Para cada legislação o seu protesto

Eu ainda não sei se no dia 7 de maio houve propriamente uma “Marcha” da Maconha no Porto. O que vi foram muitas pessoas reunidas em rodinhas a fumar seus baseados nas gramas do Marquês. Todo mundo tranquilinho, como se nem houvesse o que reclamar. E não quero dizer com isso que não aconteceu uma manifestação. Tanto aconteceu que, na padaria por que passei ao chegar, uma funcionária perguntou para a outra o que era “aquilo”, ou seja, qual o propósito da tal aglutinação de pessoas.

Referi-me propositalmente de modo redutor sobre a reunião em rodinhas porque foi a primeira coisa que chamou-me a atenção na Marcha da Maconha à portuguesa. Aqui os coletivos não precisam se reunir na casa de alguém antes da Marcha para fumar. De fato não há nada mais estranho para o maconheiro do que não fumar maconha na Marcha da Maconha, é como ir à Parada Gay e não poder beijar uma pessoa do mesmo sexo, não poder celebrar a diferença. No Brasil, essa privação é condição primordial da realização da Marcha.

A outra diferença é que não escutei cá nenhuma palavra de ordem; o que denota, ao meu ver, uma falta de urgência no protesto. Ora, ainda que tenha uma série de questões a ser reivindicadas, como a legalização em si, Portugal possui uma das legislações de drogas mais avançadas do mundo: aqui ninguém precisa “ficar no saci” quando fuma em local público, ninguém é levado para uma delegacia por que foi pego fumando um baseado. Ninguém “é pego” fumando um baseado.

Em comum com outras lutas por direitos humanos, a Marcha da Maconha reivindica a liberdade, e quando o faz está reivindicando um modo particular de ser. Se em Portugal a exposição da prática de rodas de fumo são a própria manifestação, no Brasil a possibilidade mais evidente de nos manifestarmos é através do discurso: o discurso é a nossa arena. Por isso me parece impossível fazê-lo quando situam a palavra maconha no interdito.

Nada me espantaria se o vídeo abaixo tivesse sido extraído do período ditatorial, mas me entristece muito saber que isso aconteceu ontem. E me entristece mais pensar que nessas horas desaparecem todos os “defensores da democracia”, ou que isso jamais chegará a ser um assunto grave.

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Uma resposta to “Para cada legislação o seu protesto”

  1. Bruno Lopes Says:

    Querido Maycon, maravilhoso o seu texto, já que estamos condicionados por conta da legislação e tantos outros aspectos da nossa formação social, penso que devemos partir para o enfrentamento e exigir mudanças na legislação,aliando a isso no discurso politico as ações de redução de danos já garantidas pelo governo federal,a dirciminalização do usuario etc possibilitando a desconstrução do discurso dominante e hipocrita.

    abraços

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