Archive for junho \15\UTC 2009

São tantas já vividas

junho 15, 2009

Não  me cabe aqui aqui discutir as razões pelas quais faltaram a noite (e que noite!) Elas cantam Roberto, cantoras como Rita Lee, com a sua visível inclinação ao “róque tutti frutti”, Gal Costa e sua assinatura (Meu nome é Gal), de composição de Roberto e Erasmo, Maria Bethânia, a primeira dentre os “velhos baianos” (Caio, Gil, Gal e Berré) a curtir a Jovem Guarda, sem falar no seu trabalho As canções que você fez pra mim (1993), show a ser lançado em DVD ainda esse ano pela Biscoito Fino, Marisa Monte, que desde o início da carreira  revela influência do Rei, de quem é mais uma admiradora-confessa, e Simone, que também desde sempre sempre canta o Roberto romântico, o Roberto das declarações, o Roberto dos amores. Quer dizer, todas elas cortadas em suas singulares trajetórias artísticas pela obra de RC.

Numa dessas noites da nossa casa, o Recanto Vera Varandas, discutíamos eu e Marcelo sobre o quê de enigmático que paira, que ronda a figura do Rei, e talvez seja mesmo por isso que, ainda que com um obstinado apelo midiático, há algo em Roberto, como naturalmente em todo ser, que resiste à mais humana vontade de saber sobre, de dissolver mistérios. Como disse um/a autor/a cujo nome não me lembro, o artista e a sua peculiar (e estampada) excentricidade poderia então ser considerado um protótipo da noção moderna de indivíduo.

Pois bem, para o meu pouco imprevisível desgosto, as interpretações de Mart’nália (um curioso sambar Roberto Carlos?), Adriana Calcanhotto e Marina foram cortadas pela edição do programa que foi ao ar, ficando obscurecidas até que seja lançado o DVD da noite. Junto a elas, a contragosto do Rei, Celine Imberte, Rosemary e a eterna jovem Paula Toller, que, indignada, escreveu no seu blog que “estava muito triste e frustrada, principalmente por não ter recebido nenhuma explicação ou sequer um pedido de desculpas da direção do programa”. Ora, em contrapartida, Ivete Sangalo abriu e fechou a “cerimônia”, com direito ao assédio da câmera à gestação que vingou.

Mas para mim, passando pela melada superafinação da Sandy, a nossa debutante, pelo descomedido arrastar de voz da Ana Carolina, pela queridinha-do-Brasil Claudia Leitte, sem contar com o misto de delírio esquizofrênico e incorporação de uma bruxa de qualquer musical infantil da Marília Pêra, Elas cantam Roberto já valeu pelo Desabafo da Fafá de Belém, que, com toda a força que possa esse verbo carregar, arrasou. Já Sua estupidez, depois da arrebatadora interpretação de Gal Costa no seu manifesto Fa-Tal (Gal a todo vapor, 1971), pertencia no mínimo a uma Marrom, e à sua emblemática embriaguez de dama na fossa. Nana Caymmi, em interpretação igualmente antológica, fez de Não se esqueça de mim uma súplica-canção, uma espécie de último suspiro, ou de redenção.

Fafá esbanja bom-humor

Fafá esbanja bom-humor

O fim da noite, como não haveria de ser diferente, ficou por conta de Como é grande o meu amor por você — o seu romantismo mais universal — quando, em número coletivo, para “lambança” generalizada, o Rei reuniu entre si (e só para si) todas aquelas mulheres. Melhor que isso, só perceber como, além de ter marcado a obra do Rei com o que cada uma delas possui de idiossincrático, estavam todas de algum modo à vontade, vide Fafá de Belém com as suas inadvertidas gargalhadas. No fim das contas, noites como essas só reafirmam uma antiga predileção: o Brasil é das intérpretes.

Bethânia e Ivete fizeram

junho 9, 2009

O pouco (ou nada) modo com que conduzo a vida jamais me permitira fazer parte da turma dos que desconfiavam de que Ivete Sangalo chegaria mesmo longe. Felizmente, não tão longe ao ponto de não podermos escutá-la. É por isso que não omitirei aqui o fato que vem à tona: a debochada filha de Juazeiro acertou na musicalidade.

No estúdio da sua “modesta” cobertura no Campo Grande, qual não foi a minha surpresa ao ver que ela — veja bem, Ela — a própria Abelha Rainha, fez derramar, entoar o seu mel, e se permitiu objeto de prazer, glória e declarada devoção (ou “rasgação de seda”) por parte da “Veveta”.

Num trabalho que reúne nomes com tão poucas familiaridades entre si, tais quais Lulu Santos, Mônica Salmaso, Carlinhos Brown, Marcelo Camelo, e, como se não bastasse, o grupo Aviões do Forró, não tenho dúvida de que a grande estrela, depois da endiabrada anfitriã,  chama-se ninguém menos, ninguém mais que: Maria Bethânia.

A sua atual aparição, evidentemente, nada tem da sisudez de um Cárcara, porta-bandeira do seu terrível pouso no Teatro Opinião em 65. Ao contrário, Bethânia me chega com o seu jeito particularmente sereno e com certo tom de despojamento e delícia — tão à vontade, aliás, quanto se mostra a sua inédita — e demasiado versátil — parceira musical.

Axé Odô!

Axé Odô!

Embora Bethânia houvesse declarado, na sua antológica — e também por isso — polêmica entrevista à Revista Playboy em novembro de 96, que não apreciava, ou melhor (para ser fiel às palavras da Berré), que não suportava a Axé Music, mas canta (versão dispoível no 4shared) de forma muito bonita, no show As Canções que você fez pra mim (1994), a música Adeus bye bye, gravação da Banda Eva no início na década de 90, quando o que na verdade ela dizia era um olá ao Axé, ao que veio dar na Axé Music. Ao fim de Adeus bye bye, Bethânia solta um “Salve, Ivete Sangalo!”. Muito obrigado, Axé não por acaso é de Carlinhos Brown, cuja melhor definição do músico, instrumentista, compositor e mais uma série de atributos, não haveria como a descrição da comunidade do orkut homônima, em homenagem ao Brown, que completa 30 anos de carreira, com um relevante e sempre renovador lugar na história da música baiana, quer dizer, pós-baiana. No show Âmbar (1996) Bethânia cantou Queixabeira, que é a sua cara também, e composta por Brown.

Na mesma entrevista a Playboy, Bethânia diz que Daniela Mercury tem talento, mas uma “musiquinha que não é nada”. Na Lavagem da Nossa Senhora da Purificação, já em 2007, as duas dividem o palco na terra dos Veloso, onde declarar-se gostar do trabalho da Daniela (ou mesmo se da Ivete) não signifique uma filiação à Axé Music. Aliás, que filiação? Bethânia não filia-se a nada, é bom lembrar que nem mesmo à Tropicália ela vinculou-se. Sei que, ainda assim, vale o agradecimento de Ivete Sangalo ao Axé, na verdade, sendo ou não povo de santo, foi gostoso apreciar a (que eu lembre) primeira  gravação sua que remete tão explicitamente ao candomblé. As próximas vozes que se encontrarão com Bethânia serão a Mercury e a Margareth Menezes, que gravarão juntinhas a canção Oyá por nós, também ref/reverenciando um orixá — no caso, a Senhora dos Raios e Ventos.

Pelo visto, só faltava o convite, a presença, o encontro: Bethânia está para o axé assim como Caetano está para o pagode baiano? Resta-nos saber se.