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Como um objeto não-identificado

fevereiro 15, 2011

Sexta-feira foi o dia em que decidi finalmente comprar um objeto que há algum tempo sinto vontade de fazer uso enquanto experimentação erótica. Vamos eu e uma amiga a um sex shop bracarense, voltado para todo tipo de público (senhoras beatas etc), para então buscar um dildo, a tal ultra-sofisticada prótese. Afinal estava em dúvida se levava um vibrador ou um sem esta habilidade. Ainda a título de experimentação – sem com isso utilizar o termo com o desejo de isentar-me de uma possível constatação de que faço/faria uso cotidiano – poderia voltar dias ou meses mais tarde para comprar o outro, então no fim das pouca diferença faria. Fato é que resolvi ficar com um vibrador cor-de-pele, embora hoje, caso pudesse voltar atrás, já não escolheria essa coloração (a única disponível), mas não adentrarei na questão neste post.

Ok, a simpática atendente – não conheço outros sex shops, mas suspeito que também nestes existam simpáticas atendentes – pôs a minha aquisição, conforme manda o figurino, numa plástica e “discreta” embalagem, a qual caiu-me como uma luva, afinal tratava-se pois de uma embalagem discreta para um jovem discreto. Entretanto, se por um lado estou certo de que a segunda é bem aplicada, o primeiro atributo de discrição chega a ser questionável: eu poderia fazer compras em todo o centro comercial de Braga e certamente nenhum ofereceria-me o produto comprado numa embalagem preta. Tudo bem, ainda para fins de tão almejada discrição, coloquei a sacola na bolsa da minha amiga e em seguida fomos a um supermercado comprar mantimentos nada eróticos, embora eu não ache o supermercado pouco erótico por assim dizer. Eis um ambiente em que os nossos olhinhos pode mover-se a todo o tempo sem maiores cautelas. Para todos os efeitos, estamos sempre à procura daquela marca em que confiamos.

Feitas as compras, agradeci à minha amiga pela gentileza em guardar o meu dildo de estimação e pedi-lhe que, para que eu não o esquecesse, o pusesse no meu carrinho de compras, pois é evidente que já naquela noite gostaria de explorá-lo pelo menos visualmente, namorá-lo. Com a chegada do táxi, colocamos as minhas compras no porta-malas e o taxista segura a minha discreta – mas de contornos duvidosos – embalagem preta, a pondo igualmente no fundo do carro. Já em casa, enquanto retirava dos sacos plásticos os mantimentos comprados, dou-me conta da ausência da singela sacola a que dispensei tanto cuidado e atenção, certamente sob efeito do imagético discurso da discrição. É claro que, ao imaginar a expressão estupefata do taxista ao encontrar aquele produto no seu carro, minha primeira reação foi de riso. Certamente um cliente mais discreto que eu deixaria para trás os dezesseis euros investidos naquele objeto. Porém, até pela curiosidade com o decorrer da situação, não foi a atitude que adotei. Pelo contrário, tratei de ligar imediatamente para o taxista. Entretanto liguei para um colega de trabalho daquele que trouxe-me em casa, que foi na verdade quem primeiramente contactei para buscar-me. Informei portanto que havia esquecido uma “embalagem” no carro do seu colega e que por gentileza entrasse em contato com ele.

Não obtive retorno. No dia seguinte, um sábado, ligo novamente para o taxista, que espantou-se pelo fato do seu colega não entrado em contato comigo, então disse que falaria mais uma vez com ele e que logo eu receberia uma ligação do mesmo. O taxista em questão liga-me e diz que mandaria entregar-me a tal embalagem, contudo eu teria de custear a corrida. Eu disse que sem problemas, mas que o chamaria no domingo pois naquele momento eu estava, como sempre, descansando. Assim sendo, ainda contando em recuperar o meu dildo perdido, ligo no domingo e peço que enfim tragam-me a embalagem (nunca o objeto) em casa, ao que ele desculpa-se pois que algum cliente utilizou o porta-malas e acabou por levar consigo a minha embalagem sem que ele se desse conta. Enquanto eu apenas escutava, com aquele pensamento “tava muito bom para ser verdade”, o taxista completa falando que se responsabilizaria pelo furto e perguntou-me quanto custou o produto, cuja nota fiscal estava na embalagem. Eu disse o valor e ele respondeu-me que então passaria na minha casa, o fazendo em seguida sem sequer descontar o valor da corrida, a qual foi necessária para reparar a minha própria desatenção.

Ao relatar toda esta anedota para o meu amigo hétero, que por acaso é português, ele julgou estranhíssimo o fato do taxista ter vindo aqui pagar-me pelo objeto e levantou a hipótese de que no durante ele resolveu ficar com o produto para si. Se foi mesmo o caso – que escolhi acreditar por desconhecer o suposto cliente que levou o meu dildo – o taxista deve ter ficado muito grato pelo meu esquecimento, que acabou por poupá-lo de encontrar pelo caminho uma solícita atendente. Curiosamente ou não, pois afinal isso é apenas uma especulação ilustrativa, dia 14 de fevereiro é o dia de São Valentino. No dia dos namorados em Portugal eu fiquei sem o meu dildo.