Tesão por policial e os rolezinhos nossos de cada dia

janeiro 27, 2014
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Era uma sexta-feira qualquer e, como é de lei neste dia da semana, jovens pretos do Nordeste desceram para curtir uma sexta sem lei. Sem lei? Talvez. O Nordeste de Amaralina, como me explica um sujeito etnográfico, é um complexo de quatro bairros: Santa Cruz, Vale (das Pedrinhas), Chapada (do Rio Vermelho) e o Nordeste em si. Não obstante junta-se ao bando jovens de outras comunidades circunvizinhas, como o Alto de Ondina. Às vezes calha de estarem misturados a moradores do próprio Rio Vermelho e de outros bairros classemedianos da cidade. Mas isso quando, pelo menos, há uma convocatória pelo Facebook capaz de agregá-los. Entretanto, não se tratava ali, nesta sexta-feira que evoco, de uma festa mestiça, o que a fadava inevitavelmente ao fracasso; ali onde a mestiçagem poderia simbolizar a redenção.
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“De keké”, caminhando meio sem destino naquela noite, observei a movimentação do Mercado do Peixe, muito embora – importante ressalva – do lado oposto aos bares, o que já poderia ultrajar os jovens como maus consumidores, presenças não tão benquistas, ao menos pelos proprietários dos estabelecimentos comerciais. Foi ali onde, antes de juntar-me aos “meus” no Largo da Dinha, decidi parar: rápida etnografia para consumo próprio. Eis que a primeira cena que vejo é da Polícia Militar abordando alguns rapazes, sob as despropositadas luzes azuis e vermelhas que teimam a alardear-nos os olhos.
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Eu não sei porque cargas d’água, decidi deliberadamente provocar a Polícia, como um dia em que você não está disposto a “deixar passar”, sobretudo se se trata de cenas clichês em que você se sente coagido a curvar-se como um espectador que não intervém. Mas é que sou da geração cam4, baby, gosto de participar do espetáculo. Então tirei do bolso meu celular e acionei o flash, que geralmente desligo para libertar minhas centenas de cliques da censura alheia. Feito isso, mirei em direção à cena, do mesmo modo que, antes mesmo de descer do carro, a Polícia aponta para meninos de dez anos de idade voltando pra casa depois de uma manhã de domingo na praia (observem no tamanho do terceiro garoto – à direita – da foto). A diferença é que a minha arma não era de fogo, mas tão-somente a informação. Para a Polícia, para quem aquela atividade poderia ser apenas mais uma entre as tantas de uma enfadonha rotina laboral, a entrada do meu flash em cena pode ter livrado aquela abordagem do conforto do hábito. Perguntar-se-ia porque esse rapaz está nos fotografando, o que ele teria visto de incomum, ou de… repreensível.
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Falei em meu celular investido de uma câmara sob a alcunha de arma pois se não o fosse o flash que ele irradiava seria subestimado, e porque, caso não vivesse, felizmente, em um tempo em que cada vez mais essa corporação fosse alvo de escrutínio crítico, a Polícia bem poderia se prestar a um exibicionismo sem vergonha, breve e indolor. Na chapa. Uma policial então me viu (os dois ou três policiais que abordavam os jovens estavam de costas para mim), e se deparou com um menino branco, de bata branca e de óculos de aro grosso. Provavelmente deve ter se perguntado primeiramente o que eu, como único branco no ambiente, estava fazendo ali, depois o que eu tinha a ver com os jovens abordados – talvez tal questão pode ter rondado a mente e mesmo a conversa daquele grupo durante parte da noite, ou talvez ela tenha sido simplesmente abortada, quiçá respondida de modo fácil e prático. Como se o próprio flash não denunciasse a minha petulância, ela denunciou a intromissão para seu comparsa de milícia: “Ele está fazendo foto”, como se o interpelasse a agir. Foi tudo tão rápido (essa narrativa está muito aquém do incidente e da minha taquicardia) que nem me lembro se o policial interrompeu a abordagem ou a concluiu, mas sei que ele veio em minha direção com toda sua fúria policialesca: “Quem lhe autorizou a fazer essa foto? Apague essa foto, vamos!”. Eu disse, com toda a sinceridade e cinismo e desdém do mundo: “Não sei apagar, realmente. Você quer tentar?”, quase sorrindo de lado, mas visivelmente intimidado. Ele tomou o aparelho da minha mão, e foi passando de um a um colega para ver afinal quem conseguia apagar aquela maldita foto; que não deveria, pois, ser reproduzida. Mas nenhum deles, qual o dono do aparelho, estava habilitado para isso, e eu a trago aqui como se fosse uma grande novidade, o último furo jornalístico da Bahia.
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Então este mesmo policial que se encarregou de mim pergunta: “Você sente tesão por policial, é?”. Só faltou o “viadinho” no final da pergunta. Para ele devia ser bastante plausível que eu fosse mais um desses que tem fetiche por fardados. Não é que ele esteja totalmente errado no que insinuou, mas, em geral, a Polícia em particular mais me desperta asco que tesão. Aliás, soube recentemente que há uma expressão ou palavra francesa que remete à terrível sensação de só depois do lance levado a cabo você encontrar a melhor resposta a oferecer; uma resposta dormida. Eu lhe deveria ter dito: “Sinto tesão por alguns, por você não”. Mas que diabos tinha a ver minha sexualidade com aquela situação? Tudo? Certamente, chamar-me de viado me desautorizava moralmente a criticar sua prática. E foi mais ou menos por aí que ele resolveu proceder seus ataques. Feita a pergunta, ainda mais irritado com a minha intimidação forjada em arrogância (que, em verdade, era alimentada por uma segurança acerca da minha superioridade moral perto daqueles policiais), ele deu a voz: “Abra as pernas, vamos!”. Abri. “Abra as pernas!”; abri um pouquinho mais. Ainda não contente, ele vociferou mais uma vez: “Abra as pernas!”. Oi? Então ele queria que eu escalasse, só pode. Sim, pois nunca vi ninguém elasticizar tanto as pernas quanto ele gostaria que eu fizesse numa abordagem. Depois de passar as mãos pelo meu corpo, talvez pelo meu cu mas com certeza não pelo pau, ele ordenou que eu tirasse tudo que eu tinha dos bolsos. Depois mandou que eu tirasse os próprios bolsos pra fora. Ele estava tudo menos convicto de que encontraria algo ilegal comigo. E depois ele pediu que eu tirasse ainda mais, e daí, impaciente, foi a minha vez de falar: “É pra eu tirar a roupa também?”.
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Convicto de que ele havia me agredido e revidado à altura minha tamanha ousadia (minha ostensiva sobriedade não podia provocá-lo qualquer desconfiança), ele deixou-me em paz. Parcialmente. Estava com o meu coração saindo pela boca, mal conseguia acender um cigarro, que eu nem fumo, de tão trêmula que estava a minha mão. Ainda assim, fiz questão de manter inicialmente meu olhar vigoroso e bravo, que não cessou de desafiá-los, e contra o qual eles já nada podiam fazer, em sua direção. Depois disso, um rapaz que me pediu um cigarro (eu o havia conhecido na praia no dia anterior) disse para o amigo: “Bó, bó. Bó ganhar!”. E eu perguntei a razão deles irem embora. E eles apenas disseram o que lhes era óbvio: “A Polícia aqui, rapaz”.
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Claro. Ainda que eles não estejam fazendo nada que possa ser enquadrado na clandestinidade, a presença da Polícia naquele ambiente basta para intimidá-los. Já vi cenas em “calouradas” (batizado com esse nome, o evento já não mantém ligação genealógica com estudantes do ensino superior) da Polícia revistar dezenas de pessoas compulsoriamente, de modo que todas as outras se ia afastando, pois, caso optassem por ali permanecer, seriam as próximas, e é certo que não gostariam de submeter-se a tal constrangimento (agressão). A Polícia é responsável pela dispersão dos bandos nestas sextas-feiras, que, coagidos e não sem razão, cumprem exatamente o que está prescrito no recôndito regulamento: partem em retirada. E a Polícia o faz de modo sutilíssimo (é?), pois que não os expulsa, “apenas” os aborda. Aquilo ali não é um rolezinho, não é um evento convocado pelo Facebook e nem é excepcional: aquele rolê e sua dissolução integra a rotina de todos esses jovens que, indóceis, se aventuram a descer.
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Enquanto eu definhava na minha impossibilidade de superar esse indigesto episódio, sentei-me no banco entre dois jovens e, naquele momento, tão entre eles quanto totalmente ensimesmado, senti-me, ainda assim, silenciosa e ligeiramente acolhido. Mas, devo confessar: também eu precisava sair dali. Mais adiante, um ambulante com isopor de cerveja comentava com seus amigos aos risos, mas afavelmente (acredite), sobre a ordem da Polícia para que eu abrisse as pernas. É claro que aproveitei para pregar a palavra um bocadinho. E um deles comentou: é, mas muitas vezes esses meninos tão com drogas. E eu, que nunca vi a Polícia encontrar nada com quem quer que seja, ainda assim pensei de pronto: “É… legaliza-se as drogas, legaliza-se esses rolês”. Um mundo possível?

O dia em que recebi um ultimato de despejo

março 7, 2013

É muito triste quando, na sua vida cotidiana, nas relações interpessoais que você tece, você tenta ignorar os preconceitos; sim, esses preconceitos que povoam de modo tão pré-reflexivo a nossa inserção numa realidade social maculada pela distribuição desigual de recursos escassos – como tão bem afirma o sociólogo Jessé de Souza.

Mais do que isso, você recusa ser parte desse ethos excludente, e luta espontaneamente contra o preconceito a cada vez que tocam a campainha da sua casa e você diz: “entra, mano”. É muito triste quando, depois de uma visita aparentemente inócua, o estigma pode ser reificado meio que como um golpe. E esse golpe não é compartilhado, ele parece ser só seu (mas não, não é só meu, é muito pouco meu!). Afinal de contas, foi só você, “o otário”, que tentou ignorar, na prática, a marca estigmatizante que carregam os subalternos. Na cultura do risco, a responsabilidade é sempre individual.

Sei que estou muito triste porque, por mais que não queiramos que assim seja, pode ser material e emocionalmente doloroso cruzar certas fronteiras sociais. É um fato que eu simplesmente, como tantos fazem, não consigo encarar com naturalidade.

Naquele sábado inicialmente solitário, quando a síndica interfonou para o meu apartamento dizendo que os meninos que saíram da minha casa haviam levado a bicicleta de uma condômina, posso dizer que meu mundo caiu. O apartamento da síndica fica no lado e direção opostos ao meu, mas no mesmo andar. Quando, por um acaso, viu o naipe dos meninos (ou seja, pivetes) que tinham acabado de deixar a minha casa, correu para a sua janela, cuja visão abrange o portão que dá acesso ao prédio, onde ali ficara pendurada e só se deu por satisfeita depois que um desses garotos levaram a tal bicicleta. Posso apostar que, ainda que inconscientemente, ela vibrou com a cena: “eu sabia!”. Clarividência é para poucos.

Eu vivo no Rio Vermelho. Como diversos bairros de classe média de Salvador, somos, para o pânico de muitos e deleite de pelo menos um, rodeados pela Chapada [do Rio Vermelho], pela Santa Cruz, peloNordeste [de Amaralina] e pelo Vale [das Pedrinhas]. A praia do Buracão, ou o meu quintal (ou escritório, vide “meu escritório é na praia”), é pertencente à facção do Vale e da Chapada. Portanto, ainda que queiram, os meninos do Vale não podem frequentar nem a praia da Amaralina e nem a da Paciência. Nós, não os outros, podemos transitar mais ou menos livremente pela orla. Parcela significativa das relações que enredam o meu cotidiano riovermelhense são tecidas na praia do Buracão, ou Anita, como esses garotos costumam chamar. Anita Costa é o nome de batismo da praia do Buracão.

Faz algum tempo que sou amigo desses meninos e que acompanho suas aventuras nos recifes e águas da Anita. O meu interesse, é verdade, quase sempre inicia sexualmente mas  quase sempre extrapola para um desejo que você pode chamar de mais nobre, mas que eu não diria assim: o desejo antropológico. Dar o fora do meu aquário. Né álibi não, neném. Com esses garotos, embora mais da metade da gente não acredite (de tal modo que quase fui por eles convencido), não houve nada. Nada? É, nada; porque se somos gays, o sexo é tudo. Logo, se não houve sexo, não houve nada. Houve, sim, um macarrão, pão com queijo (mussarela para eles é um luxo; “tem até queijo!”), laranjas, bananas, e tudo o que eu podia oferecer-lhes para a larica – como costumam chamar qualquer gênero de fome. Ah, isso tudo no meio de funk, rap e pagodão.

Atualmente somos impedidos de ter colegas menores de 18 anos, sabe? Pré-púberes então, converte a camaradagem num dos crimes mais hediondos. Não há interesse antropológico que dê jeito. Quando os garotos, afinal, vieram devolver-me a bicicleta (o maior deles, a contragosto dos outros, achou de levá-la), uma senhora moradora pegou o interfone e não hesitou em me ameaçar: “Se esses meninos entrarem no prédio, eu chamo a polícia”. Para eles está muito claro: se um viado adulto recebe menores em casa, não há nada mais óbvio que práticas sexuais obscuras. Confesso que me senti meio Michael Jackson. E fala-se na sua inocência como se apóiam em valores tão burgueses como honestidade para interpretarem o inusitado fato de meninosda periferia levarem uma bicicletinha que tava dando sopa num prédio que só tem “patrão”.

Sob o olhar torto de toda a vizinhança, desde que somos amigos, esses meninos costumavam vir tirar areia dos pés na torneira aqui do prédio, ao saírem da praia da Anita. Eu gostava que fizessem isso, às vezes por pura provocação.Sempre aguardei aquela repreensão que até então nunca ninguém teve coragem de me dirigir. E sempre, sempre quis poder acusá-los de racistas. Pois é, o fato é que eu não mais poderia fazer isso. Nunca mais os meninos virão aqui em casa. Com a sua licença, agora faço questão de retirar-me do nós: eles todos venceram. Mas os meninos ainda poderão me interfornar, como hoje, que me pediram uma camiseta emprestada porque queriam jogar bola no colégio e o porteiro não os deixou entrar descamisados. Como hoje, prontamente irei atendê-los. E a vizinhança dessa vez estranhará que, mesmo depois de terem furtado uma bicicleta (embora, depois de uma longa negociação, a tenham devolvido), eu ainda mantenha uma relação amigável com os pivas.

Bem, e quanto à polícia, todos sabemos que o que estava em jogo não era e nem nunca foi qualquer defesa de direitos humanos, defesa dos direitos da criança e do adolescente contra uma apenas suposta pedofilia, até porque, para eles, aqueles meninos não se tratam nem de crianças e nem de adolescentes, mas de pivetes, essa categoria subhumana e de antemão criminalizada, cujo significado, quando assim se denominam uns aos outros, vem sido somente por elessubvertido. O que sempre esteve e estará em jogo, isto sim, é o inviolável direito à propriedade privada, um direito humano por excelência, ou mesmo uma moeda de acesso ao tão cobiçado status de… humano.

Devo dizer que o episódio foi a gota d’água para o rompimento de uma relação de moradia de cerca de cinco anos, com amigos de uma década. É chegada a hora de pedalar por outras paragens – sem mágoas, mas, certamente, com um bocadinho de preconceitos. Eles venceram e o sinal está fechado pra nós?

Arrastão

fevereiro 14, 2013

Não houve para mim, nesse ou noutros carnavais, experiência mais impactante, bela e ao mesmo tempo tenebrosa (por conta da multidão; as gentes brotavam na avenida feito cogumelos), que acompanhar o Arrastão da quarta-feira de cinzas. Nada pode se aproximar dessa forma tão congregatória de devoção à Bahia via música, da devoção da Bahia pela música.

O Arrastão é um lapso de democracia em meio ao carnaval. Ivete Sangalo parecia se redimir da ironia pouco velada que é cantar com “painho” (sic), de lá do seu 2222, “A novidade” (Ó, mundo tão desigual…), enquanto puxava o tradicional Coruja. O seu vestuário da quarta-feira reifica a (pulsante) amenidade do Arrastão: a impressão que temos é que a cantora acordou e pegou a primeira roupa que viu ao abrir o guarda-roupa. A ausência de fantasias ou abadás atualiza o mito, cada vez menos sustentável, de que, atrás do trio elétrico, somos todos iguais. As cordas que hostilizam desaparecem, as hierarquias sociais parecem momentaneamente dissolvidas. É verdade que uma ou outra pessoa, quase ninguém, usa seu abadá na quarta de cinzas, apenas possivelmente como um modo de diferenciar-se em meio ao povão. Tal prática ilustra o já tão conhecido fato de que o abadá vai muito além de uma questão de mera eficácia formal (adentrar as cordas); ele diferencia, segmenta, crava cortes sociais.

Sei que a aparente ausência de hierarquias do Arrastão assusta alguns. Já ouvi dizer que o Arrastão é um momento em que facções da periferia que possuem rixas (ou “rexas”, para usar o termo nativo) entre si, se dedicam a revidar os seus desajustes. E por isso nos é arriscado estar entre eles, os outros, “o povo”. Ir pro Arrastão, “a pior parte do carnaval”, é insanidade. Por aqui a mistura parece sempre perigosa (meus vizinhos chamam de “pivetes” os negros da periferia para quem abro a minha porta). Mas talvez seja o evento momesco menos trabalhoso para a polícia: não vi uma briga sequer. Definitamente a violência gratuita não foi o entretenimento adotado. Portanto, se o problema é esse, sintam-se à vontade para deixar suas sociabilidades privativas, seus camarotes, blocos, áreas vips, condomínios fechados, enfim, os seus aquários.

O Arrastão é o último suspiro do carnaval, a única oportunidade que o “pipoqueiro” tem de acompanhar Ivete Sangalo sem sentir sua liberdade de trânsito limitada pelas cordas – chamadas singelamente por Daniela Mercury de “cordão humano”. Que eufemismo. Enquanto Daniela é a rainha e Claudinha é a princesa, Ivete é Ivete. O Arrastão se insere na lógica de dom e contradom. Enquanto garantimos a Ivete a manutenção do seu capital social e financeiro (a verdade é que, indiretamente, nós todos a patrocinamos), ela nos devolve com o seu – não menos espontâneo – último suspiro. E nos arranca suspiros. Ivete é povo, mas só no último dia.

O arrastão é extremo. Sob o sol a queimar o juízo, mantido precariamente através de energéticos, pensei diversas vezes em desistir do percurso. Em vão. O espírito carnavalesco se instala no nosso corpo de modo ostensivo. Antes se sofre por antecipação com o fim do carnaval, mas quando passa o Arrastão e nos sentimos felizmente devastados, de certo modo nos consolamos porque tamanha “acabação”, dor e delícia, só acontecerá daqui a um ano. A esse espírito, que é vento e arrastão, alguns preferem entificar, chamando-o, por exemplo, de “caipora” (sim, ouvi esses dias a expressão “a caipora pega”), outros de “pomba suja”. Eu não o nomino, mas tenho plena convicção na sua existência e poder.

Os dois únicos conhecidos que encontrei no evento – um deles fazia a cobertura fotográfica, e o outro estava nas imediações da sua residência (como observador) – me olharam com expressão de estranhamento, de “nossa, o que é que você está fazendo aqui?”. Me senti muito transgressor estando no Barrondina naqueles quase 40 graus com sensação térmica de pelo menos 50. O que eles não sabem é que estar ali não foi algo, bem, voluntarioso. Eu fui de fato arrastado.

Mais uma vez, obrigado, Salvador!

Me chamam senhora, ou relatos do estar sendo no Atlântico

julho 20, 2012

Não que eu não fosse (lido como) gay em Portugal, ou não que lá inexista homofobia – eu mesmo cheguei a narrar aqui um caso lá me sucedido. Mas me chocou um pouco quando, recém-chegado na “terrinha”, senti minha presença passar despercebida em meus primeiros dias naquele país. Como se tudo ali estivesse nos conformes: eu, supostamente com um pinto entre as pernas (sim, o mantenho), e com postura de macho. Não, né? Mas o modo de se vestir daqueles meninos – que, pelo comportamento masculinizado, até que hajam outras “evidências”, eram socialmente lidos como héteros (quer dizer, eles sequer “apareciam”, pois estavam afinadinhos com a norma) – não destoava muito do estilo que ali eu incorporava (por exemplo, eu não usava batas em Portugal) ou do que já era incorporado por alguns gays no Brasil. Até meados de 2010, período em que viajei, pelo menos na Bahia era ainda coisa de viado menino vestir-se com calça justa. Lá não. Não posso negar que (não só) isso dificultou o meu trabalho: tardei a compreender quem era ou não gay em Portugal, e estou certo de que, ainda que excessões bastante localizadas possam contestar, um ano não foi suficiente para isso. Quando os gringos (em geral europeus) cá chegam, é sempre difícil entender de cara se eles curtem ou não. E não estou aqui dizendo que o contrário seja fatidicamente um “empecilho” – pode inclusive não ser. Certa feita brinquei ao ver um suposto estrangeiro na praia; perguntei ao colega que estava comigo: “peraê, ele é gay ou é gringo?”. Enfim, fato é que, tamanho foi o inicial estranhamento de não ser estranhado naquelas paragens, que senti mesmo saudade de ser identificado como gay, de receber aquele olhar sagaz de quem já entendeu qual é a sua. Ali, a ausência de laços (na condição de estrangeiro, quando à primeira vista nem mesmo como “estrangeiro” eu era identificado), integrou-se ao manifesto desconhecimento social da minha identidade gay. E perceba que não estou falando meramente em identidade “sexual”, e sim em existência. O mais engraçado, relacionando isso com a masculinidade dos jovens europeus de um modo geral (aqui grosseiramente tratando-a como se fosse apenas uma; excluindo, por exemplo, a performance de alguns gajos que vivem em freguesias ciganas), é que, caso estivessem no Brasil – observação compartilhada com outros amigos brasileiros que lá viveram – a maioria deles seriam aqui lidos como gays. Falo especialmente em vestimenta e gestual.
Para lembrar ainda da minha experiência como gay em Portugal – sem nem saber ao certo o que me motivou a falar sobre isso – conheci muitos portugueses enrustidos. Não é que eu não conheça brasileiros enrustidos, mas para mim foi especialmente chocante estar com um estudante de comunicação (sim, comunicação) e ele não querer admitir nem mesmo ser por mim cumprimentado na universidade – a fim, obviamente, de não levantar suspeita. Àquela altura eu já estava mais ou menos certo de que seria gay em qualquer lugar. Como disse um amigo, a minha voz denuncia; deve ser isso – embora eu aposte que não seja isso. Por falar em voz, à procura de apartamento esses dias, eu falava por telefone com um corretor de imóveis. Desde o primeiro momento ele se referia a mim como senhora; “porque a senhora isto”, “a senhora aquilo”, até que certa hora decidi, só de deboche, desconcertá-lo. Sim, pura provocação. Tantas vezes, por preguiça ou desdém, jamais “reenquadrei” o meu gênero por telefone. Pois bem, o interrompi: “eu sou homem [será?], me chamo Maycon”. Ele não evitou um riso, e, com aquela voz de senhor dublador de filmes da sessão da tarde, respondeu “oh, senhor, me perdoe”. O perdoei. O engraçado é que num dado momento, assim de repente, ele voltou a referir-se a mim como senhora. Senhora senhora senhora, até que, também sem ter nem pra quê, começou a alternar entre senhor e senhora. E eu nada fiz. É certo que minha voz o embaralhou, mas devo tê-lo embaralhado muito mais quando, ao fim da ligação, ele me pediu desculpas pelo “equívoco”, e eu disse, sinceramente, “que bobagem”. Dois ou três dias depois, lá vou eu ligá-lo novamente. Como nos falamos apenas uma vez e ele deve receber tantas ligações diariamente, procurei situá-lo ao meu respeito, a fim de que ele se lembrasse de mim. Mas fui interrompido: nos falamos apenas uma vez e bastou. Sem esconder o sarcasmo que parece tão bem afinado com a sua voz, disse, acompanhado de um risinho: “sua voz é inconfundível”. Do outro lado, ao desligar o telefone, ri muito com um amigo. Certos episodios são assim: piadas prontas. Já respondi também com sorriso quando, em consultório médico, a secretária me tratou como senhora. O detalhe é que ela estava muitíssimo constrangida, e a princípio não entendi bem o porquê, uma vez que quem supostamente deveria ficar constrangido era eu. O gênero é mesmo levado com uma gravidade abissal. Por ter ciência que sua “desatenção” tem uma razão de ser, o meu papel ali era de amenizá-la a aflição, assegurá-la de que encaro o gênero de outra maneira. No fim como uma coisa que não me pertence, afinal de contas é você quem vai dizer, melamor. É mais ou menos como aquela composição de Lazzo e Jorge Portugal: “minha pele é a linguagem/ e a leitura é toda sua”. Venho assim respondendo com bom humor a esses embaraços sociais. Mas é claro que não foi sempre assim; já engrossei muito a voz pra não ser confundido com mulher, e não vou mentir que até hoje o faço em algumas ocasiões bem específicas. As travestis também fazem – somos todas irmãs, eu você e mais um monte fazendo gênero – ê troço que dá trabalho. Não preciso dizer que na maior parte do tempo vivo por aí gozando da confusão, que às vezes ganho mesmo o dia com algumas coisas que me acontecem, como um “toma jeito, novinha!” que escutei essa semana, e que retruquei com um “Jeito?! Cê não acha que já sou jeitoso demais?”. O humor desbanca o homofóbico, faz ele passar batido com a agressão não cumprida. Estou cansado de, em banheiros de bares, restaurantes e afins, o rapaz ir entrando, olhar para mim e dar meia volta, achando se tratar de uma mulher. Com singeleza, prendo um sorriso. Ou solto – fui chamado de “borboletinha azul” por Seu Ogum de Ronda. Também pode acontecer de eu ir entrando no banheiro masculino, e alguém me interromper o percurso, querendo me dizer que estou entrando na porta errada. E se eu estiver? A única vez que não me diverti especialmente com o equívoco alheio, foi quando um jovem, que julgou-me gay – provavelmente porque era bonito e o olhei mesmo – disse que o banheiro era Masculino, mas não “inocentemente” ou por engano, e sim com visível intenção de me desqualificar (quando eram eles que se sentiriam desqualificados). Pacientemente, o esperei mijar. Mija, neguinho. Quando então ele foi lavar suas mãozinhas, também fui eu minhas lavar, numa pia lado a lado da sua. Olhei para ele e, ritmado, lhe cantei aqueles versos do Caetano: “masculino, feminino e plural” (da música “Falou, amizade”). Ele corou de vergonha, jamais esperava qualquer reação.

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Por Tu, Gal. Rua da Constituição, cidade do Porto. O muro estava já estava grafitado. Uma semana depois, cobriram de branco as bichas do norte. Em Portugal elas usam véu. Eu não.

Mas voltando aos portugueses (ah, como eu adoro os portugueses), ao contar a um amigo paraguaio que um tuga havia me beijado antes de tomar o táxi de volta à casa, jocosamente ele perguntou: “peraê, ele era português mesmo?”. Essa – e aqui quero brincar com as palavras – “aparente invisibilidade” dos LGBT em Portugal lembra-me também de uma conversa que tive com um amigo (hétero) português sobre os terríveis assassinatos motivados por homofobia que acontecem no Brasil. Comparando com a realidade de Portugal, chegamos a uma conclusão: que lá a situação é diferente não apenas pelo fato de que, por diversas razões, a sociedade portuguesa não é violenta, como são as brasileira e americana, mas também porque os gays em Portugal não dão tanto na vista. É claro que, nas afirmações excessivamente genéricas que faço, me baseio na minha breve experiência naquele país. Não quero aqui também reduzir a complexidade em que se constituem as agressões homofóbicas na simples fórmula “visibilidade X reação”, mas acredito que devamos, sim, levá em conta de algum modo. Muitas vezes me perguntei se seria por isso que uma sociedade tão católica como a portuguesa (sobretudo na sua porção menos laica – a região Norte) tenha “admitido” o casamento homossexual. União civil gay? Jóia, mas onde mesmo estão os gays? Eles podem casar, até porque já não nos importunam, e assim quem sabe façam ainda menos barulho. A “invisibilidade” LGBT em Portugal, ou pelo menos no Norte, onde vivi, às vezes me parecia tão grande que, desculpa, vivemos numa mesma casa; como assim você não sabe que eu sou gay? Ah, você jura que faço a linha discreta? Pois bem, quando eu estava para me mudar, fui avisar à senhoria, dona da casa onde eu morava, que eu “estava namorando e decidimos viver juntos”. De pronto ela disse: “Ah, ié, então vais morar com ela?”. Simulando constrangimento, respondi: “É; com ele, na verdade”. Passada, ela disse “Ah… ele?”. Dias depois eu soube, através de um amigo que lá também morava, que ela realmente não sabia que eu era gay, que achava apenas que eu tinha medo de mulher. O detalhe é que ela sempre fazia as piadas mais machistas comigo, do tipo “vais botar uma gaja na mesa”, e eu e meu amigo hétero, como gostava de a ele referir-me (por deboche, deslocando a diferença), jurávamos que essas anedotas ironizavam deliberadamente a minha sexualidade. Ele ria muito com o meu constrangimento, mas não recebeu de bom grado as queixas da senhoria por ele ter omitido a espécie a qual pertenço. A senhoria é assim como a minha família, que segundo um primo não vê nenhum problema no fato de eu ser viado, mas que afinal eu preciso dizer que sou viado. Localizar-me, enjaular-me. Já o senhorio – este sim, um sábio – que mês a mês recebia a edição da revista que eu tinha assinatura, curiosamente endereçada à “Senhora Maycon”, disse que “aquele ali [eu] nunca me enganou”. Como se eu quisesse enganá-lo. Mas ora, veja, logo eu, da malta do desbunde, que gosta de mostrar pra que veio. E mostro.
Depois de um ano exilado, ao chegar na Cidade da Bahia e antes de ir para Feira, minha terra natal, peço que meus pais dêem uma paradinha no Acarajé da Cira. Prestes a atravessar a rua, um carro cheio de rapazes para, e eles todos começam a gritar para mim um “ei, mamãe”, enquanto que, com os lábios, mandavam-me beijos (que eu recebia sorrindo e movimentando a cabeça para um lado e para o outro, como quem diz “mas vocês… não têm jeito”. É óbvio, o jeitoso sou eu. Ali, antes até que o meu paladar, tive uma plena e feliz certeza: eu estava de volta à Boa Terra. E é assim que eu gosto dela. De mamãe à novinha, rolando até um amorzinho.
E se isso pra você é homofobia…

Anti-Anti-baixaria

março 23, 2012
“Já ouvi muitas vezes em Salvador de músicos ou de pessoas próximas a música, e que não são pagodeiros, a indignação com o espaço de mercado, na mídia, e na vida, que tem o ‘pagodão’ em detrimento de outros gêneros de suposta melhor qualidade. E o próprio sucesso do pagode é visto como indicador da regressão cultural em Salvador, e do barbarismo das massas (…)”
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Já faz alguns meses que venho discutindo com diversos amigos (e amigas!), proposto debates a respeito do que ficou popularmente conhecido como “Lei Anti-baixaria”. Para aqueles que não conhecem o projeto, que aliás está para ser votado, o mesmo intenta vetar financiamento público a grupos musicais que supostamente veiculam no seu repertório violência contra a mulher. Guarnecidas pelo óbvio argumento de que violência também se dá no campo simbólico, várias pessoas advogam a necessidade de tal patrulhamento ideológico na cultura. E porque? As razões são “variadas”; no final do ano passado ouvi de uma das integrantes da mesa de um debate sobre esse projeto que determinado bairro da periferia de Salvador apresenta índices alarmantes de violência física contra a mulher, sugerindo naquele contexto uma linha causal entre o gênero musical escutado e as agressões sofridas por mulheres daquela comunidade. Bem, é sabido por todos e constatado em pesquisa encomendada pelo Correio que a predominância de adeptos ao pagode encontra-se nas classes D e E. Não por acaso, as letras atacadas pelas feministas que defendem a promulgação da lei são em sua grande maioria letras pertencentes a esse gênero. Segundo elas, os textos citados não podem sequer ser referidos como música – o que me lembrou de uma não menos infeliz declaração de Daniela Mercury sobre o vocalista de A Bronkka, Igor Kanário (“o príncipe do gueto”), ao dizer que esses meninos do pagode “precisam estudar”. Na ocasião, os finais de cada mensagem reproduzida pela imprensa em resposta dada a Daniela no twitter do cantor eram inundadas de “sic”, reificando que, ao contrário da “rainha”, o príncipe do gueto de fato não sabe escrever na norma da língua portuguesa. De modo mais ou menos sutil, a imprensa disse que Daniela estava coberta de razão: esses rapazes precisam mesmo estudar. O que quero chamar atenção com todo esse embate eminentemente político sobre o que pode ou não ser considerado música é que a “Lei Anti-baixaria”, inclusive com o aval das mulheres que estão à frente dela, consegue – queira ou não – reunir preconceito linguístico, elitismo e preconceito contra o próprio gênero pagode (e aqui eu nem quero falar em racismo). Mas a desqualificação da produção cultural desses meninos é apenas um lado do projeto de lei, que é mais ambicioso. Na fala da autora, a deputada estadual Luiza Maia (PT), foi notável para mim um desejo de moralizar as relações afetivo-sexuais. Para ela consiste num problema a objetificação do corpo da mulher na cultura popular e a “vulgarização da mulher”, “que não é cadela pra dar pra qualquer um”. E aí eu pergunto: mas qual é mesmo o problema em dar para qualquer um? Pergunto ainda quem é essa mulher que sente a sua dignidade ferida, que se sente ofendida com as letras do pagode? Ou, mais precisamente: quem poderá definir precisamente o que se constitui ou não como violência? Por isso me interessa a opinião daquelas que consomem o pagodão, que vão aos shows, que sobem no palco, que provavelmente não foram “iluminadas” pela universidade e que prestam-se àquilo que chamam de vulgaridade ou de auto-desvalorização, porque ser ou estar puta para muitos ainda é descrédito, é desqualificar-se. São opções políticas: em vez de dizer que meu cabelo duro é bom, alguns preferem dizer que meu cabelo não é duro, que meu cabelo é bom. Seja como for, estou um pouco cansado da opinião dessa gente que confessa (para não dizer conclama) com muito orgulho não consumir “esse tipo de música” ou então que adora ressalvar que “não ouço em casa, só na rua”. Cadê a turma pagodeira?
Um outro problema desse projeto é que, a despeito de vãs tentativas em argumentar o contrário, no fundo é uma censura sutil, disfarçada, a começar pelo nome com que ficou popularizado. Nesse sentido ficou muito claro para mim a adesão citada no tal debate de alguns setores da Igreja. Se em verdade o projeto não visa proibir (e sim inibir) a produção e veiculação de músicas com teor supostamente ofensivo contra “a mulher” (aliás, quem são as que têm voz para falar por todas as mulheres?), e sim proibir o financiamento público de grupos que tenham o seu repertório infestado desse tipo de música, isso não parece estar tão claro para a maioria da população que teve acesso ao projeto. O que se vê nas ruas são cartazes, faixas, uma verdadeira CAMPANHA contra essas músicas, produtoras de mulheres nada respeitáveis. Na semana passada uma amiga levou para a mesa de bar um cartaz dessa campanha e o abriu, indicando a contradição manifesta entre a imagem e as palavras. Na foto, uma mulher com a bunda empinada e esbanjando prazer, enquanto um homem apontava na direção de sua bunda a palma da mão como quem a daria um tapa (bem, preciso ressaltar que a face do homem não era de fúria e que portanto o tapa ali não era um tapa para propriamente agredir a mulher). No cartaz, as palavras “Batidão sim, contra a mulher não!”. Ora, é o Estado querendo dizer que esse prazer que ofende ALGUMAS feministas (porque para alguns ser feminista atualmente na Bahia é apoiar a lei), esse prazer sentido por essas mulheres e que envergonha outras, está errado. Incumbido da gestão dos corpos, o Estado quer indicar o modo politicamente correto de sentir prazer, de modo que a mulher que goza com o vocalista objetificando o seu corpo em performance altamente libidinosa é alienada, idiota cultural, é vítima sem o saber, e precisa de um Estado paternalista que a proteja.
Por outro lado, a própria lei é ingênua ao partir desse princípio de estupidez cultural e equivoca-se ao pensar que, como uma máquina que responde aos comandos, as diretrizes das músicas são inculcadas nas nossas mentes, e então a reproduzimos ad infinitum. Para além disso, o projeto de lei parte do pressuposto que o ato de escutar música é uma atitude reflexiva, sendo que, diversas vezes, no envolvimento jocoso com o ritmo-letra, sequer sabemos a nível da consciência o que estamos cantando.
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Eu já disse certa feita e repito aqui: Valesca Popozuda é muito mais inteligente que Luiza Maia. Proibir não é nada subversivo. Respostas criativas aos machos podem ser dadas pela própria produção cultural e não por sua negação, e é justamente por isso que o que eu queria ver por aqui era uma versão baiana de Gaiola das Popozudas, mulheres mais sujeito de prazer que objeto.
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Considerar machista aquele que não é a favor da lei é um modo agressivo e burro de encerrar o debate. É atitude de quem, em vez de querer de fato levar a cabo uma discussão, prefere o conforto monótono de prosear de-si-para-si. Ao meu ver, esse tipo de postura denuncia o viés muito mais doutrinador que verdadeiramente dialógico (e democrático) que certos militantes assumem em suas miradas arrogantes de quem é cheio de verdades e esclarecimento. Ainda que eu tenha me pronunciado no debate que participei e os olhos em brasa das mulheres da mesa me mirassem como a um machista, ainda que um grupo de pessoas tenham me achincalhado ontem no facebook de uma desconhecida, a atitude sincera e opinativa que aprecio para comigo nos meus ativismos é a mesma que mantenho com essa gente, porque opiniões divergentes sempre me instigaram, ao passo em que demasiado simplismo sempre me aborreceu. Como diria Caetano, as coisas são profundas.

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