Arrastão

Não houve para mim, nesse ou noutros carnavais, experiência mais impactante, bela e ao mesmo tempo tenebrosa (por conta da multidão; as gentes brotavam na avenida feito cogumelos), que acompanhar o Arrastão da quarta-feira de cinzas. Nada pode se aproximar dessa forma tão congregatória de devoção à Bahia via música, da devoção da Bahia pela música.

O Arrastão é um lapso de democracia em meio ao carnaval. Ivete Sangalo parecia se redimir da ironia pouco velada que é cantar com “painho” (sic), de lá do seu 2222, “A novidade” (Ó, mundo tão desigual…), enquanto puxava o tradicional Coruja. O seu vestuário da quarta-feira reifica a (pulsante) amenidade do Arrastão: a impressão que temos é que a cantora acordou e pegou a primeira roupa que viu ao abrir o guarda-roupa. A ausência de fantasias ou abadás atualiza o mito, cada vez menos sustentável, de que, atrás do trio elétrico, somos todos iguais. As cordas que hostilizam desaparecem, as hierarquias sociais parecem momentaneamente dissolvidas. É verdade que uma ou outra pessoa, quase ninguém, usa seu abadá na quarta de cinzas, apenas possivelmente como um modo de diferenciar-se em meio ao povão. Tal prática ilustra o já tão conhecido fato de que o abadá vai muito além de uma questão de mera eficácia formal (adentrar as cordas); ele diferencia, segmenta, crava cortes sociais.

Sei que a aparente ausência de hierarquias do Arrastão assusta alguns. Já ouvi dizer que o Arrastão é um momento em que facções da periferia que possuem rixas (ou “rexas”, para usar o termo nativo) entre si, se dedicam a revidar os seus desajustes. E por isso nos é arriscado estar entre eles, os outros, “o povo”. Ir pro Arrastão, “a pior parte do carnaval”, é insanidade. Por aqui a mistura parece sempre perigosa (meus vizinhos chamam de “pivetes” os negros da periferia para quem abro a minha porta). Mas talvez seja o evento momesco menos trabalhoso para a polícia: não vi uma briga sequer. Definitamente a violência gratuita não foi o entretenimento adotado. Portanto, se o problema é esse, sintam-se à vontade para deixar suas sociabilidades privativas, seus camarotes, blocos, áreas vips, condomínios fechados, enfim, os seus aquários.

O Arrastão é o último suspiro do carnaval, a única oportunidade que o “pipoqueiro” tem de acompanhar Ivete Sangalo sem sentir sua liberdade de trânsito limitada pelas cordas – chamadas singelamente por Daniela Mercury de “cordão humano”. Que eufemismo. Enquanto Daniela é a rainha e Claudinha é a princesa, Ivete é Ivete. O Arrastão se insere na lógica de dom e contradom. Enquanto garantimos a Ivete a manutenção do seu capital social e financeiro (a verdade é que, indiretamente, nós todos a patrocinamos), ela nos devolve com o seu – não menos espontâneo – último suspiro. E nos arranca suspiros. Ivete é povo, mas só no último dia.

O arrastão é extremo. Sob o sol a queimar o juízo, mantido precariamente através de energéticos, pensei diversas vezes em desistir do percurso. Em vão. O espírito carnavalesco se instala no nosso corpo de modo ostensivo. Antes se sofre por antecipação com o fim do carnaval, mas quando passa o Arrastão e nos sentimos felizmente devastados, de certo modo nos consolamos porque tamanha “acabação”, dor e delícia, só acontecerá daqui a um ano. A esse espírito, que é vento e arrastão, alguns preferem entificar, chamando-o, por exemplo, de “caipora” (sim, ouvi esses dias a expressão “a caipora pega”), outros de “pomba suja”. Eu não o nomino, mas tenho plena convicção na sua existência e poder.

Os dois únicos conhecidos que encontrei no evento – um deles fazia a cobertura fotográfica, e o outro estava nas imediações da sua residência (como observador) – me olharam com expressão de estranhamento, de “nossa, o que é que você está fazendo aqui?”. Me senti muito transgressor estando no Barrondina naqueles quase 40 graus com sensação térmica de pelo menos 50. O que eles não sabem é que estar ali não foi algo, bem, voluntarioso. Eu fui de fato arrastado.

Mais uma vez, obrigado, Salvador!

Tags: ,

3 Respostas to “Arrastão”

  1. César Says:

    Interessante, foi muito bem colocado essa resistência em manter distinção social em uma festa popular, mas felizmente esse produto abadá só é vendido na Bahia. Podemos brincar a vontade!

  2. Bruno Says:

    !

  3. Raul Corrêa Says:

    Que inveja!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: