O futebol e eu

Na infância eu gostava muito de jogar futebol, a começar pelo super nintendo. Geralmente jogava bola com os vizinhos no meio da rua, num tempo 1) em que as ruas não pertenciam aos automóveis; 2) em que as crianças de bairros de classe média não eram trancafiadas dentro de casa, ou ainda não existiam os tais condomínios horizontais. Jogava muito também nas tardes de domingo na casa da minha avó paterna, quando se reunia toda a família. Os adultos jogavam buraco, as crianças mais crescidinhas jogavam bola, as mulheres que não se integravam à mesa de carteado ‘tricotavam’ no frescor do quintal. Quando a minha avó resolvia pintar as paredes de branco, peraltas, jogávamos às escondidas. Mas logo o som das bicudas explodindo na parede, o gol, despertavam a velha astuta. Lembro com algum saudosismo da cena da minha avó com a bola e uma peixeira na mão prestes a empunhar a faca afiada na danada, e a gente desesperado “ô, voinha”, gritando como quem grita por um ente da família feito de refém. Não me lembro de um dia em que ela realmente tenha cumprido a ameaça. Essa minha vó, como boa sertaneja, estava um pouco distante demais dos padrões de docilidade feminina, mas talvez eu tenha demorado muito tempo para aprender a admirar isso.

 

Na escola eu era um verdadeiro desastre no futebol. O dia da bendita aula de educação física era sempre esperado com sofrimento por mim. Era o momento em que se tornava patente que eu, enquanto projeto de macho, já havia fracassado. Eu ficaria na biblioteca, talvez praticando algum esporte mais soft como ler um romance, e os rapazes estariam suando, com seus hormônios a pulularem. Se eu, que sempre me destacava nas notas, fazia gosto ruim em compôr grupo com os meninos da bola, o mesmo era feito por eles na hora de “tirar o time”. Éramos bem uns vinte, e eu, franzino, ficava no cantinho, esperando o que resultava da apreciação dos meus cambitos na quadra: o meu desempenho era uma bosta; eu era o último a ser escolhido. Nunca consegui mudar essa história, e talvez nunca tenha me empenhado verdadeiramente em fazê-lo. Mas era um momento deprimente para mim. Essa cena que se repetia toda semana foi marcada pelas não poucas vezes em que o professor, de nome “Babal”, obrigava os colegas a me colocarem no time. Provavelmente eles preferiam ficar com o time desfalcado (eu não me lembro se além de não ajudar atrapalhava) ou então: ok, Maycon fica no banco (de reservas).


No caminho de Ondina ao Rio Vermelho sempre achei bonito ver os meninos jogando, iluminados apenas pela luz da lua, na areia da praia da Sereia. É também uma grata surpresa saber que às duas ou quatro da manhã de uma terça-feira pode ter rapazes jogando na quadra de Ondina, em frente ao meu apartamento. Algo de muito bom deve acontecer ali – eu pensava. Hoje, em Feira de Santana, tenho redescoberto o futebol. Eu, que apenas cuidava das plantas do condomínio, decidir arriscar deixar o lugar de tímido espectador, descer dois lances de escada e pedir para jogar. Não foi sem surpresa que os carinhas da bola me viram abrir o portão da quadra e pedir para jogar. Decerto que eu era a última pessoa do universo que eles esperavam cruzar o portal, e a verdade é que eu estava pagando para ver a reação deles. O fato de serem meninos (e uma menina) de 12 – a maioria -, 15, 19 anos me fez sentir mais à vontade para me aproximar; definitivamente eu não poderia jogar com meus pares. Ontem surpreendi-me que o cara que mais joga aqui, um guri de 12 anos, disse que é uma bosta no futebol jogado na escola, e que talvez minha história, ainda que diferente da dele, não seja única. O resultado é que desde quarta-feira passada, diariamente, espero todas as noites para jogar. E jogo. Já não sou o último a ser escolhido (mas penúltimo, rs), e até mesmo faço gol. Ainda que, eu cá com os meus pulmões de anjo, seja o que de longe tem menos fôlego do time (no primeiro dia achei que fosse enfartar), os meninos me chamam de “monstro”, e eu gosto disso. O futebol mobiliza vários sentidos (eu gostaria de ter olhos na nuca), não é um esporte fácil, e tem me encantado profundamente. Posso substituir pílulas de rivotril por uma boa pelada. Mas continuo sem poder ser goleiro: morro de medo da bola, e os meninos riem quando eu fico no gol, chutam, e eu simplesmente corro fora. No sábado algumas garotas vieram me procurar, tão timidamente quanto eu aos meninos, porque também tavam a fim de jogar, e eu quero ajudá-las a, enquanto estiver nesse condomínio, colaborar para a construção de um futebol mais inclusivo. Na esperança de que a bola nunca atinja os meus óculos. Não posso deixá-los.

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