A presidenta e o “kit gay”

Nesta semana a presidenta Dilma Roussef, aquela a quem costumavam referir-se, como a todo o partido do qual faz parte, como “aliada da causa LGBT” deu um presente para nós: ordenou que fosse suspendido o kit anti-homofobia do Ministério da Educação. Até o momento ninguém ouviu falar em telefonema do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, ou melhor, do nosso adorável Lula, dando as condolências ao presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Toni Reis, por esta apunhalada coletiva. É o que era de se esperar de um amigo, uma vez que Lula fez questão de parabenizar Toni pela oficialização da união com o seu companheiro, num ato simbólico que saudou e comoveu a comunidade LGBT.

Dilma, ela própria vítima da heteronormatividade ao ter sua sexualidade posta em questão diversas vezes durante a campanha de eleição presidencial devido à sua masculinidade feminina (embora esse pareça ser um tabu), deu a alcunha do kit anti-homofobia de “propaganda de opção sexual” – o que de fato faz do kit anti-homofobia um “kit gay”. Será que a presidenta já ouviu falar em marketing social? Ou ela acha mesmo que combate à discriminação seja a mesma coisa que fazer com que o grande público compre a ideia de que estamos vivendo cada vez mais num país de todos?

A atitude leviana da presidenta revela não apenas o descaso com os direitos humanos como também a importância crucial da educação na cultura de um povo. Por isso tanta pressão, do lado de cá e do lado de lá. Aliás não estou certo se seria realmente exagerado afirmar que a diferença, pelo menos até antes desse pronunciamento, entre Bolsonaro e Dilma Roussef é que nós sabemos o lado em que Bolsonaro está.

Ao dizer que sexualidade faz parte da vida privada do indivíduo, Dilma, além de ignorar décadas de movimento feminista (como o próprio movimento, cujo pressuposto é justamente o contrário), também ignora a violência que ceifa as vidas que não importam e reduzem-nas a números que maculam a imagem do Brasil.

Ainda que aleguem que ela foi supostamente ludibriada por fundamentalistas – o que é de um risível amadorismo – o discurso que nos marcou não foi de uma presidenta de uma nação, mas de uma gestora de conchaves.

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