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Tesão por policial e os rolezinhos nossos de cada dia

janeiro 27, 2014
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Era uma sexta-feira qualquer e, como é de lei neste dia da semana, jovens pretos do Nordeste desceram para curtir uma sexta sem lei. Sem lei? Talvez. O Nordeste de Amaralina, como me explica um sujeito etnográfico, é um complexo de quatro bairros: Santa Cruz, Vale (das Pedrinhas), Chapada (do Rio Vermelho) e o Nordeste em si. Não obstante junta-se ao bando jovens de outras comunidades circunvizinhas, como o Alto de Ondina. Às vezes calha de estarem misturados a moradores do próprio Rio Vermelho e de outros bairros classemedianos da cidade. Mas isso quando, pelo menos, há uma convocatória pelo Facebook capaz de agregá-los. Entretanto, não se tratava ali, nesta sexta-feira que evoco, de uma festa mestiça, o que a fadava inevitavelmente ao fracasso; ali onde a mestiçagem poderia simbolizar a redenção.
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“De keké”, caminhando meio sem destino naquela noite, observei a movimentação do Mercado do Peixe, muito embora – importante ressalva – do lado oposto aos bares, o que já poderia ultrajar os jovens como maus consumidores, presenças não tão benquistas, ao menos pelos proprietários dos estabelecimentos comerciais. Foi ali onde, antes de juntar-me aos “meus” no Largo da Dinha, decidi parar: rápida etnografia para consumo próprio. Eis que a primeira cena que vejo é da Polícia Militar abordando alguns rapazes, sob as despropositadas luzes azuis e vermelhas que teimam a alardear-nos os olhos.
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Eu não sei porque cargas d’água, decidi deliberadamente provocar a Polícia, como um dia em que você não está disposto a “deixar passar”, sobretudo se se trata de cenas clichês em que você se sente coagido a curvar-se como um espectador que não intervém. Mas é que sou da geração cam4, baby, gosto de participar do espetáculo. Então tirei do bolso meu celular e acionei o flash, que geralmente desligo para libertar minhas centenas de cliques da censura alheia. Feito isso, mirei em direção à cena, do mesmo modo que, antes mesmo de descer do carro, a Polícia aponta para meninos de dez anos de idade voltando pra casa depois de uma manhã de domingo na praia (observem no tamanho do terceiro garoto – à direita – da foto). A diferença é que a minha arma não era de fogo, mas tão-somente a informação. Para a Polícia, para quem aquela atividade poderia ser apenas mais uma entre as tantas de uma enfadonha rotina laboral, a entrada do meu flash em cena pode ter livrado aquela abordagem do conforto do hábito. Perguntar-se-ia porque esse rapaz está nos fotografando, o que ele teria visto de incomum, ou de… repreensível.
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Falei em meu celular investido de uma câmara sob a alcunha de arma pois se não o fosse o flash que ele irradiava seria subestimado, e porque, caso não vivesse, felizmente, em um tempo em que cada vez mais essa corporação fosse alvo de escrutínio crítico, a Polícia bem poderia se prestar a um exibicionismo sem vergonha, breve e indolor. Na chapa. Uma policial então me viu (os dois ou três policiais que abordavam os jovens estavam de costas para mim), e se deparou com um menino branco, de bata branca e de óculos de aro grosso. Provavelmente deve ter se perguntado primeiramente o que eu, como único branco no ambiente, estava fazendo ali, depois o que eu tinha a ver com os jovens abordados – talvez tal questão pode ter rondado a mente e mesmo a conversa daquele grupo durante parte da noite, ou talvez ela tenha sido simplesmente abortada, quiçá respondida de modo fácil e prático. Como se o próprio flash não denunciasse a minha petulância, ela denunciou a intromissão para seu comparsa de milícia: “Ele está fazendo foto”, como se o interpelasse a agir. Foi tudo tão rápido (essa narrativa está muito aquém do incidente e da minha taquicardia) que nem me lembro se o policial interrompeu a abordagem ou a concluiu, mas sei que ele veio em minha direção com toda sua fúria policialesca: “Quem lhe autorizou a fazer essa foto? Apague essa foto, vamos!”. Eu disse, com toda a sinceridade e cinismo e desdém do mundo: “Não sei apagar, realmente. Você quer tentar?”, quase sorrindo de lado, mas visivelmente intimidado. Ele tomou o aparelho da minha mão, e foi passando de um a um colega para ver afinal quem conseguia apagar aquela maldita foto; que não deveria, pois, ser reproduzida. Mas nenhum deles, qual o dono do aparelho, estava habilitado para isso, e eu a trago aqui como se fosse uma grande novidade, o último furo jornalístico da Bahia.
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Então este mesmo policial que se encarregou de mim pergunta: “Você sente tesão por policial, é?”. Só faltou o “viadinho” no final da pergunta. Para ele devia ser bastante plausível que eu fosse mais um desses que tem fetiche por fardados. Não é que ele esteja totalmente errado no que insinuou, mas, em geral, a Polícia em particular mais me desperta asco que tesão. Aliás, soube recentemente que há uma expressão ou palavra francesa que remete à terrível sensação de só depois do lance levado a cabo você encontrar a melhor resposta a oferecer; uma resposta dormida. Eu lhe deveria ter dito: “Sinto tesão por alguns, por você não”. Mas que diabos tinha a ver minha sexualidade com aquela situação? Tudo? Certamente, chamar-me de viado me desautorizava moralmente a criticar sua prática. E foi mais ou menos por aí que ele resolveu proceder seus ataques. Feita a pergunta, ainda mais irritado com a minha intimidação forjada em arrogância (que, em verdade, era alimentada por uma segurança acerca da minha superioridade moral perto daqueles policiais), ele deu a voz: “Abra as pernas, vamos!”. Abri. “Abra as pernas!”; abri um pouquinho mais. Ainda não contente, ele vociferou mais uma vez: “Abra as pernas!”. Oi? Então ele queria que eu escalasse, só pode. Sim, pois nunca vi ninguém elasticizar tanto as pernas quanto ele gostaria que eu fizesse numa abordagem. Depois de passar as mãos pelo meu corpo, talvez pelo meu cu mas com certeza não pelo pau, ele ordenou que eu tirasse tudo que eu tinha dos bolsos. Depois mandou que eu tirasse os próprios bolsos pra fora. Ele estava tudo menos convicto de que encontraria algo ilegal comigo. E depois ele pediu que eu tirasse ainda mais, e daí, impaciente, foi a minha vez de falar: “É pra eu tirar a roupa também?”.
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Convicto de que ele havia me agredido e revidado à altura minha tamanha ousadia (minha ostensiva sobriedade não podia provocá-lo qualquer desconfiança), ele deixou-me em paz. Parcialmente. Estava com o meu coração saindo pela boca, mal conseguia acender um cigarro, que eu nem fumo, de tão trêmula que estava a minha mão. Ainda assim, fiz questão de manter inicialmente meu olhar vigoroso e bravo, que não cessou de desafiá-los, e contra o qual eles já nada podiam fazer, em sua direção. Depois disso, um rapaz que me pediu um cigarro (eu o havia conhecido na praia no dia anterior) disse para o amigo: “Bó, bó. Bó ganhar!”. E eu perguntei a razão deles irem embora. E eles apenas disseram o que lhes era óbvio: “A Polícia aqui, rapaz”.
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Claro. Ainda que eles não estejam fazendo nada que possa ser enquadrado na clandestinidade, a presença da Polícia naquele ambiente basta para intimidá-los. Já vi cenas em “calouradas” (batizado com esse nome, o evento já não mantém ligação genealógica com estudantes do ensino superior) da Polícia revistar dezenas de pessoas compulsoriamente, de modo que todas as outras se ia afastando, pois, caso optassem por ali permanecer, seriam as próximas, e é certo que não gostariam de submeter-se a tal constrangimento (agressão). A Polícia é responsável pela dispersão dos bandos nestas sextas-feiras, que, coagidos e não sem razão, cumprem exatamente o que está prescrito no recôndito regulamento: partem em retirada. E a Polícia o faz de modo sutilíssimo (é?), pois que não os expulsa, “apenas” os aborda. Aquilo ali não é um rolezinho, não é um evento convocado pelo Facebook e nem é excepcional: aquele rolê e sua dissolução integra a rotina de todos esses jovens que, indóceis, se aventuram a descer.
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Enquanto eu definhava na minha impossibilidade de superar esse indigesto episódio, sentei-me no banco entre dois jovens e, naquele momento, tão entre eles quanto totalmente ensimesmado, senti-me, ainda assim, silenciosa e ligeiramente acolhido. Mas, devo confessar: também eu precisava sair dali. Mais adiante, um ambulante com isopor de cerveja comentava com seus amigos aos risos, mas afavelmente (acredite), sobre a ordem da Polícia para que eu abrisse as pernas. É claro que aproveitei para pregar a palavra um bocadinho. E um deles comentou: é, mas muitas vezes esses meninos tão com drogas. E eu, que nunca vi a Polícia encontrar nada com quem quer que seja, ainda assim pensei de pronto: “É… legaliza-se as drogas, legaliza-se esses rolês”. Um mundo possível?