“Ser marginal foi uma decisão poética”¹

Brasil pós-ditadura, línguas inibidas e ressaqueadas da censura: sua rouquidão e afetação oitentista gritava um blues metido a rock e contestava o simulacro da moralidade daquele grupo social — embora morasse numa cobertura em Ipanema, Cazuza não comungava de certos valores burgueses.
Levando às últimas consequências a máxima “Seja marginal, seja herói” (do Hélio Oiticica, que influenciou sobremaneira a estética tropicalista), Cazuza incorporou dimensões poético-políticas na sua arte, e ressignificou, com os ânimos da sua geração, o processo de visibilidade ao já maltratado trinômio “sexo, drogas e rock’n’roll“, que, no fim da década de 80, vê a cara da morte, estando ela viva.

"Hoje eu acordei com medo, mas não chorei"

Na edição de 29 de abril de 1989, a Revista Veja publica uma ultrajante capa com uma fotografia demasiado abatida do rosto de Cazuza e a manchete-espetáculo “uma vítima da Aids agoniza em praça pública”, com todo o peso da severa (e injusta) demanda de servir de exemplo, ou precisamente aquele exemplo que não deve ser seguido; aliando o hedonismo à doença, o prazer que “agora é risco de vida”, e apresentando “a AIDS como um efeito necessário ao excesso sexual” (WEEKS, 1999), além de vieses como a própria sexualidade do cantor e compositor e do seu uso de substâncias psicoativas, vide a antiquada denominação “grupos de risco”.
Com uma série de recrutamentos exercidos pela mídia, Cazuza foi uma das primeiras pessoas públicas a assumir-se soropositivo, e tornou-se de fato marco no que conhecemos como “crise da AIDS”, a começar pela própria produção artística após a descoberta da doença, na que desabafa, numa época em que pouco se sabia em relação ao vírus HIV, a angústia desencadeada pela ameaça da morte, porém refletindo não a enfermidade, mas a vida (“… louca, vida”), como a força motora do poeta desembaraçado.

¹Artigo encomendado devido ao 1º de Dezembro, Dia Mundial de Combate à AIDS.

Referência bibliográfica:

WEEKS, Jeffrey. O corpo e a sexualidade. In: LOURO, Guacira Lopes (org.). O Corpo Educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

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