam levado a bicicleta de uma condômina, posso dizer que meu mundo caiu. O apartamento da síndica fica no lado e direção opostos ao meu, mas no mesmo andar. Quando, por um acaso, viu o naipe dos meninos (ou seja, pivetes) que tinham acabado de deixar a minha casa, correu para a sua janela, cuja visão abrange o portão que dá acesso ao prédio, onde ali ficara pendurada e só se deu por satisfeita depois que um desses garotos levaram a tal bicicleta. Posso apostar que, ainda que inconscientemente, ela vibrou com a cena: “eu sabia!”. Clarividência é para poucos.

Eu vivo no Rio Vermelho. Como diversos bairros de classe média de Salvador, somos, para o pânico de muitos e deleite de pelo menos um, rodeados pela Chapada [do Rio Vermelho], pela Santa Cruz, peloNordeste [de Amaralina] e pelo Vale [das Pedrinhas]. A praia do Buracão, ou o meu quintal (ou escritório, vide “meu escritório é na praia”), é pertencente à facção do Vale e da Chapada. Portanto, ainda que queiram, os meninos do Vale não podem frequentar nem a praia da Amaralina e nem a da Paciência. Nós, não os outros, podemos transitar mais ou menos livremente pela orla. Parcela significativa das relações que enredam o meu cotidiano riovermelhense são tecidas na praia do Buracão, ou Anita, como esses garotos costumam chamar. Anita Costa é o nome de batismo da praia do Buracão.

Faz algum tempo que sou amigo desses meninos e que acompanho suas aventuras nos recifes e águas da Anita. O meu interesse, é verdade, quase sempre inicia sexualmente mas  quase sempre extrapola para um desejo que você pode chamar de mais nobre, mas que eu não diria assim: o desejo antropológico. Dar o fora do meu aquário. Né álibi não, neném. Com esses garotos, embora mais da metade da gente não acredite (de tal modo que quase fui por eles convencido), não houve nada. Nada? É, nada; porque se somos gays, o sexo é tudo. Logo, se não houve sexo, não houve nada. Houve, sim, um macarrão, pão com queijo (mussarela para eles é um luxo; “tem até queijo!”), laranjas, bananas, e tudo o que eu podia oferecer-lhes para a larica – como costumam chamar qualquer gênero de fome. Ah, isso tudo no meio de funk, rap e pagodão.

Atualmente somos impedidos de ter colegas menores de 18 anos, sabe? Pré-púberes então, converte a camaradagem num dos crimes mais hediondos. Não há interesse antropológico que dê jeito. Quando os garotos, afinal, vieram devolver-me a bicicleta (o maior deles, a contragosto dos outros, achou de levá-la), uma senhora moradora pegou o interfone e não hesitou em me ameaçar: “Se esses meninos entrarem no prédio, eu chamo a polícia”. Para eles está muito claro: se um viado adulto recebe menores em casa, não há nada mais óbvio que práticas sexuais obscuras. Confesso que me senti meio Michael Jackson. E fala-se na sua inocência como se apóiam em valores tão burgueses como honestidade para interpretarem o inusitado fato de meninosda periferia levarem uma bicicletinha que tava dando sopa num prédio que só tem “patrão”.

Sob o olhar torto de toda a vizinhança, desde que somos amigos, esses meninos costumavam vir tirar areia dos pés na torneira aqui do prédio, ao saírem da praia da Anita. Eu gostava que fizessem isso, às vezes por pura provocação.Sempre aguardei aquela repreensão que até então nunca ninguém teve coragem de me dirigir. E sempre, sempre quis poder acusá-los de racistas. Pois é, o fato é que eu não mais poderia fazer isso. Nunca mais os meninos virão aqui em casa. Com a sua licença, agora faço questão de retirar-me do nós: eles todos venceram. Mas os meninos ainda poderão me interfornar, como hoje, que me pediram uma camiseta emprestada porque queriam jogar bola no colégio e o porteiro não os deixou entrar descamisados. Como hoje, prontamente irei atendê-los. E a vizinhança dessa vez estranhará que, mesmo depois de terem furtado uma bicicleta (embora, depois de uma longa negociação, a tenham devolvido), eu ainda mantenha uma relação amigável com os pivas.

Bem, e quanto à polícia, todos sabemos que o que estava em jogo não era e nem nunca foi qualquer defesa de direitos humanos, defesa dos direitos da criança e do adolescente contra uma apenas suposta pedofilia, até porque, para eles, aqueles meninos não se tratam nem de crianças e nem de adolescentes, mas de pivetes, essa categoria subhumana e de antemão criminalizada, cujo significado, quando assim se denominam uns aos outros, vem sido somente por elessubvertido. O que sempre esteve e estará em jogo, isto sim, é o inviolável direito à propriedade privada, um direito humano por excelência, ou mesmo uma moeda de acesso ao tão cobiçado status de… humano.

Devo dizer que o episódio foi a gota d’água para o rompimento de uma relação de moradia de cerca de cinco anos, com amigos de uma década. É chegada a hora de pedalar por outras paragens – sem mágoas, mas, certamente, com um bocadinho de preconceitos. Eles venceram e o sinal está fechado pra nós?