Me chamam senhora, ou relatos do estar sendo no Atlântico

Não que eu não fosse (lido como) gay em Portugal, ou não que lá inexista homofobia – eu mesmo cheguei a narrar aqui um caso lá me sucedido. Mas me chocou um pouco quando, recém-chegado na “terrinha”, senti minha presença passar despercebida em meus primeiros dias naquele país. Como se tudo ali estivesse nos conformes: eu, supostamente com um pinto entre as pernas (sim, o mantenho), e com postura de macho. Não, né? Mas o modo de se vestir daqueles meninos – que, pelo comportamento masculinizado, até que hajam outras “evidências”, eram socialmente lidos como héteros (quer dizer, eles sequer “apareciam”, pois estavam afinadinhos com a norma) – não destoava muito do estilo que ali eu incorporava (por exemplo, eu não usava batas em Portugal) ou do que já era incorporado por alguns gays no Brasil. Até meados de 2010, período em que viajei, pelo menos na Bahia era ainda coisa de viado menino vestir-se com calça justa. Lá não. Não posso negar que (não só) isso dificultou o meu trabalho: tardei a compreender quem era ou não gay em Portugal, e estou certo de que, ainda que excessões bastante localizadas possam contestar, um ano não foi suficiente para isso. Quando os gringos (em geral europeus) cá chegam, é sempre difícil entender de cara se eles curtem ou não. E não estou aqui dizendo que o contrário seja fatidicamente um “empecilho” – pode inclusive não ser. Certa feita brinquei ao ver um suposto estrangeiro na praia; perguntei ao colega que estava comigo: “peraê, ele é gay ou é gringo?”. Enfim, fato é que, tamanho foi o inicial estranhamento de não ser estranhado naquelas paragens, que senti mesmo saudade de ser identificado como gay, de receber aquele olhar sagaz de quem já entendeu qual é a sua. Ali, a ausência de laços (na condição de estrangeiro, quando à primeira vista nem mesmo como “estrangeiro” eu era identificado), integrou-se ao manifesto desconhecimento social da minha identidade gay. E perceba que não estou falando meramente em identidade “sexual”, e sim em existência. O mais engraçado, relacionando isso com a masculinidade dos jovens europeus de um modo geral (aqui grosseiramente tratando-a como se fosse apenas uma; excluindo, por exemplo, a performance de alguns gajos que vivem em freguesias ciganas), é que, caso estivessem no Brasil – observação compartilhada com outros amigos brasileiros que lá viveram – a maioria deles seriam aqui lidos como gays. Falo especialmente em vestimenta e gestual.
Para lembrar ainda da minha experiência como gay em Portugal – sem nem saber ao certo o que me motivou a falar sobre isso – conheci muitos portugueses enrustidos. Não é que eu não conheça brasileiros enrustidos, mas para mim foi especialmente chocante estar com um estudante de comunicação (sim, comunicação) e ele não querer admitir nem mesmo ser por mim cumprimentado na universidade – a fim, obviamente, de não levantar suspeita. Àquela altura eu já estava mais ou menos certo de que seria gay em qualquer lugar. Como disse um amigo, a minha voz denuncia; deve ser isso – embora eu aposte que não seja isso. Por falar em voz, à procura de apartamento esses dias, eu falava por telefone com um corretor de imóveis. Desde o primeiro momento ele se referia a mim como senhora; “porque a senhora isto”, “a senhora aquilo”, até que certa hora decidi, só de deboche, desconcertá-lo. Sim, pura provocação. Tantas vezes, por preguiça ou desdém, jamais “reenquadrei” o meu gênero por telefone. Pois bem, o interrompi: “eu sou homem [será?], me chamo Maycon”. Ele não evitou um riso, e, com aquela voz de senhor dublador de filmes da sessão da tarde, respondeu “oh, senhor, me perdoe”. O perdoei. O engraçado é que num dado momento, assim de repente, ele voltou a referir-se a mim como senhora. Senhora senhora senhora, até que, também sem ter nem pra quê, começou a alternar entre senhor e senhora. E eu nada fiz. É certo que minha voz o embaralhou, mas devo tê-lo embaralhado muito mais quando, ao fim da ligação, ele me pediu desculpas pelo “equívoco”, e eu disse, sinceramente, “que bobagem”. Dois ou três dias depois, lá vou eu ligá-lo novamente. Como nos falamos apenas uma vez e ele deve receber tantas ligações diariamente, procurei situá-lo ao meu respeito, a fim de que ele se lembrasse de mim. Mas fui interrompido: nos falamos apenas uma vez e bastou. Sem esconder o sarcasmo que parece tão bem afinado com a sua voz, disse, acompanhado de um risinho: “sua voz é inconfundível”. Do outro lado, ao desligar o telefone, ri muito com um amigo. Certos episodios são assim: piadas prontas. Já respondi também com sorriso quando, em consultório médico, a secretária me tratou como senhora. O detalhe é que ela estava muitíssimo constrangida, e a princípio não entendi bem o porquê, uma vez que quem supostamente deveria ficar constrangido era eu. O gênero é mesmo levado com uma gravidade abissal. Por ter ciência que sua “desatenção” tem uma razão de ser, o meu papel ali era de amenizá-la a aflição, assegurá-la de que encaro o gênero de outra maneira. No fim como uma coisa que não me pertence, afinal de contas é você quem vai dizer, melamor. É mais ou menos como aquela composição de Lazzo e Jorge Portugal: “minha pele é a linguagem/ e a leitura é toda sua”. Venho assim respondendo com bom humor a esses embaraços sociais. Mas é claro que não foi sempre assim; já engrossei muito a voz pra não ser confundido com mulher, e não vou mentir que até hoje o faço em algumas ocasiões bem específicas. As travestis também fazem – somos todas irmãs, eu você e mais um monte fazendo gênero – ê troço que dá trabalho. Não preciso dizer que na maior parte do tempo vivo por aí gozando da confusão, que às vezes ganho mesmo o dia com algumas coisas que me acontecem, como um “toma jeito, novinha!” que escutei essa semana, e que retruquei com um “Jeito?! Cê não acha que já sou jeitoso demais?”. O humor desbanca o homofóbico, faz ele passar batido com a agressão não cumprida. Estou cansado de, em banheiros de bares, restaurantes e afins, o rapaz ir entrando, olhar para mim e dar meia volta, achando se tratar de uma mulher. Com singeleza, prendo um sorriso. Ou solto – fui chamado de “borboletinha azul” por Seu Ogum de Ronda. Também pode acontecer de eu ir entrando no banheiro masculino, e alguém me interromper o percurso, querendo me dizer que estou entrando na porta errada. E se eu estiver? A única vez que não me diverti especialmente com o equívoco alheio, foi quando um jovem, que julgou-me gay – provavelmente porque era bonito e o olhei mesmo – disse que o banheiro era Masculino, mas não “inocentemente” ou por engano, e sim com visível intenção de me desqualificar (quando eram eles que se sentiriam desqualificados). Pacientemente, o esperei mijar. Mija, neguinho. Quando então ele foi lavar suas mãozinhas, também fui eu minhas lavar, numa pia lado a lado da sua. Olhei para ele e, ritmado, lhe cantei aqueles versos do Caetano: “masculino, feminino e plural” (da música “Falou, amizade”). Ele corou de vergonha, jamais esperava qualquer reação.

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Por Tu, Gal. Rua da Constituição, cidade do Porto. O muro estava já estava grafitado. Uma semana depois, cobriram de branco as bichas do norte. Em Portugal elas usam véu. Eu não.

Mas voltando aos portugueses (ah, como eu adoro os portugueses), ao contar a um amigo paraguaio que um tuga havia me beijado antes de tomar o táxi de volta à casa, jocosamente ele perguntou: “peraê, ele era português mesmo?”. Essa – e aqui quero brincar com as palavras – “aparente invisibilidade” dos LGBT em Portugal lembra-me também de uma conversa que tive com um amigo (hétero) português sobre os terríveis assassinatos motivados por homofobia que acontecem no Brasil. Comparando com a realidade de Portugal, chegamos a uma conclusão: que lá a situação é diferente não apenas pelo fato de que, por diversas razões, a sociedade portuguesa não é violenta, como são as brasileira e americana, mas também porque os gays em Portugal não dão tanto na vista. É claro que, nas afirmações excessivamente genéricas que faço, me baseio na minha breve experiência naquele país. Não quero aqui também reduzir a complexidade em que se constituem as agressões homofóbicas na simples fórmula “visibilidade X reação”, mas acredito que devamos, sim, levá em conta de algum modo. Muitas vezes me perguntei se seria por isso que uma sociedade tão católica como a portuguesa (sobretudo na sua porção menos laica – a região Norte) tenha “admitido” o casamento homossexual. União civil gay? Jóia, mas onde mesmo estão os gays? Eles podem casar, até porque já não nos importunam, e assim quem sabe façam ainda menos barulho. A “invisibilidade” LGBT em Portugal, ou pelo menos no Norte, onde vivi, às vezes me parecia tão grande que, desculpa, vivemos numa mesma casa; como assim você não sabe que eu sou gay? Ah, você jura que faço a linha discreta? Pois bem, quando eu estava para me mudar, fui avisar à senhoria, dona da casa onde eu morava, que eu “estava namorando e decidimos viver juntos”. De pronto ela disse: “Ah, ié, então vais morar com ela?”. Simulando constrangimento, respondi: “É; com ele, na verdade”. Passada, ela disse “Ah… ele?”. Dias depois eu soube, através de um amigo que lá também morava, que ela realmente não sabia que eu era gay, que achava apenas que eu tinha medo de mulher. O detalhe é que ela sempre fazia as piadas mais machistas comigo, do tipo “vais botar uma gaja na mesa”, e eu e meu amigo hétero, como gostava de a ele referir-me (por deboche, deslocando a diferença), jurávamos que essas anedotas ironizavam deliberadamente a minha sexualidade. Ele ria muito com o meu constrangimento, mas não recebeu de bom grado as queixas da senhoria por ele ter omitido a espécie a qual pertenço. A senhoria é assim como a minha família, que segundo um primo não vê nenhum problema no fato de eu ser viado, mas que afinal eu preciso dizer que sou viado. Localizar-me, enjaular-me. Já o senhorio – este sim, um sábio – que mês a mês recebia a edição da revista que eu tinha assinatura, curiosamente endereçada à “Senhora Maycon”, disse que “aquele ali [eu] nunca me enganou”. Como se eu quisesse enganá-lo. Mas ora, veja, logo eu, da malta do desbunde, que gosta de mostrar pra que veio. E mostro.
Depois de um ano exilado, ao chegar na Cidade da Bahia e antes de ir para Feira, minha terra natal, peço que meus pais dêem uma paradinha no Acarajé da Cira. Prestes a atravessar a rua, um carro cheio de rapazes para, e eles todos começam a gritar para mim um “ei, mamãe”, enquanto que, com os lábios, mandavam-me beijos (que eu recebia sorrindo e movimentando a cabeça para um lado e para o outro, como quem diz “mas vocês… não têm jeito”. É óbvio, o jeitoso sou eu. Ali, antes até que o meu paladar, tive uma plena e feliz certeza: eu estava de volta à Boa Terra. E é assim que eu gosto dela. De mamãe à novinha, rolando até um amorzinho.
E se isso pra você é homofobia…

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6 Respostas to “Me chamam senhora, ou relatos do estar sendo no Atlântico”

  1. Lucas Jerzy Portela Says:

    “peraê, ele é gay ou é gringo?” – Sêo Maico, se o “colega” em questão era eu, retire o termo “colega”. Use conhecido ou amigo. Como dizia meu velho pai, colega quem tem é viado e puta. E eu não sou nem uma cousa nem oitra.

    (queer um cacete, eu sou proustiano: gosto da heráldica masculina do século XIX. Ao contrário do que os queer dizem, sexo que inventou e enalteceu o dar o cu como prova de amor. Quem leu Madame Bovary sabe disso. Teoria queer não é mais que aletria sofisticada).

  2. Brazil/Portugal: Homophobia and the Apparent Invisibility of LGBT · Global Voices Says:

    […] the blog No que tange, Maycon Lopes shares [pt] his experiences of being a homosexual in Brazil, where homophobia “motivates terrible […]

  3. Βραζιλία/Πορτογαλία: Ομοφοβία και η “φανερή αφάνεια” των ΛΟΑΤ · Global Voices στα Ελληνικά Says:

    […] blog No que tange, ο Maycon Lopes μοιράζεται [pt] την εμπειρία του ως ομοφυλόφιλος στη Βραζιλία, όπου […]

  4. Fabrício Says:

    Texto muito bem escrito e as observações realmente mt interessantes. Já estive um tempo na Espanha e tive mt dificuldade pra identificar quem seria gay ou não. A diferença de vestimenta é quase zero. O contrário do Brasil.

  5. Nuno Says:

    O seu blog é um mimo, Maycon! Poesia líquida em forma de adje(c)tivo. Gostaria muito que escrevesse um pouco mais sobre Portugal e sobre o Porto, zona metropolitana onde nasci e cresci. (Sou de Gaia, mais precisamente…)

    Duas coisinhas sobre a terrinha de onde fugi, como todo o bom tuga transformado em emigrante. 1 – Portugal é velho, diria senil. Näo esteja à espera da exuberância e do élan vital de um país novo e turbulento como o Brasil ou os Estados Unidos. Tudo em Portugal é sedimentado, camadas e camadas de história e cadáveres. Nada vem totalmente ao de cima – somos um país de sombras e murmúrios, ancorado na densidade da nossa exaurida memória. Näo se trata apenas de vergonha do sexo e do corpo – embora haja bastante! 2 – Somos universalistas, näo somos comunitaristas. Monolingues, monoreligiosos, monoraciais, monoculturais. A cidadania filtrada, expelida e ampliada pelo Estado centralista é a única forma de acedermos à legalidade – delírios federalistas/regionalistas näo säo bem vistos em Portugal. Näo säo apenas as bixas que seguem a linha e marcam o passo – Portugal näo é um país de excêntricos, é um território para mainstreamers com sonhos do tamanho do seu quintal. Näo seja diferente, isso arrelia a gente!

    Daí o assimilacionismo. É um choque para qualquer tuga – se é para mim, ainda mais para os heteros – que no espaco de duas décadas – ninguém falava em sexo de qualquer cor e feitio nos anos 80, acredite, eu era crianca nessa altura – Portugal tenha criado leis de casamento, ado(p)cäo e anti-discriminacäo mais rapidamente do que muitos outros países ricos europeus com longas décadas de protesto e luta pela(s) causa(s). Incluindo até mudancas constitucionais! (A nossa constituicäo é um quadro impressionista em ecrä LCD que vai mudando de acordo com a temperatura da galeria…)

    Imagino o choque que deve ter sentido ao chegar à terrinha! A misantropia disfarcada de solidariedade, o medo mascarado de vituperacäo reivindicativa ou simplesmente mesquinha, a resignacäo que esconde a preguica… e a vergonha! ;)

    Näo pense muito mal de nós. Qualquer país velho, rabugento e doente crónico merece a nossa compaixäo.

    Perdoe os umlauts e a falta de cedilhas. O teclado da geringonca näo fala tuga e chateia-se comigo sempre que näo entende o que eu escrevo…

    (Espero mais posts sobre Portugal, esse jardim à beira mar plantado – rente ao vertiginoso abismo para onde nunca cai…)

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