O equilibrista Kannário e a favela no carnaval

Nesta segunda-feira de carnaval, Kannário, cujo nome não se encontra indexado no wikipedia, topou aquilo que pode ser considerado, talvez, um dos maiores desafios de sua carreira: fazer um “carnaval da paz”. Para que o São Cristóvão, Pirajá, São Gonçalo, o Bairro da Paz, São Caetano, o Curuzu e mais uma infinidade de subdivisões territoriais da cidade mencionadas, saudadas, conclamadas pelo Príncipe do Gueto no seu desfile, acedessem ao Circuito Campo Grande (Avenida), ou, em outras palavras, para que a favela descesse, era necessário firmar um compromisso: abrandar os ânimos “indóceis” dos seus seguidores.

A “chance” – sim, essa palavra de peso – oportunizada pelo astuto prefeito ACM Neto, estava condicionada à uma performance comportada, controlada, uma ética de responsabilidade pelos seus assumida por Kannário. Se a favela já lhe considera nobre, membro privilegiado de um povo, só o Estado-Rei lhe poderia confirmar o título de chefe de um principado. Sob Seus olhos vigilantes, amparados por toda sorte de tecnologias de visualização distribuídas ao longo do percurso, e aliada à uma atenta escuta ao que dispara no microfone-arma, Kannário, como um filho “de castigo”, dispôs-se à perscruta, que vale toda a pena que residiria em ficar de fora da festa “escutando a gargalhada”.

Nada foi gratuito. Para o “prefeitinho” não basta ser ovacionado por Daniela Mercury, Márcio Victor e todos os demais artistas estabelecidos no carnaval. Ambicioso e sagaz, ele queria seu nome pronunciado pela boca de Igor Kannário. E teve. Se carnaval é alegoria e o político precisa ir além do centro (não se sustenta popularidade ignorando as margens, sem tentar capturá-las), o neto pegou a carona do príncipe e rumou pra favela. Eles se precisam. Igor Kannário afirmou que “esse prefeito é barril dobrado”. Quer dizer, só faltou dizer que “ACM Neto é favela”. Mas ACM Neto é carnaval. Nos bastidores da mesa de negociação para que o Príncipe do Gueto participasse da folia somaram-se mais de sete mil pedidos no perfil do prefeito no instagram para que Kannário lá estivesse.

Em lúcido depoimento disponibilizado no youtube a título de desabafo, que foi ao ar num programa televisivo (que não da Rede Bahia), Igor Kannário compara-se a Bell Marques. Sim, uma das mais antigas memórias do período momesco que guardo são as queixas relacionadas à pipoca do Chiclete, na qual sempre rolavam altas brigas. Entretanto – ressalta inteligentemente Kannário – Bell jamais fora por estas responsabilizado. Ele, Kannário, vem de outro lugar. Se suas músicas podem ser rotuladas por alguns como “apologéticas à violência” é porque ele, enquanto poeta, consegue trazer o seu mundo para dentro das letras das canções; um mundo em que prevalecem outras leis, relações outras de poder, e, como qualquer outro mundo, porque não mereceria também ser objeto de atenção por parte do artista? O que talvez seja insuportável para “a sociedade” é (re)conhecer a existência do “lado B”, em que o marco da legalidade muitas vezes passa ao largo e o Estado mais reprime que assiste.

O sentido de “brincar carnaval” não é único; há quem vá para a rua engajar-se em paquera, em danças, em cantar junto, em voyeurismo, há quem faça tudo isso e inclusive brigue. Porque será que alguns grupos que possuem “rixa” entre si arriscam-se à confrontar-se em plena avenida, ainda sabendo que podem levar cacetadas ou mesmo serem presos pela polícia? Se relações de violência são constituintes da favela (a qual, por favor, não se reduz a isso), como queremos que “os favelados” participem da festa? Não sei responder, mas sei que foram esses grupos que, pelo menos no seu desfile, Kannário desafiou-se a controlar. Mas ele foi além: “por favor, não solte gás pimenta” – disse, dirigindo-se à polícia. Neste sentido, Igor Kannário denuncia sutilmente, ainda que não de modo calculado, que a “violência” não está alocada apenas no polo mais óbvio, nos “favelados” – como ele próprio diz – mas também permeia como prática integrante do Estado, que monopoliza o direito legítimo de uso da força. Basta perceber como os baianos se defendem uns aos outros, muitas vezes desconhecidos até, quando passa uma horda de policiais no carnaval. Isso acontece porque a prática de violência é predominante na instituição policial, e possivelmente há alguma produção de prazer ao executá-la. Também hoje Saulo comentou, enquanto puxava o Coruja: “Rolando spray de pimenta aqui. Oh, Meu Deus, de novo esse negoço”, e logo teve a transmissão interrompida pela Rede Bahia com seu merchandising. Para mim foi como se Kannário dissesse: eu controlo o impulso dos meus, mas controlem-se os vossos impulsos também, policiais (ou “putas”, para usar o jargão da favela).

Bom, é certo que ACM Neto já entendeu que Kannário é uma via privilegiada de acesso à favela. Por razões outras, de natureza antropológico-afetivas, nutro crescente interesse por Kannário e seus discursos, o que ele sintetiza e provoca. Barril dobrado, pombo sujo, de keké. Em cima do trio elétrico o músico afirmara que “meu sangue é preto, por isso meu corpo é todo tatuado”. Ele, por sua vez, está tatuado no nome – algo de tão próprio – de muitos dos seus seguidores; basta observar que Kannário figura como sobrenome no perfil de facebook de muitos meninos da periferia de Salvador. Na grande alegoria que é o carnaval eles passaram na prova de fogo: mostraram que são capazes, ao lado do Estado da selvageria e da barbárie, de desenhar outro mundo, outro modo de ser possível, no carnaval. Acredito eu que sem se assimilarem – Kannário não se propõe a isso -, reconciliaram-se “na manha” com a “sociedade da paz”, a qual, na sua mais alta hierarquia, tem este sentimento laboriosamente forjado pelos guarda-costas que acompanham os foliões desde a sua hospedagem no final do circuito Barra-Ondina ao Camarote Salvador. A cada paz que se realiza, a cada folia que se performa, um preço a cada.

Esse desfile de Kannário me lembra, enfim, uma imagem muito bonita que uma amiga chamou atenção certa feita: há alguns criadores de pássaros na favela que, no dia-a-dia, levam suas aves para “passear”, como um cão preso à coleira. Então penduram as gaiolas em grandes árvores, em frondosas mangueiras, onde, ali, passa-se um tempo. Quando vejo ACM Neto elogiando a paz que tanto, do alto da sua sacada, lhe agradou, penso em pássaros no cativeiro, um grande viveiro, e Kannário os levando pra passear. Gaiolas, gaiolas por toda parte.

Chamada disponível no perfil oficial de facebook do cantor

Chamada disponível no perfil oficial de facebook do cantor

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Uma resposta to “O equilibrista Kannário e a favela no carnaval”

  1. Lucas Jerzy Portela Says:

    Já não era sem tempo de você voltar a escrever…!

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