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O ciúme é muito pior

novembro 22, 2008

O ciúme é muito pior. Era assim intitulada a mensagem que dizia que “ciume de viado é muito pior do que de homem com mulher e mulher com homem viu . se cuida gays . o amor de voçes . levam a morte. que coisa terrivél. um homem amar tanto outro ao ponto de matar . que horror . que cena macabra marido mata marido . triste demais. se cuidem viu . toma cuidado com este amor de voçes ai caras .tanto homens como mulher” (comentário extraído de http://www.aratuonline.com.br/noticia/16384.html).

O/a autor/a — com licença, fidelidade à vulgar expressão dos noticiários policiais — que prefere não identificar-se, fora taxativo/a: “o amor de vocês leva à morte”. Não hesito ao afirmar que encerra nessa oração uma genuína advertência às comunidades LGBTs, que, além de experimentar a vulnerabilidade social e, assim, o risco de ser vítima de crimes motivados pela homofobia, deve cuidar-se, ou precisamente evitar o “estar amante”, a fim de não tornar-se (também) vítima de um amor específico, que perde o eminentemente encanto da construção social desse sentimento, e passa a oferecer perigo, sobretudo ao ser amado.

Nada obstante, no que se refere às manchetes policiais envolvendo homossexuais, a grande mídia as veicula de modo a enfatizar na sua enunciação a sexualidade dos/as atores/atrizes, de modo a reificar (não posso afirmar que foi a mídia que fundou tal estigma, embora em parte desconfie) o imaginário de que o amor entre nós é pernicioso. Assim, lemos “Homossexual acusado de matar ex-namorado de companheiro é preso” (G.N.), e não simplesmente “Acusado de matar ex-namorado de companheiro é preso”. Me parece ainda que a palavra “homossexual” na construção em vidência poderia ser tranquilamente substituída por “comerciante”, ou qualquer que fosse a profissão exercida pelo sujeito.  Percebemos, então, a centralidade que a sexualidade ganhou ao longo do século XX, e como o dispositivo heteronormativo é devidamente acionado, vigiando e punindo — nesse caso, literalmente, como uma sanção, protagonizada pela mídia, por duas infrações: a de matar (quiçá em segundo plano) e a de ser homossexual. 
As mitificações, como turvos olhares sobre o Outro, a respeito deste ser, o/a homossexual, são muitas e por vezes ambíguas ou mesmo contraditórias. A um só tempo, a sociedade, que desconfia da nossa promiscuidade e reivindica-nos a monogamia, acredita sermos grupos de risco (também) para o crime passional. Ambas as suposições nos aproxima da esfera mais, por assim dizer, instintiva, do impulso, tanto sexual, quanto afetivo, das emoções tão desmedidas que incontroláveis. Desregulados, desreguladas.
Como disse um velho amigo, eu bem que queria saber amar assim, perdidamente.  

Primeiro mote, ou quem pode falar

novembro 17, 2008

Essa página, que fora criada ontem por mim, visa constituir um espaço onde eu possa livremente manifestar a minha opinião sobre temas de relevância ou mesmo trivialidades cotidianescas.

Léo Kret na sua atividade profissional
Léo Kret na sua atividade profissional

Desde a polêmica gerada acerca da eleição da Léo Kret, a qual diversas vezes — a maioria delas, não por iniciativa minha — tornou-se pauta da discussão de grupos em que estive presente, emito a minha opinião em atenção à certa especificidade da cultura política soteropolitana que a elegeu. Então, embora o tema certamente já tenha exaurido parte dos/as possíveis leitores/as desse espaço, vejo como uma boa oportunidade de ensaiar um prelúdio do mesmo, tomando como ponto de partida a entrevista concedida pelo professor Dr. Luiz Mott ao jornal A Tarde, publicada no último domingo (16).

Gostaria de comentar outros trechos da entrevista, talvez o faça. No entanto, por hora, pretendo limitar-me a essa questão:

“_Vocês se arrependem de não terem apoiado Leo Kret nas eleições para a Câmara Municipal?
A Leo Kret frequentou durante três anos o projeto “Se Ligue”, do GGB, indo a mais de 100 reuniões. De modo que o que ela sabe hoje sobre direitos humanos, homossexualidade e AIDS, foi no GGB que aprendeu. As primeiras entrevistas, os primeiros vídeos, foram feitos na sede do GGB. O Marcelo Cerqueira chegou até a oferecer a ela uma roupa para que ela desfilasse certa vez e na parada de 2007 ela recebeu a faixa de fadinha e esteve no alto do trio principal. Porque nós sempre apoiamos e tentamos ensinar a Leo Kret a ser uma pessoa de respeito, com menos espalhafato e mais conteúdo. Mas jamais qualquer pessoa em sã consciência indicaria um jovem de 23 anos, com pouca escolaridade e sem nenhuma formação política, para representar a comunidade homossexual na Câmara de Vereadores. Leo Kret, objetivamente, não tem o perfil de uma liderança comunitária, embora tenha recebido os 12 mil votos, sobretudo de pagodeiros e pessoas que, segundo a interpretação de inúmeros cientistas sociais com quem conversei, representa um voto não de protesto, mas de esculhambação, como em São Paulo as velhinhas elegeram Clodovil, não pelo fato de ele ter um projeto político dos homossexuais, mas porque muitos heterossexuais gostam do gay efeminado, espalhafatoso, palhacinho, etc. Eu tenho certeza que Leo Kret vai fazer um ótimo mandato. Basta que seus assessores copiem as 300 e tantas ações afirmativas aprovadas na conferência LGBT e que essas propostas sejam apresentadas e aprovadas. Mas nem os próprios assessores gays ou representantes do movimento LGBT da Bahia votaram em Leo Kret. Não fui apenas eu ou o GGB a dizer que ela não representa o movimento, mas vamos para a realidade que, eleita, estamos apoiando. Mas os candidatos que ofereciam propostas e projetos e um histórico de militância, Marcelo Cerqueira e Valquírima, do grupo Palavra de Mulher Lésbica, eram os candidatos sintonizados com a militância baiana”.

Como pode ser apreciada, na entrevista, o antropólogo Luiz Mott, a fim de aferir juízo de valor em relação a determinado grupo social (supondo serem os “pagodeiros” um grupo homogêneo), parte da premissa da clássica — e, não obstante, recorrente — distinção entre baixa cultura e alta cultura, paradigma que já vem sendo quebrado desde o deslocamento dos modelos europeus de alta cultura, seguido pela emergência dos Estados Unidos como potência mundial, centro de produção e circulação de cultura, e da descolonização do Terceiro Mundo (West apud Hall, 2008).

Não conheço os/as eleitores/as da Léo Kret, não posso, embora verdadeiramente o quisesse, entender o/s fator/es que orientaram o seu voto, ou, quiçá, o que entender por “esculhambação”. O professor Luiz Mott, segundo ele próprio diz na entrevista, cobrara da Léo Kret uma postura séria, recrutara-a à uma identidade específica, isso porque ele já entendera como a forma é importante (ainda que ele alegue sobretudo uma certa ausência de conteúdo), a corporeidade importa e é elemento preponderante para a constituição de “modelos” evocados pelo marketing político. Os/as candidatos/as também já há muito entenderam isso — não me resta dúvida — no entanto, não me parece condizente esse “modelo” para a compreensão do fênomeno Léo Kret e, portanto, não me parece servir como um dispositivo que operacionaliza-se universal e massivamente, caso contrário, militantes históricos/as do movimento LGBT baiano e nacional teriam sido eleitos/as. Assim, a eleição da nova vereadora reivindica certa — permitam-me o clichê — quebra paradigmática, revisão ou reconstituição dos então dados, o que decerto facilitaria a vida de quem se preocupa em compreender esse processo.

Sobre os “pagodeiros”, a própria Léo Kret, em entrevista dada após a eleição, já havia apontado que fora eleita por várias pessoas da periferia que se identificam com o pagode. Também não é novidade a imediata analogia do militante Mott à uma série de valores que inferiorizam os “pagodeiros”. Embora muitas letras do pagode sejam carregadas de machismo e homofobia, gostar e identificar-se com a música — que não resume-se à letra — não necessariamente significa compartilhar de todos os valores nela sublinhados, quando votar em Léo Kret pode denotar a alternativa de escolher uma candidata que consegue dialogar com o seu mundo. Portanto, sugiro que o fenômeno da sua eleição pode ser muito mais rico do que pode a priori parecer, embora sofra constantes tentativas de deslegitimação em nome, inclusive, da autoridade intelectual evocada pelos/as tais cientistas sociais, que perpassam pela austera estigmatização de quem consome a cultura de massa, o que me lembra os filósofos políticos que consideram o eleitorado (ou “dominados”) leigo, para não dizer estúpido, caindo num visível preconceito classista (supondo a associação dos “pagodeiros” às classes populares). Sugiro, então, a leitura do Cosmopolitismo do pobre, do escritor gay — em respeito à sua identidade — Silviano Santiago.

Quanto ao mandato da Léo Kret, caso ela se utilize, como apostou o professor Luiz Mott, das propostas encaminhadas pela sociedade civil organizada, a partir da Conferência Nacional dos Direitos LGBTs, me sentirei muito satisfeito enquanto homossexual. Participei da etapa territorial (da Região Metropolitana) e fui delegado da etapa estadual. Espero, não sem otimismo, que o nosso empenho na Conferência seja útil ao mandato da vereadora, amenizando os déficits do nosso sistema representativo. 

 

Referência Bibliográfica

HALL, Stuart. Da diáspora – identidades e mediações culturais. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2008.