Deixa de ser lindo, rapaz

Lembro-me que – num tempo, aliás, não muito longínquo – rapazes eram adestrados para não perceberem beleza nos seus pares. Ou, pelo menos, para não reconhecê-las publicamente. Não foram poucas as vezes que eu, sempre tão participativo nos encontros sociais, precisei limitar-me ao lugar de espectador quando a beleza deste ou daquele homem estava sendo discutida. Era quase insuportável não poder também eu expressar minha avaliação, quase sempre em concordância com as das meninas à minha volta. O contrário não acontecia: era-lhes permitido opinar tanto sobre o corpo delas quanto sobre o deles – o que jamais colocava em suspeição sua orientação sexual. No máximo era uma questão de bom ou de mau gosto.

Como a vigilância não baixava a guarda, os rapazes, mesmo os heterossexuais, aqueles que gostariam de expôr sua apreciação acerca do que – parecia inevitável – lhes saltava aos olhos, ou prefaciavam sua fala com algumas ressalvas, que servia quase como um pedido de licença ou de desculpas, algo como “não que eu goste da fruta, mas…”: Fulano é gato pra caramba, porra (era isso que eles queriam dizer)! Ou ainda… “se eu fosse mulher eu pegaria…”. Claro, porque tal apreciação implicava (para alguns) um exercício extremo de alteridade. Aliás, ser sensível à beleza de outro homem era ser muderno. Isto é, se fossem comedidamente sensíveis. Um descuido na expressão e logo já não se estaria falando em ‘tradição versus modernidade’, mas em viadagem mesmo. Sei que logo encontraram um eufemismo para comunicar a beleza, a manifesta beleza: lembro que alguns amigos diziam “pô, fulano tá presença hoje”. A figura do boa pinta. O ‘presença’ de ontem deve ser o ‘pala’ (ou paloso) de hoje: – “Palla man ” – Temos pit – replica o alvo do elogio). Os rapazes não cessaram de fabricar eufemismos e sutilezas. Os marombeiros, anos mais tarde, lançaram mão de um… Tá big, parceiro! Inversamente proporcional ao frango, quando eles dizem big, deliberadamente imagino eu, na verdade eles estão pensando que o amiguinho tá mesmo é gostoso.

Tudo isso para dizer que hoje é com alegria que, nas minhas deambulações facebookianas, tenho percebido cair por terra esse tabu de admirar a beleza de seus pares. Vejo boyzinhos comentarem nas fotos dos seus parças, os brindarem com adjetivos mais honestos como: lindo. Eu diria ‘simplesmente lindo’, mas eles costumam ser pouco econômicos; lindo nunca bastou, é verdade. Quando se é lindo mesmo a gente manda um bocado de coraçõezinhos junto. E assim o fazem. Gato serve também, e serve ainda um “largue de linduu rpz ” (que eu li como “pare de ser [tão] lindo [assim], rapaz!”. – Vc pvt .

E enquanto eles admiram mutuamente suas belezas, cá eu fico achando uma belezura como esses pivas têm alargado o espectro da afetividade entre homens, e como afinal deve ser bacana poder dizer pro seu amigo que ele é lindo.

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