A Concha não pode desafinar *

A diferença entre os dois principais espaços do Teatro Castro Alves é manifesta: Sala Principal é solidão, Concha Acústica é comunhão. A ausência de poltronas, de climatização, a despojada arquitetura de arquibancada e a posição algo enérgica do corpo ereto permite isso. Potencializa, por assim dizer, o caráter participativo. A plateia da Concha é um espetáculo à parte (propriedade que Caetano já observou); é difícil nela estar e não olhar ao redor por um momento que seja. Poucas imagens são tão comoventes.

A aparentemente nova regra (tácita) de assistir aos shows sentado parece de alguma forma ferir a distinção entre os ambientes do TCA, comprometendo um engajamento que parte de certa disposição corporal. Talvez em virtude do valor de ingressos um quão exorbitante, a Concha tem atraído um público comportado e cheio de bons modos. Por outro lado, há os que têm paixão e que “não se aguentam” sentado. Os que sofrem com a espera e que não resistem a entrar numa relação de composição com o espetáculo. Diante desse cenário, me parece que a relutância em sentar-se foi o que restou de mais vivo e popular na Concha Acústica pós-requalificação.

É possível que a Concha vivencie certa “transição demográfica”, sobretudo em razão da inevitável estratificação resultante dos referidos preços, que permitem a certas frações da classe média (senão senil, predominantemente de meia-idade) fazer-se presente mas que impossibilita o acesso dos mais jovens, com inserções socioeconômicas precárias.

Permeadas de tensão como costumam ser as transições, é preciso, com uma dose de boa vontade, encontrar soluções criativas a fim de evitar que seja integrado ao script de sociabilidade do espaço esse impasse estressor entre os que desejam ver o show sentado e aqueles que se recusam a isso. Os shows não podem afinal ser permanentemente perturbados com as hostilidades trocadas entre as pessoas que estão na plateia. Tem sido notavelmente desagradável para os artistas que se apresentam e deveras constrangedor para o público.

* Publicado na edição do Correio do dia 7/08/2017.

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