Buracão: porque o buraco é mais embaixo

novembro 19, 2011
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Metidos em sungas vermelha – a minha, posso lembrar, relativamente pequena – e roxa, caminhávamos eu e Phyllis pela praia do Buracão. O lugar, cujo ilustre morador atende pelo afetivamente forjado sobrenome de Brown (e se já não é residente “ribeirinho”, acredito que continuará a sê-lo durante mais algum tempo no imaginário de Salvador), é conhecido pela calmaria e beleza, atributos ressaltados pela localização pouco óbvia – um “buraco” cravado na costa do Rio Vermelho. Embora suas ondas não sejam lá das mais mansas, como supostamente os são os seus frequentadores, a tranquilidade naquele espaço parece reinar, como se diz, de domingo a domingo – diferente do Porto da Barra, que, mesmo numa segunda-feira, não pára de bombar.
Aliás, no último domingo houve batida de policiais no Porto. Foram gozar do poder, literalmente provocar medo em nêgo, encostaram meimundo (justamente a “metade” preta e pobre) no paredão mas não levaram um. Vi tudo do mar. Poderia, mas não pensei: é, no Buracão podem fumar seu baseado em paz. Terceira pessoa, quem diria. Seja como for, esse é o tipo da coisa que de fato não acontece no Buracão. Maconheiros, harmonia, Brown; um caleidoscópio sedutor. A praia não corre riscos. Nós, talvez.
Nós? Ah, caminhávamos eu e Phyllis, que por acaso é o rapaz que namoro (embora no Facebook role o married porque “relacionamento sério” é péssimo, e por outro lado tenho pavor ao investimento politicamente correto do “companheiro”)… Porém na praia poderíamos ser tão-somente amigos, uma vez que sequer de mãos dadas estávamos, e, antes da caminhada, nem mesmo havíamos manifestado afeto publicamente. Acontece que um grupo de meninas, talvez o mesmo que na esquina da rua que nos leva (ou tira) da praia mexeu conosco dias passados, começou a gritar interjeições como “ai”, “ui”, ou compulsoriamente aumentadas em “aiaiaiais” e outras comoções do gênero. Falando em gênero, a nossa passagem pareceu ter doído como traição, ou falta. Agarrei Phyllis pelo pescoço e tasquei aquele beijo que mais-técnico-impossível. Em meio a algazarra que se formou, uma voz feminina que dizia “que que isso” sobressaiu. Só mais tarde fui descobrir que se tratava de uma apropriação (pouco criativa, é verdade) daquela música do Saiddy Bamba, que caiu como uma luva para esse tipo de situação – estranhar a bicharada. Me pergunto se estaríamos mesmo habilitados a responder o que tanto irritou essas mulheres, ou melhor, responder o que nos habilita a provocar nelas uma espécie de dor ou qualquer sensação emocional tão incômoda. Bem, nesses momentos, precisamos estar firmes com Sontag e sermos contra a interpretação. E porque digo isso? Porque algumas interpretações, sobretudo por parte das vítimas, podem ser tão ou mais redutoras daquelas pessoas do que a agressão sofrida, qualquer coisa como um revanchismo vulgar. Ora, é evidente que interpretei, mas politicamente sou contra a exposição dessas minhas interpretações, embora eu arrisque que sejam menos machistas do que elas próprias. Eu poderia inclusive sublimar o gênero das agressoras, mas faço questão de pontuá-lo por ter sido justamente isso que me chamou atenção no episódio. Que ainda não terminei de narrar.
Após a “fechação” e o que ela repercutiu (gritaria por parte das garotas e mirada de todo o público da praia), continuamos, naturalmente na defensiva, a caminhada. Passamos por dois grupos de rapazes, sendo que o segundo nos olhava com um sorriso não muito amável, como quem toma partido pelas meninas. Claro, nessas ocasiões há sempre o que se esquivam como há os que, sensata ou insensatamente, se posicionam. Ao retornamos para o ponto de origem, uma vez que se chega e se deixa o Buracão de um só lugar, esse mesmo grupo de rapazes, ou melhor, um deles, também foi tomado por algum sofrimento e gemeu para nós algo como “uiuiui”. Bonito, né? Mais adiante, novamente a título de protesto quase incalculado, virei para eles e disse que “é gostoso dar o cu”. E é. Baixo? Sim, decerto que eu poderia ter sido melhor escutado. Sentamos onde estávamos inicialmente, já sem tê-los mais à vista, até que passa um do bando, que sinaliza para que o outro se aproxime, que não deixe barato. Esse outro, que foi provavelmente o do “uiuiui”, partiu feito cão enraivado para cima de nós, que corremos assustados. E era de assustar. Poderia ter sido pelo seu físico, mas foi mesmo pela abordagem, o modo com que ele veio em nossa direção. Como dizem por aqui, veio “tirar pergunta”. Tirar pergunta como um metido a skinhead no Porto, quando num supermercado, em retribuição ao seu feito, eu lhe apontei o baguete com que anteriormente ele havia feito piada de mim – um baguete apontado, segurado na base, como uma piada sobre sua macheza que não lhe permite levar baguete e guloseimas fálicas. Sabe como é, um atrevimento nosso e logo eles nos vem colocar no nosso lugar de viadinho-pau-no-cu. Quando corri, na praia, quase que para os braços de um trabalhador do Buracão (a gente vive correndo de um macho para outro), o agressor da vez deu a voz: não deixa ele sair, não. Daí o dono do pedaço, que ao nos abordar foi perguntando “o que você disse ali pra mim?”, argumentou para o trabalhador que eles estavam quietos “fumando um” e nós mandamos eles tomar no cu, bem tipo viado que mexe com homem (e ainda há aqueles que não mexem). Depois – ri por dentro – ele disse que não, que não é homofóbico. E quem aqui falou em homofobia, cara-pálida? De fato, ninguém havia tocado nessa palavra, que agora “tá na boca do povo” do melhor jeito todo-mundo-sabe-o-que-é-mas-ninguém-pratica. Fomos indo embora, ainda depressa, até que o homem que nos protegeu perguntou se iríamos deixar as nossas cadeiras de praia na praia, e então o mandarim disse que poderíamos voltar, que ele não ia bater na gente, aliás, que ele nem é de briga (nós que somos). Pensei: bom, já que ele permitiu, vou voltar pra buscar minhas cadeiras, até porque tão cedo eu não teria grana pra comprar outras.
Isso foi no dia 27 de outubro, véspera do meu aniversário. Um amigo disse: é, agora você tem de escrever um post sobre isso. O que me restava. No dia eu bem que tentei, mas foi impossível. Sentimento de privação existencial. Horário de verão, chego cinco da tarde em casa e agora ainda dá tempo pintar na praia (que é praticamente o meu quintal) – pensava eu. Não mais. E talvez hoje eu só escreva porque voltei a ser um frequentador do Buracão, por que não é bem a gente que “tem de tomar vergonha na cara”. Aliás, não sou mais tão assíduo no Buracão por que há praias que me inquietam mais – o que me move. Sei que no dia 28 eu estava ao lado da Igreja de Santana no Largo da Dinha e alguém me chamou. Quando olho, quem é? O próprio. Me aproximei para escutar o que ele tinha a me dizer, como sempre faço, por princípio e curiosidade, por querer saber o que as pessoas estão pensando. Ele me disse que eu havia entendido errado, que ele não iria nos bater, que ele já tinha me visto lá por várias vezes (eu, tão estranhamente familiar), que estava fumando um baseado e que então era como um pitbull em que você dá um tapa e sai correndo. Ao fazer essa comparação com um pitbull, pensei: pronto, se já não me sentia, agora me sinto totalmente esclarecido. A verdade é que ele queria dizer para ele mesmo que não é homofóbico. E eu deixei que ele fizesse isso. E aqui eu poderia dizer “nah, deixa ele acreditar que não é homofóbico”, mas no fundo sou um esperançoso nas pessoas, não quero nunca me fechar para elas.
Ainda assim, por mais que, torto ou direito, haja Brown no Buracão, que o Brasil-carvão tente reconciliar-se com o cor-de-rosa, eu continuo preferindo o Porto da Barra, de putas viados gringos pretos e até polícia. Menos gueto, mais mistura. Confusão no melhor sentido do termo, lá onde a gente é mais baiano.
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No Porto não ficamos acuados. No Porto da Barra, porque no Porto português sofremos de “mania de perseguição”, resposta do segurança do supermercado quando acusei em alto e bom som o agressor de homofóbico. No nosso Porto não cabem muitas dicas de segurança. Em todos os outros, a dica é igual àquela prudência em assaltos: não reagir. Ou, na falta de um homem respeitável, ou na falta de um gerente que não permita que um skinhead lhe espere na porta do supermercado, as coisas podem ficar muito pior.
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Se para fundamentalistas religiosos a lei contra homofobia violenta a liberdade de expressão das pessoas, que tipo de violação, qual espécie de liberdade a homofobia constrange que não aquela primordial (de existir mesmo)?
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De toda sorte, uma coisa que todo mundo já entendeu é que ser chamado de homofóbico é uma ofensa e tanta. Agora, precisamos ir além.

O erro de Cecília

outubro 22, 2011
Capitães da Areia foi o primeiro (e único até o momento) romance de Jorge Amado que li, há cerca de dois anos. Desde então, sempre que passo, de ônibus ou a pé, na praia que fica ao lado do Alto da Sereia, ou sento-me no “lado B” do Buracão e vejo aqueles meninos, quase todos negros e quase sempre em bandos, eu penso que são os capitães da areia. Os conheci nas ruas e no mar da Bahia e os reconheci, em toda sua materialidade, na literatura de Jorge Amado. Escrito em 1937, ainda hoje não é nada raro encontrá-los por aí, emanando certa liberdade sensual e empoderada, naquele jeito de andar de quem são “os donos do pedaço”, ou, na linguagem amada, “os verdadeiros donos da cidade” – quem mais a conhece e vive. Foi esse tom e porte imperativo, vivido, que na minha opinião faltou na adaptação da obra para o cinema: uma atuação convincente, a começar por Pedro Bala, o líder do bando, que no ecrã não passa de tentativa. E não me venham justificar que o filme é um projeto social e cultural e que os atores não são “profissionais”, se vejo um Pedro Bala encarnado e sem treino em cada esquina de Salvador.
Por outro lado, trata-se de uma adaptação demasiado apressada. São entrepedaços, cenas recortadas que não chegam a amadurecer e logo se precipitam. Neste sentido, o filme desperdiça uma qualidade intrínseca à obra de Jorge Amado: tocar, tomar o leitor pela emoção, envolvê-lo. Prova desse mal-acabamento é o final, que apresenta os rumos que levaram cada uma das personagens, tal qual no romance, mas que, com exceção de poucos (como Pedro Bala), não tiveram oportunidade de ser nomeados – ter um caráter e trajetória peculiares – ao longo do filme. É realmente uma pena que a obra de Cecília Amado tenha perdido a possibilidade de se enredar e misturar, mediar o imaginário e a experiência de cidade salvadoreana como a literatura de Jorge.
Não deixarei de criticar também a presença despropositada de uma travesti na cena em que Pedro Bala vai para a cadeia. Se valer de uma luta cotidiana, que é a validação do nome social das travestis, para promover um  riso desumanizante (que ainda ecoa naquela sala de cinema do Shopping Barra) de fato me irritou bastante e me faz questionar o limite de certos projetos sociais, que se aliam a determinados grupos enquanto desqualificam outros. Sinceramente, Cecília, os capitães da areia não precisavam disso.
Por fim, além das cenas que põem tônica a cultos religiosos afro-baianos (essas não esterilizam em nada a profundidade da obra amada), outro acerto do filme que gostaria de ressaltar – e esse para mim é o de maior fulgor – foi a trilha sonora de Carlinhos Brown. Com o filme, a maestria de Brown o dispõe definitivamente no rol de intérpretes da Bahia, celebrando, este sim, o centenário do nosso escritor.

Projetando ambientes para a vida – um esboço*

outubro 10, 2011
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Imbuído de pensar uma antropologia do vir-a-ser, uma antropologia do devir, quer dizer, aquela que não seja sobre as coisas, mas que se mova com elas, Ingold esboçou, no que os organizadores chamaram desde o início da série de conferências na UFMG de sua “grande conferência”, críticas e proposições para trilharmos o futuro. Trilhar não se trata de percorrer um caminho pré-definido; é deixar pegadas no seu percorrer, marcar com trilho, traçar. O traçado é como um desenho, um projeto, e o ato de fazê-lo já nos desloca da condição de “meros usuários” do design. Para Ingold, os designs têm de falhar, para que o futuro possa deles se apropriar, destruí-los. Eles poderiam ser pensados como previsões – e toda previsão é errada. Ou, seguindo a linha de análise deleuziana, o design poderia ser compreendido como uma tentativa de controlar o devir.
Tim Ingold propõe que ele (o design) seja concebido, no âmbito de um processo vital cuja essência é de abertura e improvisação, como um aspecto, menos como meta pré-determinada que como a continuidade de um andamento. Neste sentido, o design seria produção de futuros e não definição de. Essa ideia contudo contrasta – e esse é o ponto, creio eu, de Ingold e desse post – com a forma como tem sido predominantemente compreendida a natureza no discurso tecnocientífico: com objetivos precisos, o  ambiente seria nada mais que um meio, uma coisa manipulável, vida sequestrada tendo em vista a atingir determinados fins. A natureza dos cientistas e dos criadores de política é conhecida através de cálculos, gráficos, imagens independentes daquelas do mundo que conhecemos (ou mundo fenomenal) e com o qual estamos familiarizados pelo próprio habitar. Essa dissociação artificial, que para nós aparece na figura do “globo”, espaço a que não sentimos pertencer, em contraposição com a terra, que de fato habitamos, é um modo nada adequado de abordar as constantes ameaças sofridas pela natureza. A mesma dissociação provoca uma lacuna entre o mundo diário e o mundo projetado pelos instrumentos de conhecimento a que me referi anteriormente, opondo conhecimento do habitante a conhecimento científico, como se os cientistas não habitassem mundo.

Tim Ingold no auditório Sônia Viegas (FAFICH/UFMG), em Belo Horizonte.

Uma expressão muito em voga como “desenvolvimento sustentável”, em geral usada tanto por políticos como por grandes corporações com intuito de proteger o lucro, é amparada por registros contábeis, ou pela perspectiva, segundo Tim Ingold do ex-habitante. Nós outros, habitantes, não temos acesso a essa linguagem contábil, e somos assim furtados da responsabilidade de cuidar do meio ambiente, sendo dele (verticalmente) expelidos, em vez de fazer do mesmo um projeto comum, pela via do que Ingold denominou de “projetar ambientes para a vida”. Repousaria pois na unidade da vida esse elo ontológico, unidade esta que nem o catálogo taxonômico “biodiversidade” e nem a concepção kantiana de superfície – palco das nossas habilidades – dão conta. Tim Ingold se esforça, em nome de uma vida social sempre indivisível da vida ecológica (se é que é possível já assim polarizá-las – ressalta Ingold), por uma genealogia da unidade da vida, uma partilha histórica entre sociedade e natureza, sendo a última em geral concebida como facticidade, coisa bruta do mundo.
Para Ingold os conceitos são inerentemente políticos, e deste modo é interessante para alguns distinguir humanos de inumanos, que, embora estejam num único mundo, apenas os primeiros, pelo viés da “ação humana”, são passíveis de construir. Seriam assim os humanos “menos naturais”, todavia envolvidos mutuamente ao longo do mundo orgânico. Que pensar a respeito do vento, do sol, das árvores e suas raízes (onde residiria o seu caminhar)? Ele propõe, a fim de evitar – e agravar – essa infeliz dicotomia, a concepção de ambiente como uma zona de envolvimento mútuo, cujo relacionamento entre os seres se dá justamente por feixes de linhas, como luz, como ar, e caminhos. Contra as tentativas coercitivas de suprimir o ambiente cobrindo-o de superfícies duras/impermeáveis, Ingold oferece o rolar sobre o mundo e não através do. Segundo ele, o rolar sobre significa o nosso envolvimento com o ambiente, a nossa própria experiência, que difere do global da tecnociência. Aqui se situa o design, mas não o design que inova, e sim o design que improvisa. A inovação seria oriunda de uma leitura de “trás pra frente”, já a improvisação uma leitura do ler para a frente, por onde o mundo se desdobra. Toda improvisação para o antropólogo consiste em criatividade, e criatividade implica já crescimento. O design não prevê, o design antecipa.
Assim a sua ideia é a de caminhar com o mundo, “crescer junto”, mas não num mundo pré-ordenado e sim um mundo incipiente. O design não é uma pré-figura, mas um traço, um desenho, uma linha para uma caminhada, no entanto sempre passível de fuga do enredo como personagens de um romance – com vida própria. Ingold então defende o projetar como um verbo intransitivo, responsável – ao contrário do que pensava o pintor Paul Klee, do julgamento da forma como morte – por atribuir vida. Para a proposta de Timothy Ingold, finalmente, seria necessário o aumento da flexibilidade dos habitantes de mundo, em que tensão seria convertida em conversa, em diálogo, em projeto.
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P.S.: Para quem desejar ir além da sua contribuição antropológica e vê-lo tocar no cello, juntamente com pianista e clarinetista da Escola de Música da UFMG, uma peça do Beethoven, também poderá fazê-lo através desse vídeo, embora de qualidade muito amadora.
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* Agradeço a Phillip Villani por me ajudar a reconstruir o fio da meada da última conferência de Tim Ingold na UFMG, “Designing environments for life” (Projetando ambientes para a vida), na qual este post é baseado e cujo resumo pode ser visto aqui.

Saberes puta

setembro 13, 2011

Ao chegar ao Enlaçando Sexualidades para assistir à primeira mesa-redonda do seminário, fui já surpreendido por uma performática senhora que, no decorrer da sua fala, revelou-se puta. Sim, puta, porque considerá-la como “profissional do sexo” seria impingí-la a um politicamente correto cujo ideal asséptico ela é veementemente aversa. Em contraposição daquele que proferiu a conferência de abertura do evento, o deputado Jean Wyllis, ela não recorreu à Hannah Arendt ou a qualquer Foucault para embasar as suas reflexões. De fato, quem esperava uma militante profissional do sexo como quem esperou um parlamentar (e militante) homossexual, com esse tom de respeitabilidade de que estão impregnadas essas palavras – e performances – não pôde conter um sobressalto, ou um inesperado prazer. Gabriela [Leite] na mesa sobre o mundo do trabalho fez questão de relegar a nomenclatura “profissional do sexo” como uma categoria restrita a esse mundo a que ela foi convidada a falar; um conceito estranhamente forjado, quando em verdade é como puta que, na sua vida cotidiana, ela se identifica.

Ora, com esse produtivo deslocamento ela acabou por prôpor uma política da irreverência e da autenticidade, do gozo pelo execrável. Gabriela gosta de ser puta. Por isso recusa abandonar o estigma ao passo em que procura positivá-lo, uma vez que, ao contrário de muitos, desacredita na ideia de que um novo vocabulário para designá-la, mediado pelo politicamente correto, possa transformar sua marginalidade originária. Para ela o que o acionamento discursivo do politicamente correto faz é higienizar, normalizar, ocultar a operação de um preconceito arraigado – o que o impede de se constituir, portanto, como a via mais segura para empreendermos uma real conversão de juizos de valor.

Gabriela falou ainda sobre a confusão sociocultural que paira a respeito de conceitos tais quais sexo e corpo no seu mundo laboral, de modo que aquele que faz trabalho braçal é acusado de vender a sua força de trabalho, enquanto que a prostituta vende o seu corpo. Bem-humorada, ela lembrou que uma amiga a disse certa feita que se de fato vendesse o corpo, ela já nem mais existiria, de “tanto homem” pra quem já “deu”.
Outra confusão que geralmente é feita é entre tráfico de mulheres, turismo sexual e exploração sexual de menores. Ela defende que migração para o trabalho não é e nem pode ser confudida com tráfico. Assim, muitas mulheres que decidem ir à Europa a fim de “ganhar um dinheiro a mais” são vistas como vítimas que nem sabe que as são. Gabriela relata casos de policiais federais que, sabe-se lá com que evidência, caso desconfiem que a mulher está viajando para se prostituir, barram a sua ida.

Gabriela como a imagino

Outro ponto interessante da sua fala foi acerca da recente decisão das prostitutas de não mais aderirem ao programa de prevenção às IST/AIDS do Governo Federal. O seu breve comentário sobre o assunto enumerou a percepção de que durante sucessivos anos em seus encontros e reuniões a aids era insistantemente pautada, quando não o principal assunto a se discutir nos mesmos. Elas notaram que essa reificação da doença estava contribuindo para a conformação daquele grupo como um grupo de risco, uma vez que faziam da própria aids um ponto necessariamente em comum entre elas. Gabriela Leite deixa claro que posicionar-se não mais como transmissoras do vírus foi uma decisão política, a qual, inclusive, já tem repercutido bastante; recentemente um dos coordenadores do programa (do Ministério da Saúde) em Manaus disse a elas “Ah, é? Quer dizer que vocês não vão integrar o programa de prevenção a aids, né? Pois a Copa do Mundo está vindo aí, e quando os estrangeiros voltarem infectados para os seus países a culpa será de vocês!”.

Enfim, este escrito é uma mera tentativa de reproduzir, embora de modo demasiado sintético, a fala daquela dama – da noite ou do cassino – sobretudo para quem não se fez presente na ocasião. Algumas partes que também me afetaram foram deliberadamente suprimidas por estar certo da limitação da língua escrita de reconstituir a experiência em sua plenitude. Na verdade, mais que isso. Eu poderia até imitá-la, como o fiz com certo deleite para alguns amigos, mas então lançaria mão de um decisivo recurso: a performance. Para pessoas tão vivazes como Gabriela é impossível apartar o que ela diz dela mesma; por isso qualquer coisa que eu aqui escreva não vos tocará como a mim naquela manhã. De todo modo, compartilho as suas palavras e proposições porque ela traça no seu discurso, de modo mais ou menos assistemático, críticas à moral social que marca todas que se sentem putas. E que gostamos disso.

Entrevista com teórica queer

junho 11, 2011
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5 DE JUNIO DE 2011
el Periódico / cuaderno del domingo
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Beatriz Preciado

Burgos, 1970. Filósofa y ensayista. Se reedita su ‘Manifiesto contrasexual’

«No soy lesbiana, soy ‘transmaricobollera’»

No se considera mujer, ni hombre, ni homosexual, ni heterosexual. Para ella la sexualidad los cuerpos son infinitos, y rechaza cualquier categoría de género. Su ‘Manifiesto contrasexual que acaba de reeditar Anagrama después de 11 años, y la experimentación con la testosteron la han convertido en un icono del feminismo contemporáneo y de las teorías transgénero.
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POR ÁNGELA GARCIA
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Beatriz Preciado llega a Barcelona desde París –donde reside y es profesora universitaria– en plena efervescencia del movimiento 15-M y exclama: «¡Por fin! Así debería ser siempre». No entiende por qué no estamos en rebelión constante. Ella lo está. Esta filósofa y activista centra sus investigaciones en el cuerpo y su relación con el poder. En un momento en el que la píldora anticonceptiva cumple 50 años en España, subraya que la historia de la sexualidad no es natural, sino política y tecnológica.

–Nació en Burgos, en los años 70, en un entorno muy conservador. ¿Cuándo vio que no encajaba?
–Nunca me he sentido identificada con mi entorno. Mi madre solía decir: «¿De dónde ha salido este engendro?» [ríe].

–¿Qué sensación tenía?
–Una sensación constante de encierro. En mi casa, en el colegio, en la feminidad… Era como si la sociedad fuese una enorme institución penitenciaria.
–Desde pequeña se sintió lesbiana y llegó a ahorrar para una operación de cambio de sexo.
–Cuando era niño tenía dos obsesiones. Cambiar de sexo y comprarme un mono que había en una tienda de animales de Burgos. Mi abuela estaba un poco espantada con lo uno, pero sobre todo con lo otro.
–Su familia ha ido aceptándola, pero ¿cómo reaccionaban al principio?
–Cuando mi madre me veía por la calle cambiaba de acera para que no la viesen conmigo –yo iba rapada, o con cresta–, pero es obvio, ¡pobre mujer! Yo también lo hacía, y pensaba: «Que no me vean con esta católica». Cuando salió El manifiesto contrasexual en España, mi madre me dijo: «Ya no puedo ir a la peluquería».
–Justamente ir a la peluquería es una práctica muy  femenina.
–Tiene que ver con la feminización en una pequeña ciudad y con la vigilancia de proximidad. No es que el Estado te espíe, ¡el Estado da igual! Son tu madre, tu vecina, tu amiga…
–¿Qué problema tenemos con los que son diferentes?
–La gente piensa que los que tienen un problema son los que no son como el resto. O sea, lesbianas, gays, transexuales… Yo creo que es al contrario, que el problema es la norma.
–La norma, según usted, es el origen de las orientaciones sexuales.
–No creo que haya una identidad ni una orientación sexual. Las orientaciones sexuales son una majadería extraordinaria. Es difícil entenderlo porque hay gente que piensa que la homosexualidad y la heterosexualidad existen en la naturaleza. Y no es cierto. Hay una multiplicidad irreductible de cuerpos y de deseos.
–Pero esas categorías están muy extendidas y se ven como normales…
–Lo que está claro es que cuando eres niño te pueden gustar muchas personas, pero si un día te gusta una persona de tu propio sexo ya eres lesbiana. Por defecto. Por eliminación negativa. Y eso va a determinar quién eres y cómo se te llama.
–En su caso, prefiere que la llamen bollera que lesbiana…
–El término lesbiana viene de los discursos médicos y jurídicos del siglo XIX que consideran la homosexualidad como una patología.
–Pero bollera proviene de un insulto…
–Sí, por eso sirve para alejarse de la norma. En los 90 los homosexuales se movilizaron para decir «todos somos iguales» y buscar la integración en el sistema heterosexual a través del matrimonio, los hijos… Yo no pretendo integrarme en la sociedad heterosexual accediendo a institu«ciones arcaicas. Por lo tanto yo no soy lesbiana. En todo caso soy transmaricobollera.
–¿Qué le parece el lenguaje políticamente correcto?
–Que es paródico y que remarca constantemente la diferencia. Yo cuando hablo a veces me refiero a mí mismo como hombre y hay gente que me llama Beto. Hago un uso libre de las gramáticas de género. No habría nada más desconcertante para el poder que un uso arbitrario de las gramáticas de género.
–También critica el binomio masculino / femenino.
–Se nos ha hecho creer que el sexo es natural y que, por esta razón, debe estar ausente de toda crítica. Se nos ha dicho que el deseo sexual es biológico y que tiene que ver con la reproducción. Una de las enseñanzas del feminismo es que la distinción entre natural y cultural es política, y que es esta distinción la que hace que las mujeres sean consideradas cuerpos reproductivos y estén encerradas en el espacio doméstico.
–El sexo, entonces, ¿no tiene nada de natural?
–El problema de un cierto número de teorías feministas es que decían que el género es una construcción social y cultural pero que la diferencia sexual existe. La gran mentira de los discursos naturalistas es hacer-nos creer que todo lo que tiene que ver con el cuerpo es natural.
–La anatomía de hombres y mujeres ¿no basta para diferenciarlos?
–No. La prueba está en los bebés intersexuales, a los que se les asigna un sexo con técnicas quirúrgicas que suponen, en muchos casos, la mutilación genital. En el ámbito científico se barajan teorías que hablan de cinco, seis e incluso de 12 sexos.
–¿Qué hacer, entonces?
–Una de las demandas del feminismo contemporáneo debería ser la abolición de los protocolos de intervención de género en el nacimiento y la abolición de la inscripción masculino/femenino en la tarjeta de identidad. Los cuerpos tienen un conjunto de derechos que son ina-lienables y que no son ni masculinos ni femeninos.
–En general, las mujeres parecen más partidarias de estos cambios que los hombres.
–¡Evidentemente! Durante mucho tiempo, los cuerpos asignados como femeninos intentan pensar que todo va bien, que están integradas y que el feminismo no va con ellas, que es para frígidas, para violadas, para feas… pero no para las que sí han tenido éxito dentro del modelo heterosexual.
–¿Y qué las lleva a dar el salto?
–Lo que ocurre es que poco a poco ese lugar aparentemente normal y ventajoso casi nunca funciona y en-tonces se dan cuenta de que no tienen una posición hegemónica.
–Los hombres sí tienen esa posición…
–Los hombres heterosexuales sí. Y no quieren una teoría que la desmante-le. Igual que tampoco conoceremos a muchos industriales que sean profesores de marxismo.
–Sin embargo, los hombres también tienen presiones con las que podrían no identificarse.
–Hay muchas presiones, pero cuando un hombre empieza a renunciar a ellas inmediatamente aparece como homosexual. «Maricón» continúa siendo el principal insulto en el espacio público y los hombres están aterrados con perder un ápice de su virilidad.

Beatriz Preciado, en el Hotel Condes de Barcelona, el pasado viernes.

–En la cultura de masas hay ejemplos de ambigüedad sexual. Lady Gaga es uno. ¿Podría ser una rendija por donde introducir el cambio?
–Es sintomático que aparezcan personajes como estos. Lady Gaga es como una válvula de escape, una heredera de la cultura transgénero y de las estéticas camp drag queen. Pero en el otro extremo está, por ejemplo, el hip hop, que promueve un discurso muy sexualizado. Harían falta 50 Lady Gagas.
–¿Qué opina de la pornografía?
–Produce gran cantidad de modelos de género, de sexualidad y de raza. La pornografía convoca un conjunto de códigos que casi siempre son normativos. Y estos modelos se mundializan con la participación de internet.
–¿Y qué le parece que cualquiera pueda acceder a estos contenidos gracias a la red?
–Igual que si pueden acceder al Telediario o a El Rey León. Las narrativas son similares. Yo recuerdo como más traumática la matanza del cerdo que el Interviú.
–¿Cuáles fueron sus primeros referentes?
–Mi primera lectura feminista fue El cuerpo lesbiano, de Monique Wittig, un libro que encontré en una librería burgalesa de segunda mano. Y el jesuita Juan Masiá, un pensador magnífico y un ejemplo de pluralismo y de capacidad crítica.
–También participó en Estados Unidos en el movimiento queer… [que afirma que las identidades sexuales no existen]
–Sí. Ahora casi todo el mundo está preocupado con la búsqueda de la felicidad. A todos ellos les diría que si no han experimentado el placer  colectivo de la micropolítica no saben lo que es la felicidad. Ojalá el movimiento generado por el 15-M pueda ser un momento de experimentación.
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UN MOMENTO                                     por Virginie Despentes (*)
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La Jimi Hendrix de la filosofía
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La primera vez que escuché a Preciado dar una conferencia fue en Bourges, en Francia. Comprendí rápidamente que aquello funcionaba como un concierto de rock. Empieza despacio  –al principio de una conferencia parece un animal bajo los efectos de la morfina– y avanza lenta pero segura como un antílope bajo el sol de agosto hacia un río. No importa de qué hable, filosofía política o pornografía, todo parece sencillo, necesario, nada resulta violento, nada es brutal. Cuando Beatriz  toma la palabra, lo primero que impacta es la elegancia de su inteligencia. Lo que prima es el ritmo del pensamiento. Quizás por eso, el que la oye hablar sobre feminismo, biopolítica o sobre la industria farmacéutica, paradójicamente se relaja, como si fuera a pasar un momento agradable, porque no sabe lo que le espera.
Yo la he visto mil veces, frente a una audiencia casi hipnotizada, ha-ciendo que las ideas giren 360 grados. De repente, no se sabe cómo, hace que  algo que estaba cerrado se abra, como si tuviera la capacidad de inventar conexiones inéditas para nuestras neuronas. La sala entera queda sacudida. Si tuviera que resumirlo diría: hacer cosas con palabras. Escucharla es como ver mutar a un híbrido, capaz de cambiar de idioma, de género, de especie.
Beatriz Preciado es como un Jimi Hendrix de la filosofía, un guItarrista de los conceptos que se mueve entre sexo y revolución, dejando el espacio justo para la risa. Nada es estable ni fijo, cuando la palabra se pone en marcha, todo es posible. Su proposición: no basta con sobrevivir, ni con superar la vergüenza. El entusiasmo en estado puro.

* Voz del feminismo punk y autora de ‘Fóllame’ y ‘Teoría King Kong’. 

A presidenta e o “kit gay”

maio 27, 2011

Nesta semana a presidenta Dilma Roussef, aquela a quem costumavam referir-se, como a todo o partido do qual faz parte, como “aliada da causa LGBT” deu um presente para nós: ordenou que fosse suspendido o kit anti-homofobia do Ministério da Educação. Até o momento ninguém ouviu falar em telefonema do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, ou melhor, do nosso adorável Lula, dando as condolências ao presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Toni Reis, por esta apunhalada coletiva. É o que era de se esperar de um amigo, uma vez que Lula fez questão de parabenizar Toni pela oficialização da união com o seu companheiro, num ato simbólico que saudou e comoveu a comunidade LGBT.

Dilma, ela própria vítima da heteronormatividade ao ter sua sexualidade posta em questão diversas vezes durante a campanha de eleição presidencial devido à sua masculinidade feminina (embora esse pareça ser um tabu), deu a alcunha do kit anti-homofobia de “propaganda de opção sexual” – o que de fato faz do kit anti-homofobia um “kit gay”. Será que a presidenta já ouviu falar em marketing social? Ou ela acha mesmo que combate à discriminação seja a mesma coisa que fazer com que o grande público compre a ideia de que estamos vivendo cada vez mais num país de todos?

A atitude leviana da presidenta revela não apenas o descaso com os direitos humanos como também a importância crucial da educação na cultura de um povo. Por isso tanta pressão, do lado de cá e do lado de lá. Aliás não estou certo se seria realmente exagerado afirmar que a diferença, pelo menos até antes desse pronunciamento, entre Bolsonaro e Dilma Roussef é que nós sabemos o lado em que Bolsonaro está.

Ao dizer que sexualidade faz parte da vida privada do indivíduo, Dilma, além de ignorar décadas de movimento feminista (como o próprio movimento, cujo pressuposto é justamente o contrário), também ignora a violência que ceifa as vidas que não importam e reduzem-nas a números que maculam a imagem do Brasil.

Ainda que aleguem que ela foi supostamente ludibriada por fundamentalistas – o que é de um risível amadorismo – o discurso que nos marcou não foi de uma presidenta de uma nação, mas de uma gestora de conchaves.

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Para cada legislação o seu protesto

maio 24, 2011

Eu ainda não sei se no dia 7 de maio houve propriamente uma “Marcha” da Maconha no Porto. O que vi foram muitas pessoas reunidas em rodinhas a fumar seus baseados nas gramas do Marquês. Todo mundo tranquilinho, como se nem houvesse o que reclamar. E não quero dizer com isso que não aconteceu uma manifestação. Tanto aconteceu que, na padaria por que passei ao chegar, uma funcionária perguntou para a outra o que era “aquilo”, ou seja, qual o propósito da tal aglutinação de pessoas.

Referi-me propositalmente de modo redutor sobre a reunião em rodinhas porque foi a primeira coisa que chamou-me a atenção na Marcha da Maconha à portuguesa. Aqui os coletivos não precisam se reunir na casa de alguém antes da Marcha para fumar. De fato não há nada mais estranho para o maconheiro do que não fumar maconha na Marcha da Maconha, é como ir à Parada Gay e não poder beijar uma pessoa do mesmo sexo, não poder celebrar a diferença. No Brasil, essa privação é condição primordial da realização da Marcha.

A outra diferença é que não escutei cá nenhuma palavra de ordem; o que denota, ao meu ver, uma falta de urgência no protesto. Ora, ainda que tenha uma série de questões a ser reivindicadas, como a legalização em si, Portugal possui uma das legislações de drogas mais avançadas do mundo: aqui ninguém precisa “ficar no saci” quando fuma em local público, ninguém é levado para uma delegacia por que foi pego fumando um baseado. Ninguém “é pego” fumando um baseado.

Em comum com outras lutas por direitos humanos, a Marcha da Maconha reivindica a liberdade, e quando o faz está reivindicando um modo particular de ser. Se em Portugal a exposição da prática de rodas de fumo são a própria manifestação, no Brasil a possibilidade mais evidente de nos manifestarmos é através do discurso: o discurso é a nossa arena. Por isso me parece impossível fazê-lo quando situam a palavra maconha no interdito.

Nada me espantaria se o vídeo abaixo tivesse sido extraído do período ditatorial, mas me entristece muito saber que isso aconteceu ontem. E me entristece mais pensar que nessas horas desaparecem todos os “defensores da democracia”, ou que isso jamais chegará a ser um assunto grave.

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Casamento gay no Brasil: uma questão mal resolvida

maio 5, 2011

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“Eu, bandoleiro
Eu, o proscrito
Eu, o fora da lei
E o que fazer
Eu quero, eu quero, eu quero”

Sueli Costa

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É sabido que nos últimos dias foram divulgados os números do Censo 2010 – o mais profundo levantamento de dados demográficos do Brasil – que, pela primeira vez, vale dizer, em sua décima segunda edição, levou em consideração a união entre pessoas do mesmo sexo. Logo de pronto somos confrontados com uma questão, para mim primordial: o que nós, LGBT, desejamos fazer com estes números fresquinhos?

Não tardou muito e a resposta apareceu na declaração de uma das figuras mais autorizadas no Brasil a falar da (e pela!) comunidade LGBT, nomeadamente o fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), Luiz Mott. Ele defende que “os dados destroem o estereótipo do gay promíscuo”, ao passo em que “mostra uma realidade muito semelhante à união entre os heterossexuais”. Ora, o que fez o antrópologo senão uma interpretação fortemente embasada em parâmetros morais? Ao positivar a experiência da união conjugal e rechaçar a imagem (aquela que deve ser destruída) do gay promíscuo, acabou por “dar um tiro no pé”, e, a partir da enunciação da promiscuidade, sustentou o discurso de uma sociedade que determina minuciosamente os modos pelos quais devem ser geridos os nossos corpos e desejos, sendo a instituição do casamento apenas um – e não menos importante – exemplo.


Quando o decano do Movimento LGBT do país poderia utilizar-se da posição privilegiada para desconstruir certos preceitos morais, que aliás servem de fundamentos para a própria homofobia, ele optou por dizer que o estereótipo do gay promíscuo nos envergonha, que somos tão normais quanto os heterossexuais. Façamos um exercício e pensemos por um momento quem são os mais vulneráveis a homicídios homofóbicos no Brasil. Por um acaso seriam aqueles que vivem em união estável? O que quero com isso dizer é que vivemos já numa sociedade em que a não assimilação pode custar-nos a vida, e portanto devemos estar atentos às estratégias discursivas com que julgamos combater o preconceito.

Trocando em miúdos, afirmar que os dados advertem a sociedade (heterossexual) que não somos promíscuos, não apenas é pressupor que somos todos monogâmicos, como é dar margem à uma hierarquia em que aqueles que optam pela monogamia são superiores aos demais. E porque superiores? Por que são como os heterossexuais. É ainda atirar ao lixo a possibilidade de constituição de novas conjugalidades e uniões não circunscritas à norma, e, para ser exato, impossibilitar a articulação de uma “cultura sexual radical”¹.

É desse jeito que queremos legalizar o casamento gay no Brasil?

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¹ BUTLER, Judith. O parentesco é sempre tido como heterossexual?. Cad. Pagu [online]. 2003, n.21, pp. 219-260. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332003000200010&lng=en&nrm=iso.

Homens do Norte

abril 12, 2011

Quando eles entraram no metrô eu não pude conter, em desabafo para o meu amante, aquela velha conhecida e redentora interjeição “Nossa [Senhora!]…”, a qual, quando vinda de mim, esteja certo de que há “coisa boa” nos arredores: toda atenção é pouca. Dessa vez não foi diferente, mas foi. Acompanhado por seu amigo, o moreno de camiseta regata logo percebeu que havia chamado a minha atenção. Durante o trajeto, além de observar admirado os seus próprios músculos – gesto aliás recorrente nos mais exibicionistas – ele via pelo reflexo do espelho (pois que estava sentado paralelo a mim, embora do lado oposto) que eu de fato havia me curvado a fim de apreciar, junto a ele, o seu corpo mais ou menos “trabalhado”. O que me parece é que nesses momentos alguns rapazes, geralmente os menos inibidos e mais auto-confiantes, sentem-se instigados, em concordância com o admirador, a adorar-se, como quem diz “eu sei que sou gostoso” ou “eu (também) me comeria”. Neste ensaio um quão autofágico, a impressão passada pode ser de um consentimento tácito ao olhar que devora, oriundo da compreensão e de um sentimento de justiça por ser ele objeto de desejo.

Ao chegar na estação de destino, os rapazes levantam-se e aquele a quem eu observava com devoção encara profundamente a mim e ao meu namorado, que costuma portar-se com o seu desejo, bem, de maneira discreta. Eu não distingui com exatidão o significado daquele olhar, mas assim retrospectivamente eu acho que continha um misto de estranhamento e de tentativa de intimar-nos, agora que ele estava bem de frente à nós, que estávamos sentados ao lado da porta do metrô. Sei que achei engraçado aquele olhar um bocado inquisidor, e ri-me, como naturalmente rio em muitas situações de enfrentamento. Acho de qualquer modo que ele não gostaria de ter-me provocado riso e pode mesmo tê-lo interpretado como deboche. Foi então que insultou-me, ou melhor, chamou-me repetidamente de “paneleiro” (a correspondente lusitana de viado, bicha, marica, queer) e disse mais algumas coisas que não consegui escutar. A minha reação? Eu estava impassível. Não contente com a indiferença, ele voltou e cuspiu-me toda a saliva que acumulou no intervalo de tempo entre a porta do metrô abrir-se e outra vez fechar-se. As pessoas ficaram assustadas e deixaram escapar expressões como “Oh…”. De tão inusitada a situação, permaneci impassível, enquanto meu namorado, este mais afligido, limpou-me algum resquício de cuspe que ficara no meu rosto. Enquanto isso, o tempo-trivial tomava conta mais uma vez do metrô e as (não muitas) pessoas que lá estavam, aos poucos, uma a uma, esboçavam feições de “ele fez por merecer”, como se alguma ação que realizei durante o percurso, ou quem sabe uma condição ontológica, autorizasse o gostosinho a submeter-me àquela situação vexatória e humilhante.

Deixei o metrô no lixo, sub-local que não é nenhuma novidade para nós. Logo na saída da estação, um rapaz corria em direção a mim e ao meu namorado, que caminhávamos de mãos dadas. Já alarmados, soltamos as mãos e olhamos pra trás, mas o pobre rapaz corria por qualquer outra razão, não nos queria agredir. O aprendizado de temer não é dos melhores. E digo aprendizado por que, até que me aconteça algo, eu nada sei a respeito do mundo. E essa não é a filosofia do risco. O risco existe para mim hoje, que não quero estar de mãos dadas com um rapazinho à meia-noite. No caminho de volta à casa, eu compreendi que aquele jovem, que devia contar com os dezenove ou vinte anos, cuspiu-me para fazer-se homem, e consequentemente superior a mim, capaz de colocar-me no meu devido lugar: de escória.

Ao relatar o caso a um amigo português, ele rogou-me “Por favor, Maycon, não olhe assim para os rapazes do Norte”. E no fundo eu sei que a primeira mulher em que percebi a expressão facial compreensiva ante à agressão, vale dizer, em concordância com o homem, pode ter sido a mãe que a dois dias atrás, igualmente no metrô, tapava o rosto da criança, do menininho, para que ele não visse a indecência que era a minha mão pousada sobre a perna do meu namorado. Ou para que a visualização dessa cena não o desvirtuasse das dignificantes lições dos homens do Norte*.

* Decidi manter essa alcunha, além de fins estéticos, como uma provocação acerca de imaginários e identidades masculinas em Portugal. Evidentemente não sou da opinião de que todo homem do Norte é homofóbico.

Como um objeto não-identificado

fevereiro 15, 2011

Sexta-feira foi o dia em que decidi finalmente comprar um objeto que há algum tempo sinto vontade de fazer uso enquanto experimentação erótica. Vamos eu e uma amiga a um sex shop bracarense, voltado para todo tipo de público (senhoras beatas etc), para então buscar um dildo, a tal ultra-sofisticada prótese. Afinal estava em dúvida se levava um vibrador ou um sem esta habilidade. Ainda a título de experimentação – sem com isso utilizar o termo com o desejo de isentar-me de uma possível constatação de que faço/faria uso cotidiano – poderia voltar dias ou meses mais tarde para comprar o outro, então no fim das pouca diferença faria. Fato é que resolvi ficar com um vibrador cor-de-pele, embora hoje, caso pudesse voltar atrás, já não escolheria essa coloração (a única disponível), mas não adentrarei na questão neste post.

Ok, a simpática atendente – não conheço outros sex shops, mas suspeito que também nestes existam simpáticas atendentes – pôs a minha aquisição, conforme manda o figurino, numa plástica e “discreta” embalagem, a qual caiu-me como uma luva, afinal tratava-se pois de uma embalagem discreta para um jovem discreto. Entretanto, se por um lado estou certo de que a segunda é bem aplicada, o primeiro atributo de discrição chega a ser questionável: eu poderia fazer compras em todo o centro comercial de Braga e certamente nenhum ofereceria-me o produto comprado numa embalagem preta. Tudo bem, ainda para fins de tão almejada discrição, coloquei a sacola na bolsa da minha amiga e em seguida fomos a um supermercado comprar mantimentos nada eróticos, embora eu não ache o supermercado pouco erótico por assim dizer. Eis um ambiente em que os nossos olhinhos pode mover-se a todo o tempo sem maiores cautelas. Para todos os efeitos, estamos sempre à procura daquela marca em que confiamos.

Feitas as compras, agradeci à minha amiga pela gentileza em guardar o meu dildo de estimação e pedi-lhe que, para que eu não o esquecesse, o pusesse no meu carrinho de compras, pois é evidente que já naquela noite gostaria de explorá-lo pelo menos visualmente, namorá-lo. Com a chegada do táxi, colocamos as minhas compras no porta-malas e o taxista segura a minha discreta – mas de contornos duvidosos – embalagem preta, a pondo igualmente no fundo do carro. Já em casa, enquanto retirava dos sacos plásticos os mantimentos comprados, dou-me conta da ausência da singela sacola a que dispensei tanto cuidado e atenção, certamente sob efeito do imagético discurso da discrição. É claro que, ao imaginar a expressão estupefata do taxista ao encontrar aquele produto no seu carro, minha primeira reação foi de riso. Certamente um cliente mais discreto que eu deixaria para trás os dezesseis euros investidos naquele objeto. Porém, até pela curiosidade com o decorrer da situação, não foi a atitude que adotei. Pelo contrário, tratei de ligar imediatamente para o taxista. Entretanto liguei para um colega de trabalho daquele que trouxe-me em casa, que foi na verdade quem primeiramente contactei para buscar-me. Informei portanto que havia esquecido uma “embalagem” no carro do seu colega e que por gentileza entrasse em contato com ele.

Não obtive retorno. No dia seguinte, um sábado, ligo novamente para o taxista, que espantou-se pelo fato do seu colega não entrado em contato comigo, então disse que falaria mais uma vez com ele e que logo eu receberia uma ligação do mesmo. O taxista em questão liga-me e diz que mandaria entregar-me a tal embalagem, contudo eu teria de custear a corrida. Eu disse que sem problemas, mas que o chamaria no domingo pois naquele momento eu estava, como sempre, descansando. Assim sendo, ainda contando em recuperar o meu dildo perdido, ligo no domingo e peço que enfim tragam-me a embalagem (nunca o objeto) em casa, ao que ele desculpa-se pois que algum cliente utilizou o porta-malas e acabou por levar consigo a minha embalagem sem que ele se desse conta. Enquanto eu apenas escutava, com aquele pensamento “tava muito bom para ser verdade”, o taxista completa falando que se responsabilizaria pelo furto e perguntou-me quanto custou o produto, cuja nota fiscal estava na embalagem. Eu disse o valor e ele respondeu-me que então passaria na minha casa, o fazendo em seguida sem sequer descontar o valor da corrida, a qual foi necessária para reparar a minha própria desatenção.

Ao relatar toda esta anedota para o meu amigo hétero, que por acaso é português, ele julgou estranhíssimo o fato do taxista ter vindo aqui pagar-me pelo objeto e levantou a hipótese de que no durante ele resolveu ficar com o produto para si. Se foi mesmo o caso – que escolhi acreditar por desconhecer o suposto cliente que levou o meu dildo – o taxista deve ter ficado muito grato pelo meu esquecimento, que acabou por poupá-lo de encontrar pelo caminho uma solícita atendente. Curiosamente ou não, pois afinal isso é apenas uma especulação ilustrativa, dia 14 de fevereiro é o dia de São Valentino. No dia dos namorados em Portugal eu fiquei sem o meu dildo.


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