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Anti-Anti-baixaria

março 23, 2012
“Já ouvi muitas vezes em Salvador de músicos ou de pessoas próximas a música, e que não são pagodeiros, a indignação com o espaço de mercado, na mídia, e na vida, que tem o ‘pagodão’ em detrimento de outros gêneros de suposta melhor qualidade. E o próprio sucesso do pagode é visto como indicador da regressão cultural em Salvador, e do barbarismo das massas (…)”
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Já faz alguns meses que venho discutindo com diversos amigos (e amigas!), proposto debates a respeito do que ficou popularmente conhecido como “Lei Anti-baixaria”. Para aqueles que não conhecem o projeto, que aliás está para ser votado, o mesmo intenta vetar financiamento público a grupos musicais que supostamente veiculam no seu repertório violência contra a mulher. Guarnecidas pelo óbvio argumento de que violência também se dá no campo simbólico, várias pessoas advogam a necessidade de tal patrulhamento ideológico na cultura. E porque? As razões são “variadas”; no final do ano passado ouvi de uma das integrantes da mesa de um debate sobre esse projeto que determinado bairro da periferia de Salvador apresenta índices alarmantes de violência física contra a mulher, sugerindo naquele contexto uma linha causal entre o gênero musical escutado e as agressões sofridas por mulheres daquela comunidade. Bem, é sabido por todos e constatado em pesquisa encomendada pelo Correio que a predominância de adeptos ao pagode encontra-se nas classes D e E. Não por acaso, as letras atacadas pelas feministas que defendem a promulgação da lei são em sua grande maioria letras pertencentes a esse gênero. Segundo elas, os textos citados não podem sequer ser referidos como música – o que me lembrou de uma não menos infeliz declaração de Daniela Mercury sobre o vocalista de A Bronkka, Igor Kanário (“o príncipe do gueto”), ao dizer que esses meninos do pagode “precisam estudar”. Na ocasião, os finais de cada mensagem reproduzida pela imprensa em resposta dada a Daniela no twitter do cantor eram inundadas de “sic”, reificando que, ao contrário da “rainha”, o príncipe do gueto de fato não sabe escrever na norma da língua portuguesa. De modo mais ou menos sutil, a imprensa disse que Daniela estava coberta de razão: esses rapazes precisam mesmo estudar. O que quero chamar atenção com todo esse embate eminentemente político sobre o que pode ou não ser considerado música é que a “Lei Anti-baixaria”, inclusive com o aval das mulheres que estão à frente dela, consegue – queira ou não – reunir preconceito linguístico, elitismo e preconceito contra o próprio gênero pagode (e aqui eu nem quero falar em racismo). Mas a desqualificação da produção cultural desses meninos é apenas um lado do projeto de lei, que é mais ambicioso. Na fala da autora, a deputada estadual Luiza Maia (PT), foi notável para mim um desejo de moralizar as relações afetivo-sexuais. Para ela consiste num problema a objetificação do corpo da mulher na cultura popular e a “vulgarização da mulher”, “que não é cadela pra dar pra qualquer um”. E aí eu pergunto: mas qual é mesmo o problema em dar para qualquer um? Pergunto ainda quem é essa mulher que sente a sua dignidade ferida, que se sente ofendida com as letras do pagode? Ou, mais precisamente: quem poderá definir precisamente o que se constitui ou não como violência? Por isso me interessa a opinião daquelas que consomem o pagodão, que vão aos shows, que sobem no palco, que provavelmente não foram “iluminadas” pela universidade e que prestam-se àquilo que chamam de vulgaridade ou de auto-desvalorização, porque ser ou estar puta para muitos ainda é descrédito, é desqualificar-se. São opções políticas: em vez de dizer que meu cabelo duro é bom, alguns preferem dizer que meu cabelo não é duro, que meu cabelo é bom. Seja como for, estou um pouco cansado da opinião dessa gente que confessa (para não dizer conclama) com muito orgulho não consumir “esse tipo de música” ou então que adora ressalvar que “não ouço em casa, só na rua”. Cadê a turma pagodeira?
Um outro problema desse projeto é que, a despeito de vãs tentativas em argumentar o contrário, no fundo é uma censura sutil, disfarçada, a começar pelo nome com que ficou popularizado. Nesse sentido ficou muito claro para mim a adesão citada no tal debate de alguns setores da Igreja. Se em verdade o projeto não visa proibir (e sim inibir) a produção e veiculação de músicas com teor supostamente ofensivo contra “a mulher” (aliás, quem são as que têm voz para falar por todas as mulheres?), e sim proibir o financiamento público de grupos que tenham o seu repertório infestado desse tipo de música, isso não parece estar tão claro para a maioria da população que teve acesso ao projeto. O que se vê nas ruas são cartazes, faixas, uma verdadeira CAMPANHA contra essas músicas, produtoras de mulheres nada respeitáveis. Na semana passada uma amiga levou para a mesa de bar um cartaz dessa campanha e o abriu, indicando a contradição manifesta entre a imagem e as palavras. Na foto, uma mulher com a bunda empinada e esbanjando prazer, enquanto um homem apontava na direção de sua bunda a palma da mão como quem a daria um tapa (bem, preciso ressaltar que a face do homem não era de fúria e que portanto o tapa ali não era um tapa para propriamente agredir a mulher). No cartaz, as palavras “Batidão sim, contra a mulher não!”. Ora, é o Estado querendo dizer que esse prazer que ofende ALGUMAS feministas (porque para alguns ser feminista atualmente na Bahia é apoiar a lei), esse prazer sentido por essas mulheres e que envergonha outras, está errado. Incumbido da gestão dos corpos, o Estado quer indicar o modo politicamente correto de sentir prazer, de modo que a mulher que goza com o vocalista objetificando o seu corpo em performance altamente libidinosa é alienada, idiota cultural, é vítima sem o saber, e precisa de um Estado paternalista que a proteja.
Por outro lado, a própria lei é ingênua ao partir desse princípio de estupidez cultural e equivoca-se ao pensar que, como uma máquina que responde aos comandos, as diretrizes das músicas são inculcadas nas nossas mentes, e então a reproduzimos ad infinitum. Para além disso, o projeto de lei parte do pressuposto que o ato de escutar música é uma atitude reflexiva, sendo que, diversas vezes, no envolvimento jocoso com o ritmo-letra, sequer sabemos a nível da consciência o que estamos cantando.
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Eu já disse certa feita e repito aqui: Valesca Popozuda é muito mais inteligente que Luiza Maia. Proibir não é nada subversivo. Respostas criativas aos machos podem ser dadas pela própria produção cultural e não por sua negação, e é justamente por isso que o que eu queria ver por aqui era uma versão baiana de Gaiola das Popozudas, mulheres mais sujeito de prazer que objeto.
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Considerar machista aquele que não é a favor da lei é um modo agressivo e burro de encerrar o debate. É atitude de quem, em vez de querer de fato levar a cabo uma discussão, prefere o conforto monótono de prosear de-si-para-si. Ao meu ver, esse tipo de postura denuncia o viés muito mais doutrinador que verdadeiramente dialógico (e democrático) que certos militantes assumem em suas miradas arrogantes de quem é cheio de verdades e esclarecimento. Ainda que eu tenha me pronunciado no debate que participei e os olhos em brasa das mulheres da mesa me mirassem como a um machista, ainda que um grupo de pessoas tenham me achincalhado ontem no facebook de uma desconhecida, a atitude sincera e opinativa que aprecio para comigo nos meus ativismos é a mesma que mantenho com essa gente, porque opiniões divergentes sempre me instigaram, ao passo em que demasiado simplismo sempre me aborreceu. Como diria Caetano, as coisas são profundas.