O erro de Cecília

Capitães da Areia foi o primeiro (e único até o momento) romance de Jorge Amado que li, há cerca de dois anos. Desde então, sempre que passo, de ônibus ou a pé, na praia que fica ao lado do Alto da Sereia, ou sento-me no “lado B” do Buracão e vejo aqueles meninos, quase todos negros e quase sempre em bandos, eu penso que são os capitães da areia. Os conheci nas ruas e no mar da Bahia e os reconheci, em toda sua materialidade, na literatura de Jorge Amado. Escrito em 1937, ainda hoje não é nada raro encontrá-los por aí, emanando certa liberdade sensual e empoderada, naquele jeito de andar de quem são “os donos do pedaço”, ou, na linguagem amada, “os verdadeiros donos da cidade” – quem mais a conhece e vive. Foi esse tom e porte imperativo, vivido, que na minha opinião faltou na adaptação da obra para o cinema: uma atuação convincente, a começar por Pedro Bala, o líder do bando, que no ecrã não passa de tentativa. E não me venham justificar que o filme é um projeto social e cultural e que os atores não são “profissionais”, se vejo um Pedro Bala encarnado e sem treino em cada esquina de Salvador.
Por outro lado, trata-se de uma adaptação demasiado apressada. São entrepedaços, cenas recortadas que não chegam a amadurecer e logo se precipitam. Neste sentido, o filme desperdiça uma qualidade intrínseca à obra de Jorge Amado: tocar, tomar o leitor pela emoção, envolvê-lo. Prova desse mal-acabamento é o final, que apresenta os rumos que levaram cada uma das personagens, tal qual no romance, mas que, com exceção de poucos (como Pedro Bala), não tiveram oportunidade de ser nomeados – ter um caráter e trajetória peculiares – ao longo do filme. É realmente uma pena que a obra de Cecília Amado tenha perdido a possibilidade de se enredar e misturar, mediar o imaginário e a experiência de cidade salvadoreana como a literatura de Jorge.
Não deixarei de criticar também a presença despropositada de uma travesti na cena em que Pedro Bala vai para a cadeia. Se valer de uma luta cotidiana, que é a validação do nome social das travestis, para promover um  riso desumanizante (que ainda ecoa naquela sala de cinema do Shopping Barra) de fato me irritou bastante e me faz questionar o limite de certos projetos sociais, que se aliam a determinados grupos enquanto desqualificam outros. Sinceramente, Cecília, os capitães da areia não precisavam disso.
Por fim, além das cenas que põem tônica a cultos religiosos afro-baianos (essas não esterilizam em nada a profundidade da obra amada), outro acerto do filme que gostaria de ressaltar – e esse para mim é o de maior fulgor – foi a trilha sonora de Carlinhos Brown. Com o filme, a maestria de Brown o dispõe definitivamente no rol de intérpretes da Bahia, celebrando, este sim, o centenário do nosso escritor.

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