Proibiram que

Julho 2, 2009 por Maycon Lopes

Pela primeira vez senti o efeito do “É proibido fumar”, ou melhor, de forma assim veemente, e logo onde aprendi a fumar: na mesa de bar. Ora, é bem verdade que fora precisamente lá onde aprendi, mas este hábito, não em termos de bem ou mal, acabou por se ramificar por toda uma existência, que lhe pedia somente um trago. O dono bar apostou, como bom sabedor das cousas, que a lei não vai vingar. A lei seca foi assim, ou não? Manchetes, repentina mudança de hábito: repentina e ligeira. A lei no mais das vezes se mostra uma grande mentira, espírito queer-anarquíco diz. Portar cigarro de maconha e ser preso é uma mentira. Indústria farmacêutica derramar amostra grátis dos seus psicofarmácos é uma verdade, e das mais cretinas. O meu amigo foi preso por portar uma quantidade “inocentemente” mínima de cigarro-heterodoxo, e constava na sua catalogação criminal réu: fulano de tal, vítima: sociedade. Mas que sociedade é esta? Vítima do quê? Quem disse, quem fez a vítima? Cadê este sujeito sociedade que é vitimizado, esta substancialização da mais estúpida, e tão estrategicamente reivindicada. A sociedade o vê realmente como ameaça, o vê? É a sociedade que me diz informalmente que o filho da vizinha é “de boa, só fuma o baseado dele”, ou é a sociedade que o chama de “bróder”. Qual sociedade? Eu sou das margens. Eu sou margem.

São tantas já vividas

Junho 15, 2009 por Maycon Lopes

Não  me cabe aqui aqui discutir as razões pelas quais faltaram a noite (e que noite!) Elas cantam Roberto, cantoras como Rita Lee, com a sua visível inclinação ao “róque tutti frutti”, Gal Costa e sua assinatura (Meu nome é Gal), de composição de Roberto e Erasmo, Maria Bethânia, a primeira dentre os “velhos baianos” (Caio, Gil, Gal e Berré) a curtir a Jovem Guarda, sem falar no seu trabalho As canções que você fez pra mim (1993), show a ser lançado em DVD ainda esse ano pela Biscoito Fino, Marisa Monte, que desde o início da carreira  revela influência do Rei, de quem é mais uma admiradora-confessa, e Simone, que também desde sempre sempre canta o Roberto romântico, o Roberto das declarações, o Roberto dos amores. Quer dizer, todas elas cortadas em suas singulares trajetórias artísticas pela obra de RC.

Numa dessas noites da nossa casa, o Recanto Vera Varandas, discutíamos eu e Marcelo sobre o quê de enigmático que paira, que ronda a figura do Rei, e talvez seja mesmo por isso que, ainda que com um obstinado apelo midiático, há algo em Roberto, como naturalmente em todo ser, que resiste à mais humana vontade de saber sobre, de dissolver mistérios. Como disse um/a autor/a cujo nome não me lembro, o artista e a sua peculiar (e estampada) excentricidade poderia então ser considerado um protótipo da noção moderna de indivíduo.

Pois bem, para o meu pouco imprevisível desgosto, as interpretações de Mart’nália (um curioso sambar Roberto Carlos?), Adriana Calcanhotto e Marina foram cortadas pela edição do programa que foi ao ar, ficando obscurecidas até que seja lançado o DVD da noite. Junto a elas, a contragosto do Rei, Celine Imberte, Rosemary e a eterna jovem Paula Toller, que, indignada, escreveu no seu blog que “estava muito triste e frustrada, principalmente por não ter recebido nenhuma explicação ou sequer um pedido de desculpas da direção do programa”. Ora, em contrapartida, Ivete Sangalo abriu e fechou a “cerimônia”, com direito ao assédio da câmera à gestação que vingou.

Mas para mim, passando pela melada superafinação da Sandy, a nossa debutante, pelo descomedido arrastar de voz da Ana Carolina, pela queridinha-do-Brasil Claudia Leitte, sem contar com o misto de delírio esquizofrênico e incorporação de uma bruxa de qualquer musical infantil da Marília Pêra, Elas cantam Roberto já valeu pelo Desabafo da Fafá de Belém, que, com toda a força que possa esse verbo carregar, arrasou. Já Sua estupidez, depois da arrebatadora interpretação de Gal Costa no seu manifesto Fa-Tal (Gal a todo vapor, 1971), pertencia no mínimo a uma Marrom, e à sua emblemática embriaguez de dama na fossa. Nana Caymmi, em interpretação igualmente antológica, fez de Não se esqueça de mim uma súplica-canção, uma espécie de último suspiro, ou de redenção.

Fafá esbanja bom-humor

Fafá esbanja bom-humor

O fim da noite, como não haveria de ser diferente, ficou por conta de Como é grande o meu amor por você — o seu romantismo mais universal – quando, em número coletivo, para “lambança” generalizada, o Rei reuniu entre si (e só para si) todas aquelas mulheres. Melhor que isso, só perceber como, além de ter marcado a obra do Rei com o que cada uma delas possui de idiossincrático, estavam todas de algum modo à vontade, vide Fafá de Belém que com as suas inadvertidas gargalhadas. No fim das contas, noites como essas só reafirmam uma antiga predileção: o Brasil é das intérpretes.

Bethânia e Ivete fizeram

Junho 9, 2009 por Maycon Lopes

O pouco (ou nada) modo com que conduzo a vida jamais me permitira fazer parte da turma dos que desconfiavam de que Ivete Sangalo chegaria mesmo longe. Felizmente, não tão longe ao ponto de não podermos escutá-la. É por isso que não omitirei aqui o fato que vem à tona: a debochada filha de Juazeiro acertou na musicalidade.

No estúdio da sua “modesta” cobertura no Campo Grande, qual não foi a minha surpresa ao ver que ela — veja bem, Ela — a própria Abelha Rainha, fez derramar, entoar o seu mel, e se permitiu objeto de prazer, glória e declarada devoção (ou “rasgação de seda”) por parte da “Veveta”.

Num trabalho que reúne nomes com tão poucas familiaridades entre si, tais quais Lulu Santos, Mônica Salmaso, Carlinhos Brown, Marcelo Camelo, e, como se não bastasse, o grupo Aviões do Forró, não tenho dúvida de que a grande estrela, depois da endiabrada anfitriã,  chama-se ninguém menos, ninguém mais que: Maria Bethânia.

A sua atual aparição, evidentemente, nada tem da sisudez de um Cárcara, porta-bandeira do seu terrível pouso no Teatro Opinião em 65. Ao contrário, Bethânia me chega com o seu jeito particularmente sereno e com certo tom de despojamento e delícia — tão à vontade, aliás, quanto se mostra a sua inédita — e demasiado versátil — parceira musical.

Axé Odô!

Axé Odô!

Embora Bethânia houvesse declarado, na sua antológica — e também por isso — polêmica entrevista à Revista Playboy em novembro de 96, que não apreciava, ou melhor (para ser fiel às palavras da Berré), que não suportava a Axé Music, mas canta (versão dispoível no 4shared) de forma muito bonita, no show As Canções que você fez pra mim (1994), a música Adeus bye bye, gravação da Banda Eva no início na década de 90, quando o que na verdade ela dizia era um olá ao Axé, ao que veio dar na Axé Music. Ao fim de Adeus bye bye, Bethânia solta um “Salve, Ivete Sangalo!”. Muito obrigado, Axé não por acaso é de Carlinhos Brown, cuja melhor definição do músico, instrumentista, compositor e mais uma série de atributos, não haveria como a descrição da comunidade do orkut homônima, em homenagem ao Brown, que completa 30 anos de carreira, com um relevante e sempre renovador lugar na história da música baiana, quer dizer, pós-baiana. No show Âmbar (1996) Bethânia cantou Queixabeira, que é a sua cara também, e composta por Brown.

Na mesma entrevista a Playboy, Bethânia diz que Daniela Mercury tem talento, mas uma “musiquinha que não é nada”. Na Lavagem da Nossa Senhora da Purificação, já em 2007, as duas dividem o palco na terra dos Veloso, onde declarar-se gostar do trabalho da Daniela (ou mesmo se da Ivete) não signifique uma filiação à Axé Music. Aliás, que filiação? Bethânia não filia-se a nada, é bom lembrar que nem mesmo à Tropicália ela vinculou-se. Sei que, ainda assim, vale o agradecimento de Ivete Sangalo ao Axé, na verdade, sendo ou não povo de santo, foi gostoso apreciar a (que eu lembre) primeira  gravação sua que remete tão explicitamente ao candomblé. As próximas vozes que se encontrarão com Bethânia serão a Mercury e a Margareth Menezes, que gravarão juntinhas a canção Oyá por nós, também ref/reverenciando um orixá — no caso, a Senhora dos Raios e Ventos.

Pelo visto, só faltava o convite, a presença, o encontro: Bethânia está para o axé assim como Caetano está para o pagode baiano? Resta-nos saber se.

Vigilância insone, portão entreaberto

Abril 17, 2009 por Maycon Lopes

“Minha política é meu corpo, provendo e se expandindo com cada ato de resistência e com cada um de meus fracassos”

Adrienne Rich

Estava eu e mais dois amigos hoje umas quatro da tarde deixando a UFBA/Ondina pelo portão principal, quando havia um grupo de seguranças (que velam somente pelo patrimônio, vale frisar) entre risos e conversas, quando um deles comentou “olha, que coisa meiga”, claro, em tom de deboche, se referindo a mim, que, a título de curiosidade, como se não bastassem-me as madeixas, estava trajado numa calça com listras vermelhas e brancas, camiseta azul-turquesa desbotada (do tipo baby-look) e uma rústica bolsa capanga. Com tais vestes, no mínimo uma meiguice achariam. Não sei sou exatamente meigo, mas me sei itinerante entre gêneros, e certamente a sua fala foi uma denúncia da minha ousadia, mas não só numa liberal democracia pode ser interpratada como sanção a um evidente “desvio” à norma. Felizmente ou não, não escutei a voz do VIGIA, um dos meus amigos relatou o seu comentário quando já estávamos um pouco distante da Universidade, fato que me levou a não ter ânimo para voltar, mesmo porque tenho certeza de que me aborreceria muito com aqueles homens, e a minha defensiva momentânea foi calar o que nem mesmo cheguei a ouvir. Caminhei mais um pouco, e me arrependi de não termos voltado. Me senti um pouco covarde, por uma lamentável atitude de conformismo, porque senão todos os dias, quase todos os dias, com um olhar que seja, como tantas e tantos, sinto a soberania do meu corpo ameaçada, e olha que nem sequer toquei na temática da sexualidade, mesmo que ela esteja implicitamente articulada com o discurso de regulação do corpo. Ironicamente, havíamos concluído (mas não esgotado) o estudo do livro Problemas de gênero, da Judith Butler, no qual, discutindo com outros/as autores/as, ela verifica a incessante tentativa do sistema de heterossexualidade compulsória em vedar as superfícies do corpo, tornando assim, o sujeito inteligível dentro de limitadas permeabilidades. No entanto, como os seguranças da Universidade puderam constatar, o binarismo entre homem e mulher é uma ficção, sendo que reside sobretudo no nosso corpo, que é sempre contingente, a potencial subversão das categorias do gênero, que só o é enquanto atos performativos significantes.
Fui caminhando, maturando o acontecimento e processando a sua repercussão reflexivamente. Preocupante onde quer que seja, mas o é ainda mais nesse espaço social que nos é cotidiano. Inadmissível ser tratado de tal maneira, ainda mais por alguém que presta serviço (seja ou não vinculado formalmente) à própria instituição. Enfim, eu gostaria de compartilhar convosco tais angústias, sobretudo a de ter-me calado diante disso…

“Ser marginal foi uma decisão poética”¹

Dezembro 10, 2008 por Maycon Lopes

Brasil pós-ditadura, línguas inibidas e ressaqueadas da censura: sua rouquidão e afetação oitentista gritava um blues metido a rock e contestava o simulacro da moralidade daquele grupo social — embora morasse numa cobertura em Ipanema, Cazuza não comungava de certos valores burgueses.
Levando às últimas consequências a máxima “Seja marginal, seja herói” (do Hélio Oiticica, que influenciou sobremaneira a estética tropicalista), Cazuza incorporou dimensões poético-políticas na sua arte, e ressignificou, com os ânimos da sua geração, o processo de visibilidade ao já maltratado trinômio “sexo, drogas e rock’n'roll“, que, no fim da década de 80, vê a cara da morte, estando ela viva.

"Hoje eu acordei com medo, mas não chorei"

Na edição de 29 de abril de 1989, a Revista Veja publica uma ultrajante capa com uma fotografia demasiado abatida do rosto de Cazuza e a manchete-espetáculo “uma vítima da Aids agoniza em praça pública”, com todo o peso da severa (e injusta) demanda de servir de exemplo, ou precisamente aquele exemplo que não deve ser seguido; aliando o hedonismo à doença, o prazer que “agora é risco de vida”, e apresentando “a AIDS como um efeito necessário ao excesso sexual” (WEEKS, 1999), além de vieses como a própria sexualidade do cantor e compositor e do seu uso de substâncias psicoativas, vide a antiquada denominação “grupos de risco”.
Com uma série de recrutamentos exercidos pela mídia, Cazuza foi uma das primeiras pessoas públicas a assumir-se soropositivo, e tornou-se de fato marco no que conhecemos como “crise da AIDS”, a começar pela própria produção artística após a descoberta da doença, na que desabafa, numa época em que pouco se sabia em relação ao vírus HIV, a angústia desencadeada pela ameaça da morte, porém refletindo não a enfermidade, mas a vida (“… louca, vida”), como a força motora do poeta desembaraçado.

¹Artigo encomendado devido ao 1º de Dezembro, Dia Mundial de Combate à AIDS.

Referência bibliográfica:

WEEKS, Jeffrey. O corpo e a sexualidade. In: LOURO, Guacira Lopes (org.). O Corpo Educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

O ciúme é muito pior

Novembro 22, 2008 por Maycon Lopes

O ciúme é muito pior. Era assim intitulada a mensagem que dizia que “ciume de viado é muito pior do que de homem com mulher e mulher com homem viu . se cuida gays . o amor de voçes . levam a morte. que coisa terrivél. um homem amar tanto outro ao ponto de matar . que horror . que cena macabra marido mata marido . triste demais. se cuidem viu . toma cuidado com este amor de voçes ai caras .tanto homens como mulher” (comentário extraído de http://www.aratuonline.com.br/noticia/16384.html).

O/a autor/a — com licença, fidelidade à vulgar expressão dos noticiários policiais — que prefere não identificar-se, fora taxativo/a: “o amor de vocês leva à morte”. Não hesito ao afirmar que encerra nessa oração uma genuína advertência às comunidades LGBTs, que, além de experimentar a vulnerabilidade social e, assim, o risco de ser vítima de crimes motivados pela homofobia, deve cuidar-se, ou precisamente evitar o “estar amante”, a fim de não tornar-se (também) vítima de um amor específico, que perde o eminentemente encanto da construção social desse sentimento, e passa a oferecer perigo, sobretudo ao ser amado.

Nada obstante, no que se refere às manchetes policiais envolvendo homossexuais, a grande mídia as veicula de modo a enfatizar na sua enunciação a sexualidade dos/as atores/atrizes, de modo a reificar (não posso afirmar que foi a mídia que fundou tal estigma, embora em parte desconfie) o imaginário de que o amor entre nós é pernicioso. Assim, lemos “Homossexual acusado de matar ex-namorado de companheiro é preso” (G.N.), e não simplesmente “Acusado de matar ex-namorado de companheiro é preso”. Me parece ainda que a palavra “homossexual” na construção em vidência poderia ser tranquilamente substituída por “comerciante”, ou qualquer que fosse a profissão exercida pelo sujeito.  Percebemos, então, a centralidade que a sexualidade ganhou ao longo do século XX, e como o dispositivo heteronormativo é devidamente acionado, vigiando e punindo — nesse caso, literalmente, como uma sanção, protagonizada pela mídia, por duas infrações: a de matar (quiçá em segundo plano) e a de ser homossexual. 
As mitificações, como turvos olhares sobre o Outro, a respeito deste ser, o/a homossexual, são muitas e por vezes ambíguas ou mesmo contraditórias. A um só tempo, a sociedade, que desconfia da nossa promiscuidade e reivindica-nos a monogamia, acredita sermos grupos de risco (também) para o crime passional. Ambas as suposições nos aproxima da esfera mais, por assim dizer, instintiva, do impulso, tanto sexual, quanto afetivo, das emoções tão desmedidas que incontroláveis. Desregulados, desreguladas.
Como disse um velho amigo, eu bem que queria saber amar assim, perdidamente.  

Primeiro mote, ou quem pode falar

Novembro 17, 2008 por Maycon Lopes

Essa página, que fora criada ontem por mim, visa constituir um espaço onde eu possa livremente manifestar a minha opinião sobre temas de relevância ou mesmo trivialidades cotidianescas.

Léo Kret na sua atividade profissional
Léo Kret na sua atividade profissional

Desde a polêmica gerada acerca da eleição da Léo Kret, a qual diversas vezes — a maioria delas, não por iniciativa minha – tornou-se pauta da discussão de grupos em que estive presente, emito a minha opinião em atenção à certa especificidade da cultura política soteropolitana que a elegeu. Então, embora o tema certamente já tenha exaurido parte dos/as possíveis leitores/as desse espaço, vejo como uma boa oportunidade de ensaiar um prelúdio do mesmo, tomando como ponto de partida a entrevista concedida pelo professor Dr. Luiz Mott ao jornal A Tarde, publicada no último domingo (16).

Gostaria de comentar outros trechos da entrevista, talvez o faça. No entanto, por hora, pretendo limitar-me a essa questão:

“_Vocês se arrependem de não terem apoiado Leo Kret nas eleições para a Câmara Municipal?
A Leo Kret frequentou durante três anos o projeto “Se Ligue”, do GGB, indo a mais de 100 reuniões. De modo que o que ela sabe hoje sobre direitos humanos, homossexualidade e AIDS, foi no GGB que aprendeu. As primeiras entrevistas, os primeiros vídeos, foram feitos na sede do GGB. O Marcelo Cerqueira chegou até a oferecer a ela uma roupa para que ela desfilasse certa vez e na parada de 2007 ela recebeu a faixa de fadinha e esteve no alto do trio principal. Porque nós sempre apoiamos e tentamos ensinar a Leo Kret a ser uma pessoa de respeito, com menos espalhafato e mais conteúdo. Mas jamais qualquer pessoa em sã consciência indicaria um jovem de 23 anos, com pouca escolaridade e sem nenhuma formação política, para representar a comunidade homossexual na Câmara de Vereadores. Leo Kret, objetivamente, não tem o perfil de uma liderança comunitária, embora tenha recebido os 12 mil votos, sobretudo de pagodeiros e pessoas que, segundo a interpretação de inúmeros cientistas sociais com quem conversei, representa um voto não de protesto, mas de esculhambação, como em São Paulo as velhinhas elegeram Clodovil, não pelo fato de ele ter um projeto político dos homossexuais, mas porque muitos heterossexuais gostam do gay efeminado, espalhafatoso, palhacinho, etc. Eu tenho certeza que Leo Kret vai fazer um ótimo mandato. Basta que seus assessores copiem as 300 e tantas ações afirmativas aprovadas na conferência LGBT e que essas propostas sejam apresentadas e aprovadas. Mas nem os próprios assessores gays ou representantes do movimento LGBT da Bahia votaram em Leo Kret. Não fui apenas eu ou o GGB a dizer que ela não representa o movimento, mas vamos para a realidade que, eleita, estamos apoiando. Mas os candidatos que ofereciam propostas e projetos e um histórico de militância, Marcelo Cerqueira e Valquírima, do grupo Palavra de Mulher Lésbica, eram os candidatos sintonizados com a militância baiana”.

Como pode ser apreciada, na entrevista, o antropólogo Luiz Mott, a fim de aferir juízo de valor em relação a determinado grupo social (supondo serem os “pagodeiros” um grupo homogêneo), parte da premissa da clássica — e, não obstante, recorrente — distinção entre baixa cultura e alta cultura, paradigma que já vem sendo quebrado desde o deslocamento dos modelos europeus de alta cultura, seguido pela emergência dos Estados Unidos como potência mundial, centro de produção e circulação de cultura, e da descolonização do Terceiro Mundo (West apud Hall, 2008).

Não conheço os/as eleitores/as da Léo Kret, não posso, embora verdadeiramente o quisesse, entender o/s fator/es que orientaram o seu voto, ou, quiçá, o que entender por “esculhambação”. O professor Luiz Mott, segundo ele próprio diz na entrevista, cobrara da Léo Kret uma postura séria, recrutara-a à uma identidade específica, isso porque ele já entendera como a forma é importante (ainda que ele alegue sobretudo uma certa ausência de conteúdo), a corporeidade importa e é elemento preponderante para a constituição de “modelos” evocados pelo marketing político. Os/as candidatos/as também já há muito entenderam isso — não me resta dúvida — no entanto, não me parece condizente esse “modelo” para a compreensão do fênomeno Léo Kret e, portanto, não me parece servir como um dispositivo que operacionaliza-se universal e massivamente, caso contrário, militantes históricos/as do movimento LGBT baiano e nacional teriam sido eleitos/as. Assim, a eleição da nova vereadora reivindica certa — permitam-me o clichê — quebra paradigmática, revisão ou reconstituição dos então dados, o que decerto facilitaria a vida de quem se preocupa em compreender esse processo.

Sobre os “pagodeiros”, a própria Léo Kret, em entrevista dada após a eleição, já havia apontado que fora eleita por várias pessoas da periferia que se identificam com o pagode. Também não é novidade a imediata analogia do militante Mott à uma série de valores que inferiorizam os “pagodeiros”. Embora muitas letras do pagode sejam carregadas de machismo e homofobia, gostar e identificar-se com a música — que não resume-se à letra — não necessariamente significa compartilhar de todos os valores nela sublinhados, quando votar em Léo Kret pode denotar a alternativa de escolher uma candidata que consegue dialogar com o seu mundo. Portanto, sugiro que o fenômeno da sua eleição pode ser muito mais rico do que pode a priori parecer, embora sofra constantes tentativas de deslegitimação em nome, inclusive, da autoridade intelectual evocada pelos/as tais cientistas sociais, que perpassam pela austera estigmatização de quem consome a cultura de massa, o que me lembra os filósofos políticos que consideram o eleitorado (ou “dominados”) leigo, para não dizer estúpido, caindo num visível preconceito classista (supondo a associação dos “pagodeiros” às classes populares). Sugiro, então, a leitura do Cosmopolitismo do pobre, do escritor gay – em respeito à sua identidade – Silviano Santiago.

Quanto ao mandato da Léo Kret, caso ela se utilize, como apostou o professor Luiz Mott, das propostas encaminhadas pela sociedade civil organizada, a partir da Conferência Nacional dos Direitos LGBTs, me sentirei muito satisfeito enquanto homossexual. Participei da etapa territorial (da Região Metropolitana) e fui delegado da etapa estadual. Espero, não sem otimismo, que o nosso empenho na Conferência seja útil ao mandato da vereadora, amenizando os déficits do nosso sistema representativo. 

 

Referência Bibliográfica

HALL, Stuart. Da diáspora – identidades e mediações culturais. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2008.