O ciúme é muito pior

O ciúme é muito pior. Era assim intitulada a mensagem que dizia que “ciume de viado é muito pior do que de homem com mulher e mulher com homem viu . se cuida gays . o amor de voçes . levam a morte. que coisa terrivél. um homem amar tanto outro ao ponto de matar . que horror . que cena macabra marido mata marido . triste demais. se cuidem viu . toma cuidado com este amor de voçes ai caras .tanto homens como mulher” (comentário extraído de http://www.aratuonline.com.br/noticia/16384.html).

O/a autor/a — com licença, fidelidade à vulgar expressão dos noticiários policiais — que prefere não identificar-se, fora taxativo/a: “o amor de vocês leva à morte”. Não hesito ao afirmar que encerra nessa oração uma genuína advertência às comunidades LGBTs, que, além de experimentar a vulnerabilidade social e, assim, o risco de ser vítima de crimes motivados pela homofobia, deve cuidar-se, ou precisamente evitar o “estar amante”, a fim de não tornar-se (também) vítima de um amor específico, que perde o eminentemente encanto da construção social desse sentimento, e passa a oferecer perigo, sobretudo ao ser amado.

Nada obstante, no que se refere às manchetes policiais envolvendo homossexuais, a grande mídia as veicula de modo a enfatizar na sua enunciação a sexualidade dos/as atores/atrizes, de modo a reificar (não posso afirmar que foi a mídia que fundou tal estigma, embora em parte desconfie) o imaginário de que o amor entre nós é pernicioso. Assim, lemos “Homossexual acusado de matar ex-namorado de companheiro é preso” (G.N.), e não simplesmente “Acusado de matar ex-namorado de companheiro é preso”. Me parece ainda que a palavra “homossexual” na construção em vidência poderia ser tranquilamente substituída por “comerciante”, ou qualquer que fosse a profissão exercida pelo sujeito.  Percebemos, então, a centralidade que a sexualidade ganhou ao longo do século XX, e como o dispositivo heteronormativo é devidamente acionado, vigiando e punindo — nesse caso, literalmente, como uma sanção, protagonizada pela mídia, por duas infrações: a de matar (quiçá em segundo plano) e a de ser homossexual. 
As mitificações, como turvos olhares sobre o Outro, a respeito deste ser, o/a homossexual, são muitas e por vezes ambíguas ou mesmo contraditórias. A um só tempo, a sociedade, que desconfia da nossa promiscuidade e reivindica-nos a monogamia, acredita sermos grupos de risco (também) para o crime passional. Ambas as suposições nos aproxima da esfera mais, por assim dizer, instintiva, do impulso, tanto sexual, quanto afetivo, das emoções tão desmedidas que incontroláveis. Desregulados, desreguladas.
Como disse um velho amigo, eu bem que queria saber amar assim, perdidamente.  

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Uma resposta to “O ciúme é muito pior”

  1. Lucas Jerzy Portela Says:

    Mas talvez seja mesmo, só que por um motivo de economia psíquica dentro da matemática da fantasia. Isto é: se o ciume é sempre da ordem da fantasia de origem (edípica), o ciúme dos homossexuais se dá em curto circuito. O ciume, digamos, normal, se dá pelo retorno do recalcado da homossexualidade em sujeitos heterossexuais: temo que minha mulher deseje outro homem porque eu próprio posso desejar este homem, só que não desejo.

    Entre os homossexuais a gramática do ciúme não se dá na hipótese, mas na certeza: temo que meu homem deseje outro homem porque eu proprio desejo, de fato. É muito mais espontaneamente próximo do ciume paranoico (e dos alcoolistas). Claro que se pode manejar isso dentro de uma sintaxe propriamente heterossexual (a rigor, só há amor heterossexual porque só há amor afirmando-se a castração). Mas está longe de ser trivial, é quase impossível para o sujeito não-analisado (aka: neurótico), e mais ainda se este sujeito tem pouco lastro semiológico (cultura erudita mesmo) para manejar isso.

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