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Homens do Norte

abril 12, 2011

Quando eles entraram no metrô eu não pude conter, em desabafo para o meu amante, aquela velha conhecida e redentora interjeição “Nossa [Senhora!]…”, a qual, quando vinda de mim, esteja certo de que há “coisa boa” nos arredores: toda atenção é pouca. Dessa vez não foi diferente, mas foi. Acompanhado por seu amigo, o moreno de camiseta regata logo percebeu que havia chamado a minha atenção. Durante o trajeto, além de observar admirado os seus próprios músculos – gesto aliás recorrente nos mais exibicionistas – ele via pelo reflexo do espelho (pois que estava sentado paralelo a mim, embora do lado oposto) que eu de fato havia me curvado a fim de apreciar, junto a ele, o seu corpo mais ou menos “trabalhado”. O que me parece é que nesses momentos alguns rapazes, geralmente os menos inibidos e mais auto-confiantes, sentem-se instigados, em concordância com o admirador, a adorar-se, como quem diz “eu sei que sou gostoso” ou “eu (também) me comeria”. Neste ensaio um quão autofágico, a impressão passada pode ser de um consentimento tácito ao olhar que devora, oriundo da compreensão e de um sentimento de justiça por ser ele objeto de desejo.

Ao chegar na estação de destino, os rapazes levantam-se e aquele a quem eu observava com devoção encara profundamente a mim e ao meu namorado, que costuma portar-se com o seu desejo, bem, de maneira discreta. Eu não distingui com exatidão o significado daquele olhar, mas assim retrospectivamente eu acho que continha um misto de estranhamento e de tentativa de intimar-nos, agora que ele estava bem de frente à nós, que estávamos sentados ao lado da porta do metrô. Sei que achei engraçado aquele olhar um bocado inquisidor, e ri-me, como naturalmente rio em muitas situações de enfrentamento. Acho de qualquer modo que ele não gostaria de ter-me provocado riso e pode mesmo tê-lo interpretado como deboche. Foi então que insultou-me, ou melhor, chamou-me repetidamente de “paneleiro” (a correspondente lusitana de viado, bicha, marica, queer) e disse mais algumas coisas que não consegui escutar. A minha reação? Eu estava impassível. Não contente com a indiferença, ele voltou e cuspiu-me toda a saliva que acumulou no intervalo de tempo entre a porta do metrô abrir-se e outra vez fechar-se. As pessoas ficaram assustadas e deixaram escapar expressões como “Oh…”. De tão inusitada a situação, permaneci impassível, enquanto meu namorado, este mais afligido, limpou-me algum resquício de cuspe que ficara no meu rosto. Enquanto isso, o tempo-trivial tomava conta mais uma vez do metrô e as (não muitas) pessoas que lá estavam, aos poucos, uma a uma, esboçavam feições de “ele fez por merecer”, como se alguma ação que realizei durante o percurso, ou quem sabe uma condição ontológica, autorizasse o gostosinho a submeter-me àquela situação vexatória e humilhante.

Deixei o metrô no lixo, sub-local que não é nenhuma novidade para nós. Logo na saída da estação, um rapaz corria em direção a mim e ao meu namorado, que caminhávamos de mãos dadas. Já alarmados, soltamos as mãos e olhamos pra trás, mas o pobre rapaz corria por qualquer outra razão, não nos queria agredir. O aprendizado de temer não é dos melhores. E digo aprendizado por que, até que me aconteça algo, eu nada sei a respeito do mundo. E essa não é a filosofia do risco. O risco existe para mim hoje, que não quero estar de mãos dadas com um rapazinho à meia-noite. No caminho de volta à casa, eu compreendi que aquele jovem, que devia contar com os dezenove ou vinte anos, cuspiu-me para fazer-se homem, e consequentemente superior a mim, capaz de colocar-me no meu devido lugar: de escória.

Ao relatar o caso a um amigo português, ele rogou-me “Por favor, Maycon, não olhe assim para os rapazes do Norte”. E no fundo eu sei que a primeira mulher em que percebi a expressão facial compreensiva ante à agressão, vale dizer, em concordância com o homem, pode ter sido a mãe que a dois dias atrás, igualmente no metrô, tapava o rosto da criança, do menininho, para que ele não visse a indecência que era a minha mão pousada sobre a perna do meu namorado. Ou para que a visualização dessa cena não o desvirtuasse das dignificantes lições dos homens do Norte*.

* Decidi manter essa alcunha, além de fins estéticos, como uma provocação acerca de imaginários e identidades masculinas em Portugal. Evidentemente não sou da opinião de que todo homem do Norte é homofóbico.