Buracão: porque o buraco é mais embaixo
novembro 19, 2011O erro de Cecília
outubro 22, 2011Projetando ambientes para a vida – um esboço*
outubro 10, 2011Saberes puta
setembro 13, 2011Ao chegar ao Enlaçando Sexualidades para assistir à primeira mesa-redonda do seminário, fui já surpreendido por uma performática senhora que, no decorrer da sua fala, revelou-se puta. Sim, puta, porque considerá-la como “profissional do sexo” seria impingí-la a um politicamente correto cujo ideal asséptico ela é veementemente aversa. Em contraposição daquele que proferiu a conferência de abertura do evento, o deputado Jean Wyllis, ela não recorreu à Hannah Arendt ou a qualquer Foucault para embasar as suas reflexões. De fato, quem esperava uma militante profissional do sexo como quem esperou um parlamentar (e militante) homossexual, com esse tom de respeitabilidade de que estão impregnadas essas palavras – e performances – não pôde conter um sobressalto, ou um inesperado prazer. Gabriela [Leite] na mesa sobre o mundo do trabalho fez questão de relegar a nomenclatura “profissional do sexo” como uma categoria restrita a esse mundo a que ela foi convidada a falar; um conceito estranhamente forjado, quando em verdade é como puta que, na sua vida cotidiana, ela se identifica.
Ora, com esse produtivo deslocamento ela acabou por prôpor uma política da irreverência e da autenticidade, do gozo pelo execrável. Gabriela gosta de ser puta. Por isso recusa abandonar o estigma ao passo em que procura positivá-lo, uma vez que, ao contrário de muitos, desacredita na ideia de que um novo vocabulário para designá-la, mediado pelo politicamente correto, possa transformar sua marginalidade originária. Para ela o que o acionamento discursivo do politicamente correto faz é higienizar, normalizar, ocultar a operação de um preconceito arraigado – o que o impede de se constituir, portanto, como a via mais segura para empreendermos uma real conversão de juizos de valor.
Gabriela falou ainda sobre a confusão sociocultural que paira a respeito de conceitos tais quais sexo e corpo no seu mundo laboral, de modo que aquele que faz trabalho braçal é acusado de vender a sua força de trabalho, enquanto que a prostituta vende o seu corpo. Bem-humorada, ela lembrou que uma amiga a disse certa feita que se de fato vendesse o corpo, ela já nem mais existiria, de “tanto homem” pra quem já “deu”.
Outra confusão que geralmente é feita é entre tráfico de mulheres, turismo sexual e exploração sexual de menores. Ela defende que migração para o trabalho não é e nem pode ser confudida com tráfico. Assim, muitas mulheres que decidem ir à Europa a fim de “ganhar um dinheiro a mais” são vistas como vítimas que nem sabe que as são. Gabriela relata casos de policiais federais que, sabe-se lá com que evidência, caso desconfiem que a mulher está viajando para se prostituir, barram a sua ida.

Gabriela como a imagino
Enfim, este escrito é uma mera tentativa de reproduzir, embora de modo demasiado sintético, a fala daquela dama – da noite ou do cassino – sobretudo para quem não se fez presente na ocasião. Algumas partes que também me afetaram foram deliberadamente suprimidas por estar certo da limitação da língua escrita de reconstituir a experiência em sua plenitude. Na verdade, mais que isso. Eu poderia até imitá-la, como o fiz com certo deleite para alguns amigos, mas então lançaria mão de um decisivo recurso: a performance. Para pessoas tão vivazes como Gabriela é impossível apartar o que ela diz dela mesma; por isso qualquer coisa que eu aqui escreva não vos tocará como a mim naquela manhã. De todo modo, compartilho as suas palavras e proposições porque ela traça no seu discurso, de modo mais ou menos assistemático, críticas à moral social que marca todas que se sentem putas. E que gostamos disso.
Entrevista com teórica queer
junho 11, 2011A presidenta e o “kit gay”
maio 27, 2011Nesta semana a presidenta Dilma Roussef, aquela a quem costumavam referir-se, como a todo o partido do qual faz parte, como “aliada da causa LGBT” deu um presente para nós: ordenou que fosse suspendido o kit anti-homofobia do Ministério da Educação. Até o momento ninguém ouviu falar em telefonema do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, ou melhor, do nosso adorável Lula, dando as condolências ao presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Toni Reis, por esta apunhalada coletiva. É o que era de se esperar de um amigo, uma vez que Lula fez questão de parabenizar Toni pela oficialização da união com o seu companheiro, num ato simbólico que saudou e comoveu a comunidade LGBT.
Dilma, ela própria vítima da heteronormatividade ao ter sua sexualidade posta em questão diversas vezes durante a campanha de eleição presidencial devido à sua masculinidade feminina (embora esse pareça ser um tabu), deu a alcunha do kit anti-homofobia de “propaganda de opção sexual” – o que de fato faz do kit anti-homofobia um “kit gay”. Será que a presidenta já ouviu falar em marketing social? Ou ela acha mesmo que combate à discriminação seja a mesma coisa que fazer com que o grande público compre a ideia de que estamos vivendo cada vez mais num país de todos?
A atitude leviana da presidenta revela não apenas o descaso com os direitos humanos como também a importância crucial da educação na cultura de um povo. Por isso tanta pressão, do lado de cá e do lado de lá. Aliás não estou certo se seria realmente exagerado afirmar que a diferença, pelo menos até antes desse pronunciamento, entre Bolsonaro e Dilma Roussef é que nós sabemos o lado em que Bolsonaro está.
Ao dizer que sexualidade faz parte da vida privada do indivíduo, Dilma, além de ignorar décadas de movimento feminista (como o próprio movimento, cujo pressuposto é justamente o contrário), também ignora a violência que ceifa as vidas que não importam e reduzem-nas a números que maculam a imagem do Brasil.
Ainda que aleguem que ela foi supostamente ludibriada por fundamentalistas – o que é de um risível amadorismo – o discurso que nos marcou não foi de uma presidenta de uma nação, mas de uma gestora de conchaves.
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Para cada legislação o seu protesto
maio 24, 2011Eu ainda não sei se no dia 7 de maio houve propriamente uma “Marcha” da Maconha no Porto. O que vi foram muitas pessoas reunidas em rodinhas a fumar seus baseados nas gramas do Marquês. Todo mundo tranquilinho, como se nem houvesse o que reclamar. E não quero dizer com isso que não aconteceu uma manifestação. Tanto aconteceu que, na padaria por que passei ao chegar, uma funcionária perguntou para a outra o que era “aquilo”, ou seja, qual o propósito da tal aglutinação de pessoas.
Referi-me propositalmente de modo redutor sobre a reunião em rodinhas porque foi a primeira coisa que chamou-me a atenção na Marcha da Maconha à portuguesa. Aqui os coletivos não precisam se reunir na casa de alguém antes da Marcha para fumar. De fato não há nada mais estranho para o maconheiro do que não fumar maconha na Marcha da Maconha, é como ir à Parada Gay e não poder beijar uma pessoa do mesmo sexo, não poder celebrar a diferença. No Brasil, essa privação é condição primordial da realização da Marcha.
A outra diferença é que não escutei cá nenhuma palavra de ordem; o que denota, ao meu ver, uma falta de urgência no protesto. Ora, ainda que tenha uma série de questões a ser reivindicadas, como a legalização em si, Portugal possui uma das legislações de drogas mais avançadas do mundo: aqui ninguém precisa “ficar no saci” quando fuma em local público, ninguém é levado para uma delegacia por que foi pego fumando um baseado. Ninguém “é pego” fumando um baseado.
Em comum com outras lutas por direitos humanos, a Marcha da Maconha reivindica a liberdade, e quando o faz está reivindicando um modo particular de ser. Se em Portugal a exposição da prática de rodas de fumo são a própria manifestação, no Brasil a possibilidade mais evidente de nos manifestarmos é através do discurso: o discurso é a nossa arena. Por isso me parece impossível fazê-lo quando situam a palavra maconha no interdito.
Nada me espantaria se o vídeo abaixo tivesse sido extraído do período ditatorial, mas me entristece muito saber que isso aconteceu ontem. E me entristece mais pensar que nessas horas desaparecem todos os “defensores da democracia”, ou que isso jamais chegará a ser um assunto grave.
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Casamento gay no Brasil: uma questão mal resolvida
maio 5, 2011
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“Eu, bandoleiro
Eu, o proscrito
Eu, o fora da lei
E o que fazer
Eu quero, eu quero, eu quero”
Sueli Costa
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É sabido que nos últimos dias foram divulgados os números do Censo 2010 – o mais profundo levantamento de dados demográficos do Brasil – que, pela primeira vez, vale dizer, em sua décima segunda edição, levou em consideração a união entre pessoas do mesmo sexo. Logo de pronto somos confrontados com uma questão, para mim primordial: o que nós, LGBT, desejamos fazer com estes números fresquinhos?
Não tardou muito e a resposta apareceu na declaração de uma das figuras mais autorizadas no Brasil a falar da (e pela!) comunidade LGBT, nomeadamente o fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), Luiz Mott. Ele defende que “os dados destroem o estereótipo do gay promíscuo”, ao passo em que “mostra uma realidade muito semelhante à união entre os heterossexuais”. Ora, o que fez o antrópologo senão uma interpretação fortemente embasada em parâmetros morais? Ao positivar a experiência da união conjugal e rechaçar a imagem (aquela que deve ser destruída) do gay promíscuo, acabou por “dar um tiro no pé”, e, a partir da enunciação da promiscuidade, sustentou o discurso de uma sociedade que determina minuciosamente os modos pelos quais devem ser geridos os nossos corpos e desejos, sendo a instituição do casamento apenas um – e não menos importante – exemplo.
Quando o decano do Movimento LGBT do país poderia utilizar-se da posição privilegiada para desconstruir certos preceitos morais, que aliás servem de fundamentos para a própria homofobia, ele optou por dizer que o estereótipo do gay promíscuo nos envergonha, que somos tão normais quanto os heterossexuais. Façamos um exercício e pensemos por um momento quem são os mais vulneráveis a homicídios homofóbicos no Brasil. Por um acaso seriam aqueles que vivem em união estável? O que quero com isso dizer é que vivemos já numa sociedade em que a não assimilação pode custar-nos a vida, e portanto devemos estar atentos às estratégias discursivas com que julgamos combater o preconceito.
Trocando em miúdos, afirmar que os dados advertem a sociedade (heterossexual) que não somos promíscuos, não apenas é pressupor que somos todos monogâmicos, como é dar margem à uma hierarquia em que aqueles que optam pela monogamia são superiores aos demais. E porque superiores? Por que são como os heterossexuais. É ainda atirar ao lixo a possibilidade de constituição de novas conjugalidades e uniões não circunscritas à norma, e, para ser exato, impossibilitar a articulação de uma “cultura sexual radical”¹.
É desse jeito que queremos legalizar o casamento gay no Brasil?
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¹ BUTLER, Judith. O parentesco é sempre tido como heterossexual?. Cad. Pagu [online]. 2003, n.21, pp. 219-260. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332003000200010&lng=en&nrm=iso.
Homens do Norte
abril 12, 2011Quando eles entraram no metrô eu não pude conter, em desabafo para o meu amante, aquela velha conhecida e redentora interjeição “Nossa [Senhora!]…”, a qual, quando vinda de mim, esteja certo de que há “coisa boa” nos arredores: toda atenção é pouca. Dessa vez não foi diferente, mas foi. Acompanhado por seu amigo, o moreno de camiseta regata logo percebeu que havia chamado a minha atenção. Durante o trajeto, além de observar admirado os seus próprios músculos – gesto aliás recorrente nos mais exibicionistas – ele via pelo reflexo do espelho (pois que estava sentado paralelo a mim, embora do lado oposto) que eu de fato havia me curvado a fim de apreciar, junto a ele, o seu corpo mais ou menos “trabalhado”. O que me parece é que nesses momentos alguns rapazes, geralmente os menos inibidos e mais auto-confiantes, sentem-se instigados, em concordância com o admirador, a adorar-se, como quem diz “eu sei que sou gostoso” ou “eu (também) me comeria”. Neste ensaio um quão autofágico, a impressão passada pode ser de um consentimento tácito ao olhar que devora, oriundo da compreensão e de um sentimento de justiça por ser ele objeto de desejo.
Ao chegar na estação de destino, os rapazes levantam-se e aquele a quem eu observava com devoção encara profundamente a mim e ao meu namorado, que costuma portar-se com o seu desejo, bem, de maneira discreta. Eu não distingui com exatidão o significado daquele olhar, mas assim retrospectivamente eu acho que continha um misto de estranhamento e de tentativa de intimar-nos, agora que ele estava bem de frente à nós, que estávamos sentados ao lado da porta do metrô. Sei que achei engraçado aquele olhar um bocado inquisidor, e ri-me, como naturalmente rio em muitas situações de enfrentamento. Acho de qualquer modo que ele não gostaria de ter-me provocado riso e pode mesmo tê-lo interpretado como deboche. Foi então que insultou-me, ou melhor, chamou-me repetidamente de “paneleiro” (a correspondente lusitana de viado, bicha, marica, queer) e disse mais algumas coisas que não consegui escutar. A minha reação? Eu estava impassível. Não contente com a indiferença, ele voltou e cuspiu-me toda a saliva que acumulou no intervalo de tempo entre a porta do metrô abrir-se e outra vez fechar-se. As pessoas ficaram assustadas e deixaram escapar expressões como “Oh…”. De tão inusitada a situação, permaneci impassível, enquanto meu namorado, este mais afligido, limpou-me algum resquício de cuspe que ficara no meu rosto. Enquanto isso, o tempo-trivial tomava conta mais uma vez do metrô e as (não muitas) pessoas que lá estavam, aos poucos, uma a uma, esboçavam feições de “ele fez por merecer”, como se alguma ação que realizei durante o percurso, ou quem sabe uma condição ontológica, autorizasse o gostosinho a submeter-me àquela situação vexatória e humilhante.
Deixei o metrô no lixo, sub-local que não é nenhuma novidade para nós. Logo na saída da estação, um rapaz corria em direção a mim e ao meu namorado, que caminhávamos de mãos dadas. Já alarmados, soltamos as mãos e olhamos pra trás, mas o pobre rapaz corria por qualquer outra razão, não nos queria agredir. O aprendizado de temer não é dos melhores. E digo aprendizado por que, até que me aconteça algo, eu nada sei a respeito do mundo. E essa não é a filosofia do risco. O risco existe para mim hoje, que não quero estar de mãos dadas com um rapazinho à meia-noite. No caminho de volta à casa, eu compreendi que aquele jovem, que devia contar com os dezenove ou vinte anos, cuspiu-me para fazer-se homem, e consequentemente superior a mim, capaz de colocar-me no meu devido lugar: de escória.
Ao relatar o caso a um amigo português, ele rogou-me “Por favor, Maycon, não olhe assim para os rapazes do Norte”. E no fundo eu sei que a primeira mulher em que percebi a expressão facial compreensiva ante à agressão, vale dizer, em concordância com o homem, pode ter sido a mãe que a dois dias atrás, igualmente no metrô, tapava o rosto da criança, do menininho, para que ele não visse a indecência que era a minha mão pousada sobre a perna do meu namorado. Ou para que a visualização dessa cena não o desvirtuasse das dignificantes lições dos homens do Norte*.
* Decidi manter essa alcunha, além de fins estéticos, como uma provocação acerca de imaginários e identidades masculinas em Portugal. Evidentemente não sou da opinião de que todo homem do Norte é homofóbico.
Como um objeto não-identificado
fevereiro 15, 2011Sexta-feira foi o dia em que decidi finalmente comprar um objeto que há algum tempo sinto vontade de fazer uso enquanto experimentação erótica. Vamos eu e uma amiga a um sex shop bracarense, voltado para todo tipo de público (senhoras beatas etc), para então buscar um dildo, a tal ultra-sofisticada prótese. Afinal estava em dúvida se levava um vibrador ou um sem esta habilidade. Ainda a título de experimentação – sem com isso utilizar o termo com o desejo de isentar-me de uma possível constatação de que faço/faria uso cotidiano – poderia voltar dias ou meses mais tarde para comprar o outro, então no fim das pouca diferença faria. Fato é que resolvi ficar com um vibrador cor-de-pele, embora hoje, caso pudesse voltar atrás, já não escolheria essa coloração (a única disponível), mas não adentrarei na questão neste post.
Ok, a simpática atendente – não conheço outros sex shops, mas suspeito que também nestes existam simpáticas atendentes – pôs a minha aquisição, conforme manda o figurino, numa plástica e “discreta” embalagem, a qual caiu-me como uma luva, afinal tratava-se pois de uma embalagem discreta para um jovem discreto. Entretanto, se por um lado estou certo de que a segunda é bem aplicada, o primeiro atributo de discrição chega a ser questionável: eu poderia fazer compras em todo o centro comercial de Braga e certamente nenhum ofereceria-me o produto comprado numa embalagem preta. Tudo bem, ainda para fins de tão almejada discrição, coloquei a sacola na bolsa da minha amiga e em seguida fomos a um supermercado comprar mantimentos nada eróticos, embora eu não ache o supermercado pouco erótico por assim dizer. Eis um ambiente em que os nossos olhinhos pode mover-se a todo o tempo sem maiores cautelas. Para todos os efeitos, estamos sempre à procura daquela marca em que confiamos.
Feitas as compras, agradeci à minha amiga pela gentileza em guardar o meu dildo de estimação e pedi-lhe que, para que eu não o esquecesse, o pusesse no meu carrinho de compras, pois é evidente que já naquela noite gostaria de explorá-lo pelo menos visualmente, namorá-lo. Com a chegada do táxi, colocamos as minhas compras no porta-malas e o taxista segura a minha discreta – mas de contornos duvidosos – embalagem preta, a pondo igualmente no fundo do carro. Já em casa, enquanto retirava dos sacos plásticos os mantimentos comprados, dou-me conta da ausência da singela sacola a que dispensei tanto cuidado e atenção, certamente sob efeito do imagético discurso da discrição. É claro que, ao imaginar a expressão estupefata do taxista ao encontrar aquele produto no seu carro, minha primeira reação foi de riso. Certamente um cliente mais discreto que eu deixaria para trás os dezesseis euros investidos naquele objeto. Porém, até pela curiosidade com o decorrer da situação, não foi a atitude que adotei. Pelo contrário, tratei de ligar imediatamente para o taxista. Entretanto liguei para um colega de trabalho daquele que trouxe-me em casa, que foi na verdade quem primeiramente contactei para buscar-me. Informei portanto que havia esquecido uma “embalagem” no carro do seu colega e que por gentileza entrasse em contato com ele.
Não obtive retorno. No dia seguinte, um sábado, ligo novamente para o taxista, que espantou-se pelo fato do seu colega não entrado em contato comigo, então disse que falaria mais uma vez com ele e que logo eu receberia uma ligação do mesmo. O taxista em questão liga-me e diz que mandaria entregar-me a tal embalagem, contudo eu teria de custear a corrida. Eu disse que sem problemas, mas que o chamaria no domingo pois naquele momento eu estava, como sempre, descansando. Assim sendo, ainda contando em recuperar o meu dildo perdido, ligo no domingo e peço que enfim tragam-me a embalagem (nunca o objeto) em casa, ao que ele desculpa-se pois que algum cliente utilizou o porta-malas e acabou por levar consigo a minha embalagem sem que ele se desse conta. Enquanto eu apenas escutava, com aquele pensamento “tava muito bom para ser verdade”, o taxista completa falando que se responsabilizaria pelo furto e perguntou-me quanto custou o produto, cuja nota fiscal estava na embalagem. Eu disse o valor e ele respondeu-me que então passaria na minha casa, o fazendo em seguida sem sequer descontar o valor da corrida, a qual foi necessária para reparar a minha própria desatenção.
Ao relatar toda esta anedota para o meu amigo hétero, que por acaso é português, ele julgou estranhíssimo o fato do taxista ter vindo aqui pagar-me pelo objeto e levantou a hipótese de que no durante ele resolveu ficar com o produto para si. Se foi mesmo o caso – que escolhi acreditar por desconhecer o suposto cliente que levou o meu dildo – o taxista deve ter ficado muito grato pelo meu esquecimento, que acabou por poupá-lo de encontrar pelo caminho uma solícita atendente. Curiosamente ou não, pois afinal isso é apenas uma especulação ilustrativa, dia 14 de fevereiro é o dia de São Valentino. No dia dos namorados em Portugal eu fiquei sem o meu dildo.

