São tantas já vividas

Não  me cabe aqui aqui discutir as razões pelas quais faltaram a noite (e que noite!) Elas cantam Roberto, cantoras como Rita Lee, com a sua visível inclinação ao “róque tutti frutti”, Gal Costa e sua assinatura (Meu nome é Gal), de composição de Roberto e Erasmo, Maria Bethânia, a primeira dentre os “velhos baianos” (Caio, Gil, Gal e Berré) a curtir a Jovem Guarda, sem falar no seu trabalho As canções que você fez pra mim (1993), show a ser lançado em DVD ainda esse ano pela Biscoito Fino, Marisa Monte, que desde o início da carreira  revela influência do Rei, de quem é mais uma admiradora-confessa, e Simone, que também desde sempre sempre canta o Roberto romântico, o Roberto das declarações, o Roberto dos amores. Quer dizer, todas elas cortadas em suas singulares trajetórias artísticas pela obra de RC.

Numa dessas noites da nossa casa, o Recanto Vera Varandas, discutíamos eu e Marcelo sobre o quê de enigmático que paira, que ronda a figura do Rei, e talvez seja mesmo por isso que, ainda que com um obstinado apelo midiático, há algo em Roberto, como naturalmente em todo ser, que resiste à mais humana vontade de saber sobre, de dissolver mistérios. Como disse um/a autor/a cujo nome não me lembro, o artista e a sua peculiar (e estampada) excentricidade poderia então ser considerado um protótipo da noção moderna de indivíduo.

Pois bem, para o meu pouco imprevisível desgosto, as interpretações de Mart’nália (um curioso sambar Roberto Carlos?), Adriana Calcanhotto e Marina foram cortadas pela edição do programa que foi ao ar, ficando obscurecidas até que seja lançado o DVD da noite. Junto a elas, a contragosto do Rei, Celine Imberte, Rosemary e a eterna jovem Paula Toller, que, indignada, escreveu no seu blog que “estava muito triste e frustrada, principalmente por não ter recebido nenhuma explicação ou sequer um pedido de desculpas da direção do programa”. Ora, em contrapartida, Ivete Sangalo abriu e fechou a “cerimônia”, com direito ao assédio da câmera à gestação que vingou.

Mas para mim, passando pela melada superafinação da Sandy, a nossa debutante, pelo descomedido arrastar de voz da Ana Carolina, pela queridinha-do-Brasil Claudia Leitte, sem contar com o misto de delírio esquizofrênico e incorporação de uma bruxa de qualquer musical infantil da Marília Pêra, Elas cantam Roberto já valeu pelo Desabafo da Fafá de Belém, que, com toda a força que possa esse verbo carregar, arrasou. Já Sua estupidez, depois da arrebatadora interpretação de Gal Costa no seu manifesto Fa-Tal (Gal a todo vapor, 1971), pertencia no mínimo a uma Marrom, e à sua emblemática embriaguez de dama na fossa. Nana Caymmi, em interpretação igualmente antológica, fez de Não se esqueça de mim uma súplica-canção, uma espécie de último suspiro, ou de redenção.

Fafá esbanja bom-humor

Fafá esbanja bom-humor

O fim da noite, como não haveria de ser diferente, ficou por conta de Como é grande o meu amor por você — o seu romantismo mais universal — quando, em número coletivo, para “lambança” generalizada, o Rei reuniu entre si (e só para si) todas aquelas mulheres. Melhor que isso, só perceber como, além de ter marcado a obra do Rei com o que cada uma delas possui de idiossincrático, estavam todas de algum modo à vontade, vide Fafá de Belém com as suas inadvertidas gargalhadas. No fim das contas, noites como essas só reafirmam uma antiga predileção: o Brasil é das intérpretes.

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Uma resposta to “São tantas já vividas”

  1. Antonio Caldas Says:

    Querido Maycon, eu não sei o que se passa pela sua cabeça de estar escrevendo essas coisas, e não aquel´outras dantes escritas deslindando poesia e subjetivismo.

    I think UFBA has got you! Hasn´t it?

    Bom. Eu basicamente cresci ouvindo Roberto Carlos, com seus lançamentos em vinil de Roberto Canta Para a Juventude, e Roberto em Ritmo de Aventura, Sam Remo, dentre outros.

    Para Roberto os tempos foram mudando e parece que ele perdeu há muito a musicalidade e adentrou no revival do capitalismo fonográfico e não mais parindo faixas atemporais como Hoje eu Ouço as Canções Que Você Fez Para Mim, Lady Laura e tantas outras…

    Coincidentemente, neste último final de semana compilei um cd completo com as minhas preferidas do Roberto, o que me trouxe uma plácida e nostálgica felicidade – daí agora venho aqui e você escreveu sobre o Roberto.

    Abraços fraternos e sucesso!

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