Bethânia e Ivete fizeram

O pouco (ou nada) modo com que conduzo a vida jamais me permitira fazer parte da turma dos que desconfiavam de que Ivete Sangalo chegaria mesmo longe. Felizmente, não tão longe ao ponto de não podermos escutá-la. É por isso que não omitirei aqui o fato que vem à tona: a debochada filha de Juazeiro acertou na musicalidade.

No estúdio da sua “modesta” cobertura no Campo Grande, qual não foi a minha surpresa ao ver que ela — veja bem, Ela — a própria Abelha Rainha, fez derramar, entoar o seu mel, e se permitiu objeto de prazer, glória e declarada devoção (ou “rasgação de seda”) por parte da “Veveta”.

Num trabalho que reúne nomes com tão poucas familiaridades entre si, tais quais Lulu Santos, Mônica Salmaso, Carlinhos Brown, Marcelo Camelo, e, como se não bastasse, o grupo Aviões do Forró, não tenho dúvida de que a grande estrela, depois da endiabrada anfitriã,  chama-se ninguém menos, ninguém mais que: Maria Bethânia.

A sua atual aparição, evidentemente, nada tem da sisudez de um Cárcara, porta-bandeira do seu terrível pouso no Teatro Opinião em 65. Ao contrário, Bethânia me chega com o seu jeito particularmente sereno e com certo tom de despojamento e delícia — tão à vontade, aliás, quanto se mostra a sua inédita — e demasiado versátil — parceira musical.

Axé Odô!

Axé Odô!

Embora Bethânia houvesse declarado, na sua antológica — e também por isso — polêmica entrevista à Revista Playboy em novembro de 96, que não apreciava, ou melhor (para ser fiel às palavras da Berré), que não suportava a Axé Music, mas canta (versão dispoível no 4shared) de forma muito bonita, no show As Canções que você fez pra mim (1994), a música Adeus bye bye, gravação da Banda Eva no início na década de 90, quando o que na verdade ela dizia era um olá ao Axé, ao que veio dar na Axé Music. Ao fim de Adeus bye bye, Bethânia solta um “Salve, Ivete Sangalo!”. Muito obrigado, Axé não por acaso é de Carlinhos Brown, cuja melhor definição do músico, instrumentista, compositor e mais uma série de atributos, não haveria como a descrição da comunidade do orkut homônima, em homenagem ao Brown, que completa 30 anos de carreira, com um relevante e sempre renovador lugar na história da música baiana, quer dizer, pós-baiana. No show Âmbar (1996) Bethânia cantou Queixabeira, que é a sua cara também, e composta por Brown.

Na mesma entrevista a Playboy, Bethânia diz que Daniela Mercury tem talento, mas uma “musiquinha que não é nada”. Na Lavagem da Nossa Senhora da Purificação, já em 2007, as duas dividem o palco na terra dos Veloso, onde declarar-se gostar do trabalho da Daniela (ou mesmo se da Ivete) não signifique uma filiação à Axé Music. Aliás, que filiação? Bethânia não filia-se a nada, é bom lembrar que nem mesmo à Tropicália ela vinculou-se. Sei que, ainda assim, vale o agradecimento de Ivete Sangalo ao Axé, na verdade, sendo ou não povo de santo, foi gostoso apreciar a (que eu lembre) primeira  gravação sua que remete tão explicitamente ao candomblé. As próximas vozes que se encontrarão com Bethânia serão a Mercury e a Margareth Menezes, que gravarão juntinhas a canção Oyá por nós, também ref/reverenciando um orixá — no caso, a Senhora dos Raios e Ventos.

Pelo visto, só faltava o convite, a presença, o encontro: Bethânia está para o axé assim como Caetano está para o pagode baiano? Resta-nos saber se.

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